Supply Chain

A rede de valor

Supply chain especial Logística e Transportes Hoje
A supply chain evolui da noção de cadeia para um conceito de rede. De lineares e sequenciais passam a redes de valor onde imperam relações “de-muitos-para-muitos” e lógicas colaborativas. Nada disto é novo, mas tudo tende a acentuar-se, impulsionado por fatores como o omnicanal, o novo paradigma do consumidor e as incontornáveis novas tecnologias. Em Portugal, o desenvolvimento será mais lento, fruto da (pequena) dimensão do mercado e do (fraco) poder de investimento. Mas vai acontecer. 

Alcibíades Paulo Guedes, Presidente da Direção da APLOG – Associação Portuguesa de Logística, identifica cinco tendências relevantes na atual supply chain. A primeira é a crescente presença do omnichannel (omnipresença nos vários canais, incluindo o online) e das suas implicações para as operações e estratégia logística. É um tema que “estará no topo da agenda das organizações em geral e, muito em particular, dos grandes retalhistas/distribuidores”.

Outra grande questão que tem vindo a subir na agenda dos vários atores é a economia circular e toda a problemática do impacto ambiental da supply chain e das operações logísticas. O aumento da resiliência da supply chain é outra das grandes tendências. “Quanto mais globais, mais magras e mais sincronizadas forem as cadeias de abastecimento, mais o tema de resiliência e da mitigação dos riscos de disrupção estarão presentes”, diz Alcibíades Paulo Guedes.

Alicibíades Paulo Guedes, Presidente da Direção da APLOG

Alicibíades Paulo Guedes, Presidente da Direção da APLOG

Também a crescente digitalização da economia e dos processos de negócio terá um impacto grande na supply chain e na logística. Por sua vez, a crescente automatização dos processos logísticos é outra evidência, que se desenvolverá fortemente nos próximos anos, no sentido de conseguir automatizar ambientes de grande complexidade (movimentar units of one). Estas são “tendências estruturantes que podem revolucionar a supply chain”, segundo o Presidente da Direção da APLOG, e que tendem a evoluir em paralelo.

Mais pequeno e mais rápido

Questionado sobre as grandes tendências na supply chain, Diogo Santos, Associate Partner da Deloitte, identifica a emergência de novos conceitos de produto, como por exemplo smart products, que agregam em si informação de elevado valor acrescentado, os novos modelos de produção, por exemplo séries de produção curtas e impressão 3D, e o novo paradigma de consumidor, que “detém um poder crescente na sua relação com as empresas”.

Numa perspetiva mais macro, o consultor acredita que as supply chains serão também muito impactadas pela emergência das denominadas megacities, pela crescente urbanização do globo, e pelo cada vez maior peso relativo dos BRIC na economia, que deverá “alterar substancialmente os fluxos de mercadorias à escala global”.

Ao nível tecnológico, a Deloitte identifica três tipos de tecnologias que irão ou já estão a revolucionar as supply chains. Subdivide-as em Tecnologias Maduras, onde inclui as ferramentas de otimização de redes logísticas e inventário, sensores, cloud solutions e robótica, em Tecnologias em Crescimento, de entre as quais se destacam o analytics, os wearables e outras soluções móveis, e em Tecnologias Emergentes, sendo a impressão 3D e os drones as mais relevantes.

Miguel Roquette, Diretor de Desenvolvimento Estratégico do Grupo Luís Simões, aponta o aumento do comércio online, a individualização dos produtos e o desenvolvimento de novos mercados como as grandes tendências na supply chain. A isto acrescem ainda os desafios que são feitos ao setor em termos de pequenos clientes e pequenas encomendas. “O setor da logística já não se faz só dos grandes retalhistas com volumes de encomendas muito grandes, mas também de pequenas encomendas, num número muito superior, o que implica ajustar certas lógicas operacionais”.

A internet é, na sua opinião, um dos grandes catalisadores de uma parte significativa das mudanças que estão a ser feitas, ao nível da digitalização da indústria. Outra tendência atual, que tende a reforçar-se, é a importância para o sucesso das operações que tem o tracking eficaz da informação sobre o produto, as matérias-primas, fabricantes, distribuidores e cliente.

Desafios do comércio eletrónico

José da Costa Faria, Consultor e Formador em supply chain, deixa-nos a sua visão sobre o que está a acontecer no “mundo fascinante do comércio eletrónico” e que logística iremos necessitar. Porque, “as tendências sociais e a tecnologia dão o mote e a logística operacionaliza uma nova forma de comprar e vender que mudará as nossas vidas no futuro que já começou”.

Na sua opinião, o retalho tradicional não irá desaparecer, ainda que esteja em transformação. A lógica não é pensar online versus offline, mas antes online mais offline. Os compradores são hoje mais exigentes e exigem envios mais rápidos e mais baratos, melhores devoluções, melhor serviço ao cliente e um sortido infinito. “Estes parecem ser os fundamentos do comércio digital”, diz José da Costa Faria.

Na sua opinião, “a barra foi colocada bastante alta e continua a subir”. Os retalhistas, marcas e pequenos vendedores precisam de “uma nova forma de pensar, uma nova forma de aliar o melhor do digital com a compra tradicional”. Os consumidores têm afinidade pelas lojas à sua volta e cerca de 75% das compras ocorrem num raio de 20 kms da casa das pessoas. “Na revolução do comércio, o local será um dos campos de batalha concorrenciais e quem o operar melhor tem vantagem competitiva”.

businessman hand using tablet computer and server room background

Uma das mudanças mais importantes que estão a acontecer no universo do retalho é a procura crescente da “Utilidade” e do “Compromisso”, segundo José da Costa Faria. A Utilidade diz respeito “ao que compradores e vendedores “desejam” da sua experiência e inclui coisas que ajudem a reduzir a fricção da experiência, que agilizem o processo de compra e que construam confiança”. Para alcançar o fulfillment é fundamental a logística, que permite assegurar que os consumidores podem escolher como querem receber os seus produtos e ter confiança que os receberão rápida e convenientemente. Já o Compromisso tem a ver com “aquilo que as pessoas “adoram” no ato de compra. Coisas como inspiração, encontrar algo único para si mesmo e tropeçar num grande achado que nem sequer imaginávamos que queríamos. Queremos aproveitar o poder da tecnologia para experimentar uma experiência de compra mais personalizada e mais relevante”.

Pessoas e tecnologia

Aquilo que se espera que as supply chains sejam em 2020 já é visível hoje mas deverá acentuar-se. As supply chains serão “mais integradas, mais ágeis, mais rápidas, mas resilientes, mais instrumentadas e com maior transparência de informação”, diz Alcibíades Paulo Guedes. José da Costa Faria espera uma maior integração e colaboração de todos os stakeholders e serviços em tempo real, com uma maior sofisticação das operações da primeira e última milha. “A supply chain entrará com a próxima década numa nova dimensão tecnológica que mudará muitos dos paradigmas operacionais que nos trouxeram até aqui”, diz. O principal aspeto é “a evolução da noção de cadeia para um conceito de rede”, antevê Diogo Santos. “As cadeias de abastecimento lineares e sequenciais a que nos habituámos serão substituídas por redes de valor nas quais imperarão relações “de-muitos-para-muitos” e lógicas colaborativas, e onde o ativo informação será ainda mais valioso”.

A gestão e a operacionalização destes ecossistemas altamente complexos terá como fatores críticos de sucesso a capitalização das potencialidades das novas tecnologias e um substancial upgrade do nível de talento dos profissionais que atuam nesta área. São exatamente estas as duas áreas onde é prioritário investir, e justamente por esta ordem: investir nas pessoas e na tecnologia. Os recursos humanos terão de ser o investimento prioritário, diz o Presidente da Direção da APLOG. “Se não tivermos os melhores recursos humanos, os mais bem preparados, etc, dificilmente vencemos os desafios que se colocam às organizações. Por outro lado, sem os recursos humanos adequados as outras áreas de investimento, como os equipamentos e as TI, serão pouco consequentes”.

Diogo Santos concorda: “O investimento ao nível dos recursos humanos é incontornável, não só pelo crescente foco na dimensão “serviço”, mas sobretudo pelo facto da crescente tecnologização e digitalização das supply chains exigir um novo mix de competências e com graus de proficiência superiores”. Por outro lado, o investimento em tecnologia é uma inevitabilidade. “A tecnologia constitui um game-changer na performance das supply chains, não só numa perspetiva de eficiência, como dos próprios padrões de serviço”.

A modernização da supply chain requer uma abordagem holística, segundo Miguel Roquette, onde o investimento em TI tem de ser acompanhado com investimento em recursos humanos e formação. “A modernização das empresas faz-se de inovação, mas é necessário que os colaboradores entendam o impacto que terá na operação, os seus objetivos e, talvez mais importante ainda, o seu papel nesse processo”. Para o responsável do GLS, na supply chain do futuro os operadores logísticos estarão na vanguarda da modernização tecnológica, investindo em infraestrutura tecnológica e software, mas também no recrutamento e desenvolvimento dos recursos humanos, e terão um papel cada vez mais relevante como consultores.

Retalho na vanguarda

A modernização da supply chain está a ser liderada por alguns setores de atividade, que servem de referência aos restantes. É o caso da grande distribuição, retalho e empresas de bens de consumo, que são altamente impactados pelo novo paradigma de consumidor. “O retalho tem vindo a liderar o processo de transformação das cadeias de abastecimento no que diz respeito ao omnichannel e a toda a fase final da cadeia, desde a produção à last mile”, diz o Associate Partner da Deloitte.

Também são exemplos de boas práticas as empresas de base tecnológica, os e-taillers e as empresas de fast fashion e fast food e, inevitavelmente o setor automóvel e afins. Este último foi historicamente um setor que impulsionou a inovação ao nível da supply chain, nomeadamente com a introdução do conceito JIT – Just In Time e continua a estar na vanguarda no que diz respeito à integração entre os vários elos da cadeia de abastecimento e à gestão eficaz do risco da cadeia de abastecimento.

O setor têxtil também se tem evidenciado em termos da supply chain. “Nas duas últimas décadas tem-se destacado pela introdução de novos conceitos baseados na customização de produtos e multiplicidade de coleções”, nota Miguel Roquette, avançando com exemplos concretos de boas referências nos setores mencionados: Opel, Wolkswagen, Inditex e Mercadona são exemplos de benchmarking no que respeita à supply chain.

Aprender com os melhores

O que podem as demais empresas fazer para aprender com as empresas internacionais que possuem boas práticas a nível global e utilizam a supply chain como fator de diferenciação e de criação de valor? Antes de mais, podem começar a aprender com os exemplos dos melhores. “Encaixar nas supply chains das melhores empresas globais, das mais exigentes e servindo os mercados mais competitivos e exigentes parece-me ser a melhor forma de aprender com os melhores”, diz Alcibíades Paulo Guedes.

Por este motivo, a APLOG decidiu dedicar o seu 19º Congresso, que se realiza a 19 e 20 de Outubro na FIL-Junqueira, ao tema da “Supply Chain num Contexto de Mudança”. O congresso vai chamar a atenção dos associados, comunidade empresarial e gestores para estas novas problemáticas.

Diogo Nuno Santos - Deloitte

Digo Nuno Santos – Deloitte

As empresas portuguesas devem “aproveitar as oportunidades do mercado global, investigar e implementar novas formas de fazer, ousar, arriscar e ganhar escala”, defende José da Costa Faria.

Já Diogo Santos considera que o maior ensinamento que se pode obter das experiências internacionais é “a criticidade de, através de um processo estruturado, serem selecionados e planeados os investimentos a efetuar. Esta abordagem promove a racionalização dos investimentos, minimiza o risco de investimentos mal sucedidos e potencia o impacto positivo do investimento, maximizando assim o ROI”, nota.

Portugal a caminho

 “Temos em Portugal exemplos dos melhores em cada setor de atividade. O problema é que temos muito poucas empresas portuguesas nesse campeonato dos melhores em cada setor”. O Presidente da Direção da APLOG não está certo de que Portugal possa alterar significativamente o seu posicionamento relativo. “Estamos bastante melhor hoje do que há 20 ou 30 anos atrás. Existe hoje um número significativo de empresas, gestores, CEOs e empresários que reconhece o papel da supply chain na competitividade dos seus negócios e que estão atentos à evolução desta temática”. O problema é que a competição aumentou muito. “É cada vez mais global, com entrada de novos players originários de novas geografias, o que torna muito difícil melhorar significativamente a posição relativa versus outros países”.

Para evoluírem as empresas vão ter de fazer enormes investimentos em termos de recursos humanos, soluções de armazenagem e processamento, soluções de transporte e sistemas de informação. “Muitas empresas portuguesas poderão não estar preparadas ou ter dificuldade em justificar este investimento porque o retorno pode ser muito lento, até porque o mercado natural é muito pequeno”.

É de esperar que as tendências de futuro na supply chain acabem por aplicar-se também a Portugal, mas “com graus de intensidade menores e com um expetável delay face ao panorama internacional”, nas palavras de Diogo Santos. Na sua opinião, a reduzida escala do mercado nacional e o menor peso relativo das trocas comerciais internacionais face a outros países levam a que o conceito de “rede de valor” se aplique com menor intensidade em Portugal.

Por outro lado, a menor capacidade de investimento das empresas nacionais face às suas congéneres internacionais levará a um processo mais longo de tecnologização e digitalização das supply chains. “A exceção a esta regra poderá ser a variável “talento” em virtude do gap acentuado que existe já hoje em dia em Portugal e que torna mais urgente a concretização de melhorias a este nível”, nota.

Ecossistema empreendedor

Miguel Roquette concorda que a eficácia da adoção, por parte de Portugal, das tendências de futuro da supply chain será “parcialmente limitada” pela dimensão do mercado e pela falta de investimento que se sente na indústria nacional.  No entanto, existem aspetos que melhoram este quadro, como por exemplo o elevado conhecimento técnico e operacional e a privilegiada localização geográfica do país. Além disso, defende, existem cada vez mais empresas portuguesas, em diversos setores de atividade, a definir a sua estratégia empresarial tendo em conta a supply chain, o que “revela um aumento da maturidade nas estratégias definidas”.

Mais otimista, José da Costa Faria considera que talento já há e que Portugal está equipado com a geração melhor formada de sempre. “É com esta geração que se irá construir o futuro de uma supply chain que seja uma verdadeira vantagem competitiva”.

Na sua opinião, “está a criar-se um ecossistema empreendedor, inovador e disruptivo em Portugal que pode fazer a diferença no futuro”. Mas, alerta, “esta nova geração que está a chegar aos “laboratórios” das empresas não pode ser “gerida” da mesma forma como gerimos as pessoas no passado. É um novo paradigma de integração inter-geracional que estamos a falar: pessoas diferentes, com uma cultura diferente e com uma visão diferente do futuro”.

Artigo publicado na edição de julho/agosto de 2016 da revista LOGÍSTICA & TRANSPORTES HOJE

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