Descarbonização

Descarbonização é o “maior desafio das nossas vidas”, mas pode trazer boas oportunidades de negócios

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Portugal está comprometido em atingir a neutralidade carbónica até ao fim da primeira metade do século XXI, uma meta “ambiciosa”, mas “realista”, dizem as empresas do setor energético. Da ciência, chega um alerta: É preciso que a descarbonização seja sustentável e não crie “outros problemas ambientais”. Este é, assim, um desafio coletivo e sistémico.

Portugal assumiu o compromisso de chegar à neutralidade carbónica até 2050, caminho que se adivinha desafiante, mas também repleto de oportunidades para a economia nacional. Isso mesmo salienta o estudo da McKinsey & Company, apresentado num evento promovido pela BCSD Portugal.

“Graças à descarbonização, Portugal poderá beneficiar de um Produto Interno Bruto (PIB) 5 a 10% mais elevado”, sublinhou Hugo Espírito Santo, sócio na McKinsey & Company, no evento em questão. Esse crescimento da economia poderá acontecer por via, por exemplo, da “exportação de tecnologias maduras” e pelo desenvolvimento de “clusters tecnológicos inovadores”. À boleia, poderão ser criados 300 mil empregos.

Mas a jornada no sentido da neutralidade carbónica não se adivinha fácil. Segundo o referido estudo, as transformações custarão cerca de 500 mil milhões de euros e mais de 50% desse valor deverá ser dedicado aos transportes.

A McKinsey & Company indica, reconhecendo que é “preciso aumentar em 20% a velocidade de descarbonização de Portugal”, que a prioridade deve ser a eletrificação, através do reforço do papel das energias limpas na matriz energética e da aposta nos veículos elétricos; mas também “a prevenção de incêndios florestais e a reflorestação ativa deverão desempenhar uma função fundamental”.

A boa notícia, declarou Hugo Espírito Santo, é que é “muito mais fácil” e mais económico descarbonizar a economia lusa do que as demais da União Europeia, até porque Portugal tem hoje emissões de gases poluentes mais baixas do que a média europeia.

Energia no ‘olho do furacão’

Está em causa, portanto, “o maior desafio das nossas vidas”, considerou Miguel Setas, membro do Conselho de Administração Executivo da EDP, que participou no painel de debate sobre o estudo da McKinsey & Company.

O responsável defendeu que as metas estabelecidas por Portugal são “ambiciosas”, mas “realistas” e sublinhou que “o setor elétrico dará o maior contributo para a penetração das renováveis”, com especial foco na energia eólica e solar.

Também Setas disse entender que há oportunidades de negócio à espreita, salientando que as energias renováveis terão um “contributo relevante para o PIB” e gerarão emprego. Da parte da EDP, o objetivo é eliminar o carvão até 2025 e atingir a neutralidade carbónica até 2030.

Também a Galp Energia – tradicionalmente ligada ao gás e óleo – está empenhada em ficar “mais verde”, prevendo que será neutra até 2050. “Está em curso uma transformação profunda”, observou Carlos Costa Pina, membro do Conselho de Administração Executivo da empresa.

“Os últimos 30 anos provaram que é possível descarbonizar e crescer”, acrescentou o responsável, adiantou que, na Galp, esse caminho passa pela oferta de energias renováveis aos clientes, por reduzir as emissões poluentes e por pensar a “refinaria do futuro”, alimentada a hidrogénio.

E porque este tem de ser um esforço coletivo, destacaram todos os participantes do evento em questão, também a banca está apostada na descarbonização. O BCP, por exemplo, explicou João Nuno Palma (vice-presidente da Comissão Executiva do banco), está focado em reduzir a sua própria pegada, além de financiar projetos inovadores nesta área e de incluir os “riscos climáticos” na concessão de créditos. “É uma grande oportunidade para a reindustrialização da economia portuguesa”, atirou o responsável.

Já Júlia Seixas, professora da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, deixou um alerta: “A neutralidade carbónica tem de ser sustentável”. É preciso olhar para todo o sistema, com a floresta no coração.

Aviso semelhante deixou a secretária de Estado do Ambiente, apelando a que se tenha atenção também à qualidade da água, dos solos e do ar, bem como ao modelo económico em que tudo isto decorre. “Temos de ter estratégias que reduzam efetivamente o consumo de matérias-primas e energia, mesmo que a energia seja verde e as matérias primas sejam bio”, rematou Inês dos Santos Costa, salientando que a mudança depende de todos: política, empresas e cidadãos.