Economia Circular

A reindustrialização é “uma necessidade urgente”

A Soja de Portugal juntou-se ao concurso “From Circular to Linear Ideas!” como patrocinador. Este concurso quer promover a economia circular.

A reindustrialização é uma estratégia decisiva para as metas de sustentabilidade, defendeu António Costa Silva, autor da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação e Resiliência, na conferência “A Reindustrialização e a Transformação Circular”, organizada pela Associação Smart Waste Portugal, em parceria com a Fundação de Serralves.

António Costa Silva, lamenta sermos uma civilização que transforma recursos em lixo a uma velocidade sem precedentes: “Se mantivermos este modelo de desenvolvimento económico, vamos falhar. Dizemos que para salvar o planeta e debelar a crise climática e ambiental é muito importante fazer a transição energética, mas esquecemos a outra equação, que é transformar a economia em que vivemos”. O gestor frisa que o atual sistema “não é saudável”, uma vez que o “capitalismo se baseia num consumo exponencial de recursos”. Citando um estudo norte-americano, revela que atualmente, em termos percentuais, estamos a consumir 618 vezes mais petróleo, mil vezes mais gás, 750 vezes mais níquel e 1500 vezes mais bauxite do que há 50 anos. “Isto é insustentável”.

Para António Costa Silva, a reindustrialização não é, por isso, uma moda ou um “delírio”, mas antes uma “necessidade urgente”. Até porque, a mantermos este ritmo, o autor da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação e Resiliência garante que em 20 anos iremos duplicar o uso de matérias-primas e produzir mais 70% de lixo.

Transformação circular no centro do debate

A economia circular e a forma como os agentes económicos, nomeadamente a indústria, podem transformar os seus modelos de negócio, continuando a potenciar o sucesso das empresas esteve no centro do debate, com a necessidade urgente de transformar a atual indústria levando-a à transição para uma economia circular.

Aires Pereira, presidente do Conselho de Administração da Associação Smart Waste Portugal (ASWP), relembrou na sessão de abertura do evento a importância desta “causa comum” que é a valorização da economia circular enquanto “modelo económico mais sustentável na construção e transição societal”. O presidente salientou que o objetivo desta organização é trazer o tema da reindustrialização circular para a ordem do dia, pois considera que “o nosso País possui um peso grande na indústria, podendo ser autossuficiente no desenvolvimento de tecnologias e soluções de fecho de ciclo”, envolvendo vários agentes que para além de promoverem a redução da produção de resíduos, promovam a sua valorização. “Reconhece-se que o desenvolvimento sustentável e a circularidade devem passar pela ligação à produção industrial, desenvolvimento tecnológico, inovação e digitalização, acrescendo o papel relevante da indústria neste sentido”.

O evento foi composto por dois grandes painéis, com o primeiro a ser dedicado à “Reindustrialização para a circularidade”. Num testemunho em vídeo, a eurodeputada Maria da Graça Carvalho enfatizou a disponibilidade de financiamento, nomeadamente o Programa-Quadro de investigação e inovação inserido no Horizonte Europa 2021-2027, que contempla parcerias público-privadas, um instrumento “muito importante para incentivar a cooperação entre a indústria e as universidades e que ajuda nomeadamente a enfrentar o desafio da economia circular”. Aliás, segundo Maria da Graça Carvalho, estas parcerias representam 50% do orçamento Horizonte Europa, dotado em 95,5 mil milhões de euros.

Uma das principais conclusões do encontro prendeu-se com a necessidade de Portugal ter de apostar numa política industrial robusta, renovando as estratégias até então existentes, para alavancar valor acrescentado no setor industrial. Estas estratégias podem traduzir-se no desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras, que respondam aos desafios da transição para uma economia circular e a afetação de recursos deve ser reorientada para a transição energética, digital e verde. Importa para isso que ocorra uma requalificação e um forte investimento nas competências e capacitação de ativos, para que haja uma evolução dinâmica dentro da indústria e para que os objetivos relativos à economia circular sejam atingidos, especialmente nas Pequenas e Médias Empresas portuguesas.

A transição verde é uma “demanda dos consumidores”

João Torres, secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor, que encerrou o evento, reconheceu o trabalho que a Associação Smart Waste Portugal tem desempenhado e a forma como tem envolvido o Governo nas suas discussões e iniciativas. Na sua intervenção, João Torres enfatizou, no que diz respeito à sustentabilidade ambiental, dois desafios. O primeiro focado na neutralidade carbónica e o segundo centrado na economia circular. “São desafios que não são indissociáveis, têm pontos de contacto, mas que não são exatamente iguais”. O governante referiu que a ambição do País é “muito significativa e merece ser sublinhada”. O mesmo aconteceu com o tema da economia circular, “sendo certo que temos a consciência de que há ainda muito para fazer”. A descarbonização da economia foi referida por João Torres como “uma grande oportunidade para o País”, até porque a transição verde é uma “demanda dos consumidores”. O secretário de Estado falou também do valor acrescentado e das mais-valias económicas que surgem com estas transição e que se sobrepõem, no seu ponto de vista, às necessidades de alteração e adaptação que têm de ser materializadas pelas empresas.