Um novo relatório do movimento Save Soil, intitulado Soil & Skincare: Skincare Starts Beneath Our Feet, alertou que a degradação do solo está a comprometer a qualidade, fiabilidade e estrutura de custos dos ingredientes naturais usados em produtos de beleza, representando um risco crescente para as marcas que dependem de fontes botânicas.
Embora a procura por cuidados com a pele ‘naturais’ e ‘orgânicos’ continue a crescer, o relatório destacou uma “desconexão raramente abordada na indústria”: a eficácia dos ingredientes e a estabilidade do abastecimento dependem de um solo vivo e biologicamente ativo — um recurso que está a desaparecer rapidamente, enfatizou o relatório.
Segundo a FAO da ONU, mais de 33% dos solos no mundo já estão degradados, e projeções indicam que mais de 90% poderão estar degradados até 2050 se as práticas agrícolas atuais continuarem. De acordo com a análise, para uma indústria que depende de óleos, extratos, minerais e matérias-primas de fermentação da agricultura, isso deixou de ser uma questão ambiental secundária, tornando-se um risco estrutural para os negócios.
“É possível reformular num laboratório, mas não se pode compensar indefinidamente o colapso da biologia do solo no campo”, afirmou Praveena Sridhar, Diretora Científica e Assessora Política do Save Soil. E continua: “a degradação do solo não ameaça apenas os ecossistemas, mas também a qualidade e a resiliência dos ingredientes dos quais a indústria da beleza depende”.
O relatório enfatizou ainda que os ingredientes naturais e orgânicos “já têm um preço elevado”, e com o declínio das terras agrícolas férteis e a crescente pressão climática, o relatório alerta que a escassez desses ingredientes pode se tornar um desafio, especialmente para marcas de pequeno e médio porte que não têm garantias de abastecimento a longo prazo.
De acordo com o estudo, a Europa, o segundo maior mercado de cuidados com a pele do mundo após a Ásia, está particularmente vulnerável. Mais de 60% dos solos europeus são agora classificados como insalubres, com a degradação a custar à região dezenas de milhares de milhões de euros por ano. Ao mesmo tempo, os cuidados com a pele representam a maior categoria no mercado de beleza europeu, avaliado em 104 mil milhões de euros.
“A contradição é clara: a indústria está a aumentar a sua dependência da natureza, ao mesmo tempo que corrói os sistemas naturais dos quais depende”, frisou o movimento Save Soil.
O relatório defendeu que os rótulos ‘natural’ e ‘orgânico’ não garantem a qualidade dos ingredientes se a saúde do solo não for considerada. Embora a certificação orgânica restrinja o uso de produtos químicos, ela não avalia a biodiversidade do solo, a matéria orgânica ou a fertilidade a longo prazo.
O Save Soil solicitou maior transparência sobre a origem dos ingredientes e as práticas de manejo do solo, além de mais investimento na agricultura regenerativa nas cadeias de abastecimento de produtos de beleza. Também defende o alinhamento com políticas emergentes que reconhecem o solo como infraestrutura crítica.
“O futuro dos cuidados com a pele não será decidido apenas pela inovação nos laboratórios ou nas embalagens. Ele será moldado pela forma como a indústria trata o solo: como um insumo descartável ou como um ativo biológico que sustenta a qualidade dos ingredientes, a credibilidade da marca e o crescimento a longo prazo”, enaltece o movimento.

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