Consumo ético

Selos há muitos… e greenwashing também

Fair Trade e certificação

Greenwashing  e comunicação de sustentabilidade são dois conceitos que muitas vezes se confundem. A Changing Markets Foundation tem vindo a alertar: os inúmeros sistemas de certificação voluntária que oferecem às empresas a possibilidade de obter um selo de reconhecimento da sua sustentabilidade padecem de falta de transparência e podem estar, na verdade, a servir de obstáculo a um consumo verdadeiramente sustentável. Afinal, em que certificações podem os consumidores confiar?

82% dos consumidores portugueses têm mais confiança em produtos com rótulos e selos de certificação, de acordo com o estudo Consumo na Europa: novos caminhos para a confiança, publicado em 2017 pelo Observador Cetelem.

As marcas querem muito mostrar aos consumidores que se preocupam com a sustentabilidade social e ambiental, que apostam em iniciativas de economia circular e que cumprem as disposições regulamentares definidas, e uma certificação pode ser meio caminho andado para mudar a perceção de um cliente cada vez mais consciente e disposto a investir em produtos e em empresas que respeitem os valores da sustentabilidade.

Mas ao analisar todas as certificações disponíveis a nível nacional e internacional torna-se difícil perceber, até para aqueles com um olhar mais treinado, em que certificações podemos realmente confiar.

De acordo com a Ecolabel Index, plataforma que recolhe dados sobre os selos e certificações em sustentabilidade disponíveis a nível mundial com o objetivo de promover a transparência e a informação do consumidor, o número deste tipo de selos nunca cresceu tanto como nos últimos anos. No início de setembro era já de mais de 450, em 25 setores, num total de 199 países. Em Portugal, de acordo com a plataforma, são cerca de 37 os selos e certificações para a sustentabilidade disponíveis.

Susana Fonseca, da direção da ZERO, ONG que se dedica à defesa dos valores da sustentabilidade, conta que há vários selos nos quais podemos confiar, a começar pelo Rótulo Ecológico Europeu, uma das mais antigas certificações que garante ao consumidor a verificação dos processos de produção de várias categorias de produto.

“Há imensas certificações e às vezes é muito difícil, até para as próprias empresas, perceber qual escolher para ter maior visibilidade, o que não é muito positivo em temos de comunicação. Nós gostamos de processos que estejam verificados. A nível europeu, e para produtos, um dos nossos favoritos – apesar de haverem categorias de produtos onde achamos que os critérios não são tão exigentes quanto deveriam ser – é o Rótulo Ecológico Europeu”, começa por explicar.

Susana Fonseca refere ainda que apesar de o Rótulo Ecológico Europeu não estar disponível para todos os produtos, é uma garantia de respeito pelos valores da sustentabilidade. “Esta certificação é interessante porque garante logo à partida o cumprimento de um conjunto de critérios. À partida são produtos que excluem substâncias perigosas, não têm microplásticos, têm menor impacto ambiental em termos de uso de energia, de consumo de água, entre outras coisas, e dão ao consumidor a certeza de que por terem aquele rótulo têm de facto um cuidado maior na sua produção em termos de sustentabilidade. Isto facilita a escolha. Há sistemas de certificação que têm mais provas dadas. Não quer dizer que sejam perfeitos, mas dão de facto algumas garantias”, acrescenta a responsável pelo acompanhamento da área Sociedades Sustentáveis e novas formas de Economia da ZERO.

Susana Fonseca afirma também que, para garantir a transparência, seria importante que existisse uma certificação para a sustentabilidade em todos os seus pilares: “Um dos problemas é que não temos verdadeiramente um selo de sustentabilidade. Normalmente temos, por um lado, selos de certificações ambientais e, por outro, selos de certificações sociais – e não sei se é possível juntá-las a todas -, mas as duas são muito importantes. Mesmo em termos da escolha do consumidor, seria importante que isso fosse mais visível. Por vezes temos produtos que não contêm substâncias nocivas, etc., mas em relação à forma como são produzidos nada é dito…”, conclui.

O perigo do greenwashing

Nusa Urbancic, campaigns director da Changing Markets Foundation, organização que trabalha com ONG’s e organizações ligadas à investigação para denunciar produtos e empresas insustentáveis e promover soluções mais benéficas do ponto de vista ambiental e social, acredita que o mercado beneficiaria de um controlo mais apertado em relação às alegações que as marcas fazem sobre os seus produtos.

“Neste momento há muito pouco controlo sobre as declarações de sustentabilidade que as empresas fazem, sejam essas certificações ou outro tipo de ‘declarações verdes’. No nosso relatório The False Promise of Certification podemos ver diversos tipos de rótulos ambientais que existem, mas o problema é que ninguém fiscaliza se as empresas estão ou não a fazer alegações falsas ou verdadeiras… Atualmente, a Comissão Europeia está a realizar uma consulta pública para decidir se deve ou não tornar mais rígidas as regras sobre alegações e rótulos verdes e esperamos muito sinceramente que seja introduzida mais legislação e maior controlo sobre o que as empresas comunicam aos seus consumidores e também – o que é mais importante – sobre o que os rótulos dizem e se são ou não credíveis”, afirma em declarações à SUSTENTÁVEL.

A campaigns director da Changing Markets Foundation desafia ainda os consumidores a olhar além dos rótulos e pede maior diligência em toda a cadeia de abastecimento. “Acho que o consumidor não deve confiar apenas na certificação, mas olhar além dos selos e rótulos e avaliar as políticas ambientais e sociais, assim como a transparência das empresas em questão. Durante muito tempo as empresas viram a certificação como uma saída fácil e delegaram a responsabilidade pelas suas cadeias de abastecimento em terceiros. Dado o fracasso da abordagem voluntária, é crucial que as empresas tenham responsabilidade e implementem a diligência devida nas suas cadeias de abastecimento”, sublinha.

Retalho tem de ser mais exigente

Nusa Urbancic acredita também que os selos e certificações têm sido uma oportunidade para o greenwashing e pede ao comércio que seja mais exigente na escolha dos produtos que chegam aos lineares.

“A nossa pesquisa mostra que as empresas estão a usar estes rótulos para fazer greenwashing há muito tempo. O problema com a certificação é também que, uma vez que um produto esteja certificado, é muito difícil desafiar os retalhistas ou produtores a tomarem medidas caso sejam descobertos problemas. Dando um exemplo: uma das nossas primeiras campanhas chamava a atenção dos retalhistas para os suplementos de ómega-3 produzidos a partir de krill, pequenos crustáceos semelhantes ao camarão que são uma espécie-chave do ecossistema antártico uma vez que vários animais, desde os pinguins às baleias, dependem da abundância de krill na sua dieta. O krill já está sob pressão devido às alterações climáticas e, a somar a isso, as empresas começaram a pescá-lo. Contudo, desde que o Marine Stewardship Council (MSC) decidiu certificar a pesca do krill – apesar das objeções de cientistas e grandes ONG’s, como a Greenpeace – os retalhistas recusam-se a acreditar que a pesca do krill é insustentável e recusam-se a retirar os produtos que contêm krill. Enfrentamos esse problema repetidamente no nosso trabalho”, conclui.

Estas são as certificações mais reconhecidas no mercado

Com mais de 400 ‘eco-selos’ disponíveis em todo o mundo pode ser um desafio saber em quais confiar. Estas são as certificações com maior reconhecimento nacional e internacional e que atestam a conformidade ambiental e social das empresas em vários setores, desde o grande consumo à agricultura.

Rótulo Ecológico Europeu (EU Ecolabel) ACOMPANHAR COM AS IMAGENS DOS SELOS SE POSSÍVEL
Criado em 1992 e reconhecido em toda a Europa, o Rótulo Ecológico Europeu garante a excelência no cumprimento de elevados standards ambientais tanto em produtos como em serviços. Este selo encoraja as empresas a desenvolver produtos duráveis, fáceis de reparar, recicláveis e que não gerem desperdício durante a produção, promovendo a economia circular.

FSC (Forest Stewardship Council)Criado por várias organizações ambientais e de direitos humanos e empresas internacionais do setor florestal para responder a preocupações crescentes com a desflorestação acelerada, degradação ambiental e exclusão social, o FSC está diretamente associado à proteção das florestas, sendo uma certificação ambiental que garante a proveniência de produtos a partir de florestas certificadas, atentando à sua origem correta e sustentável. Esta certificação está disponível no mercado desde a década de 90 do século XX e é uma das com maior notoriedade. Em Portugal existem mais de 30 entidades certificadoras.

ISO 14001

A certificação ISO 14001 é atribuída a organizações que demostrem fazer uma gestão eficaz dos aspetos ambientais das atividades do seu negócio, tendo em conta a proteção ambiental, prevenção da poluição, cumprimento legal e necessidades socioeconómicas. É uma norma altamente reconhecida e valida a conformidade ambiental e o cumprimento da legislação ambiental em vigor.

Rainforest Alliance Certified
Esta certificação é atribuída a produtos agrícolas e valida o respeito pela biodiversidade, assim como as boas práticas de trabalho para todos os trabalhadores envolvidos na produção. Se um produto tem este selo é porque respeita a conservação das florestas e os direitos humanos dos trabalhadores rurais.

Carbon Trust Standard
Entre as certificações para a indústria, esta é a mais reconhecida e valida as boas práticas no consumo de energia, emissões de CO2 e consumo de água com o objetivo de reduzir o impacto ambiental e promover a eficiência de processos.

UTZ
Este selo foi criado especificamente para a produção de café, chá, cacau e avelãs e pretende garantir a justiça e a transparência na produção e em toda a restante cadeia de abastecimento destes produtos. Esta certificação pretende mostrar ao consumidor que os produtos foram produzidos de uma forma sustentável, desde a exploração agrícola até ao linear do supermercado.

PEFC
Este é maior sistema de certificação florestal do mundo, garantindo uma gestão florestal onde são aplicados, de forma consistente, princípios de sustentabilidade assentes nos três pilares – social, ambiental e económico. Esta certificação tem dois níveis – na floresta, com a verificação da gestão florestal sustentável, e na indústria e comércio de produtos de base florestal, com a certificação de cadeia de responsabilidade -, assegurando a rastreabilidade da matéria-prima certificada desde a sua origem até ao consumidor final.

ECOCERT
Criada em França por agrónomos conscientes da necessidade de desenvolver uma agricultura eco-friendly, a ECOCERT certifica o desenvolvimento sustentável na agricultura.

Fairtrade
Esta é a certificação que coloca as pessoas em primeiro lugar, oferecendo aos agricultores e trabalhadores de países em desenvolvimento a oportunidade de melhorarem as suas condições de vida através de medidas para a redução da pobreza. Se um produto tiver este selo, o seu produtor foi compensado justamente pelo seu trabalho.