Circularidade

Descarbonização da aviação: Como novos projetos estão a ‘mudar o jogo’

Descarbonização da aviação: Como novos projetos estão a ‘mudar o jogo’ Direitos Reservados // Lunghammer – TU Graz

A transição energética é um dos maiores desafios a nível global, especialmente na União Europeia (UE), onde a redução das emissões de CO₂ e a independência dos combustíveis fósseis são prioridades.

A biorrefinaria surge como uma solução promissora, transformando resíduos agroindustriais em fontes de energia sustentável. O projeto ToFuel destaca-se nesse contexto ao converter excedentes de tomate em combustível sustentável para a aviação.

ToFuel é um projeto europeu que utiliza tecnologias avançadas para transformar resíduos de tomate em Sustainable Aviation Fuel (SAF). Integrando processos biotecnológicos e termoquímicos, a iniciativa cria um ciclo sustentável, aproveitando o CO₂ gerado para a produção de algas.

Com a participação de centros de pesquisa como a TU Graz, coordenadora do projeto, e a Universidade de Zagreb, o projeto envolve 11 parceiros, incluindo o Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG).

A REVISTA SUSTENTÁVEL conversou com Teresa Ponce de Leão, presidente do Conselho Diretivo do LNEG e vice-presidente da ESEIA (European Sustainable Energy Innovation Alliance), que destacou que o projeto não só contribui para a descarbonização da aviação, mas também posiciona Portugal como líder na produção de SAF a partir da fileira do tomate. Além da contribuição da líder do Conselho Diretivo do LNEG, a iniciativa contou ainda com o apoio de Luis Duarte, Investigador da Unidade de Bioenergia e Biorrefinarias do LNEG.

Teresa Ponce de Leão, presidente do Conselho Diretivo do LNEG e vice-presidente da ESEIA

Qual o objetivo central do novo projeto em que participa o LNEG no âmbito da ESEIA?
O projeto ToFuel parte de uma ideia simples e poderosa: dar uma nova vida aos sobrantes do tomate, uma das culturas mais relevantes da agroindústria nacional.

O objetivo é transformar resíduos agrícolas e industriais do tomate em combustível sustentável para a aviação (SAF – Sustainable Aviation Fuel), um setor onde a eletrificação ainda não é uma solução viável.

Ao fazê-lo, o projeto cria valor ao longo de toda a cadeia — do agricultor à indústria —, reforça a independência energética e contribui de forma concreta para os objetivos europeus de Neutralidade Climática, reduzindo as emissões de CO₂ num dos setores mais difíceis de descarbonizar.

O projeto ToFuel parte de uma ideia simples e poderosa: dar uma nova vida aos sobrantes do tomate, uma das culturas mais relevantes da agroindústria nacional.

Em que consiste este novo projeto europeu? Que papel terá o LNEG?
O ToFuel assenta num conceito integrado de biorrefinaria avançada, que combina biotecnologia, processos termoquímicos e captura e utilização de CO₂.

Entre as inovações chave destacam-se duas tecnologias de ponta:

•             Um processo de fracionamento físico-químico da biomassa, que permite aumentar a eficiência da conversão em lípidos por microrganismos, operando próximo da temperatura ambiente;

•             A liquefação hidrotérmica, que converte biomassa em bio-óleo sob elevadas condições de pressão e temperatura.

O CO₂ gerado é reaproveitado na produção de algas produtoras de lípidos, criando um sistema integrado e próximo da neutralidade carbónica. Após purificação, os lípidos e o bio-óleo são convertidos em SAF compatível com os padrões internacionais.

O LNEG desenvolve estes processos em estreita colaboração com a TU Graz (Áustria), coordenadora do projeto, e com a Universidade de Zagreb, integrando um consórcio europeu de 11 parceiros de excelência.

Quais as áreas prioritárias para acelerar a transição energética na Europa?
A prioridade central é o desenvolvimento de tecnologias de conversão de biomassa, no âmbito das biorrefinarias, essenciais para a afirmação da bioeconomia e para a transição energética.

Esta abordagem está totalmente alinhada com a nova Estratégia Europeia para a Bioeconomia, apresentada pela Comissão Europeia em novembro de 2025, que visa reduzir a dependência de combustíveis fósseis e reforçar a circularidade da economia.

O LNEG, através da sua Unidade de Bioenergia e Biorrefinarias, tem assumido um papel de charneira a nível nacional e internacional, com infraestruturas e competências reconhecidas em projetos como o BBRI, BRISK II e Risenergy.

A prioridade central é o desenvolvimento de tecnologias de conversão de biomassa, no âmbito das biorrefinarias, essenciais para a afirmação da bioeconomia e para a transição energética.

De que forma esta iniciativa se relaciona com os projetos BioEnergyTrain e Phoenix, em que o LNEG também participou?
O ToFuel é uma continuidade natural do percurso iniciado com os projetos BioEnergyTrain e Phoenix, ambos H2020 e liderados pela ESEIA, aliança da qual o LNEG é membro fundador.

Esses projetos focaram-se na formação avançada e na criação de redes de excelência em bioenergia e bioeconomia. Hoje, essas competências e redes são aplicadas em soluções concretas, com impacto industrial e societal. Primeiro, formaram-se pessoas e consolidaram-se redes; agora transformam-se esse conhecimento em inovação aplicada.

Que impacto concreto pode ter no setor energético português e europeu?
Os processos serão desenvolvidos desde a escala laboratorial até à instalação piloto do Fraunhofer, em Leuna (Alemanha). No final do projeto, espera-se dispor de tecnologia suficientemente madura para atrair investimento industrial.

Portugal tem aqui uma oportunidade clara: é o 3.º maior produtor de tomate da UE, segundo dados Eurostat de 2024. Esta posição estratégica pode ser decisiva para integrar o país nas futuras cadeias de valor do SAF no médio prazo.

Os resultados poderão apoiar recomendações políticas futuras, posicionando Portugal como referência europeia na produção de SAF a partir da fileira do tomate.

Como garantir que as soluções chegam à sociedade e à economia?
Desde a conceção do projeto, a ligação ao mercado foi uma prioridade. O consórcio integra empresas nacionais e internacionais, incluindo três empresas portuguesas, e conta com um Conselho Consultivo industrial.

As empresas participam no co-desenho das soluções, validam a viabilidade técnica e económica e preparam antecipadamente a adoção das tecnologias, garantindo transferência efetiva de conhecimento e criação de valor a longo prazo.

Como pode o projeto influenciar as políticas energéticas europeias?
O ToFuel vai gerar evidência técnica fundamental para políticas como o ReFuelEU Aviation, integrada no pacote Fit for 55. Demonstra, de forma concreta, como sobrantes agroindustriais podem contribuir para a descarbonização da aviação.

Os resultados poderão apoiar recomendações políticas futuras, posicionando Portugal como referência europeia na produção de SAF a partir da fileira do tomate.

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