Transição energética

Combustíveis limpos precisam de investimento e políticas estáveis para ganhar escala

Combustíveis limpos precisam de investimento e políticas estáveis para ganhar escala iStock

Os combustíveis limpos continuam a ser, em média, mais caros de produzir do que os combustíveis fósseis. Ainda assim, podem tornar-se competitivos quando são considerados benefícios como segurança energética, criação de emprego, redução de importações e menor impacto ambiental, segundo uma análise da Bain & Company.

O relatório defende que estes combustíveis podem ter um papel relevante na construção de um sistema energético mais seguro e sustentável. Ao contrário dos combustíveis fósseis, cuja produção está concentrada em poucas regiões, os combustíveis limpos podem ser produzidos a partir de recursos mais distribuídos, como resíduos orgânicos, resíduos agrícolas, culturas de cobertura e excedentes de eletricidade renovável.

Essa diversificação pode reduzir a dependência de importações e a exposição à volatilidade dos preços. Segundo dados da Agência Internacional de Energia citados no relatório, os biocombustíveis líquidos já reduziram a dependência de importações de combustíveis para transporte entre 5% e 15% em vários países importadores líquidos de combustíveis fósseis.

A análise aponta também benefícios económicos. Cada milhão de dólares investido na produção de combustíveis de base biológica ou sintética gera entre 10 e 30 empregos, acima dos 5 a 10 empregos associados aos combustíveis convencionais. Em termos ambientais, a Bain & Company estima que os combustíveis limpos possam reduzir as emissões de CO2 entre 1,0 e 2,5 gigatoneladas por ano até 2050, em cenários intermédios.

Apesar deste potencial, o mercado continua limitado. Os combustíveis limpos representam cerca de 1,3% do consumo global de energia, sobretudo através de misturas de bioetanol e biodiesel. A procura poderá crescer entre duas e três vezes e meia até 2040, inicialmente no transporte rodoviário e, mais tarde, em setores de difícil descarbonização, como aviação, transporte marítimo e indústria pesada.

A principal barreira continua a ser o custo. O relatório refere que estes combustíveis são mais caros devido à intensidade de capital, aos custos das matérias-primas e da logística, aos riscos de mercado e à menor maturidade tecnológica de algumas soluções.

Os biocombustíveis mais estabelecidos, como etanol, biodiesel e diesel renovável de óleo vegetal hidrotratado, são atualmente as opções mais viáveis. No entanto, a disponibilidade de matérias-primas e os limites tecnológicos dificultam uma maior redução de custos e o aumento da escala. Já os biocombustíveis avançados, os combustíveis sintéticos e as soluções baseadas em captura de carbono continuam a ter custos mais elevados.

A Bain & Company defende que a sustentabilidade terá de ser comprovada. Só os combustíveis que garantam reduções verificáveis de emissões ao longo do ciclo de vida e cumpram critérios ambientais e sociais deverão conseguir apoio político, acesso ao mercado e procura.

O relatório alerta ainda que as tecnologias e matérias-primas atualmente disponíveis não serão suficientes para responder à procura prevista. Para aumentar a produção, será necessário alargar a base de recursos sustentáveis, desenvolver novas tecnologias de conversão e criar métodos de produção com menor intensidade carbónica.

A carteira de projetos está a crescer, com pelo menos 12,5 exajoules de nova capacidade planeada até ao final da década. No entanto, apenas cerca de 10% dos projetos alcançaram a decisão final de investimento. Como os prazos de construção após essa decisão variam entre dois e cinco anos, a capacidade operacional deverá crescer de forma limitada no curto prazo.

Segundo o relatório, o investimento anual em capacidade de produção de combustíveis limpos aumentou cerca de 30% entre 2024 e 2025, atingindo 25 mil milhões de dólares em 2025. Ainda assim, de acordo com dados da Agência Internacional de Energia citados no relatório, cumprir os compromissos globais atuais exigiria aumentar esse valor para cerca de 100 mil milhões de dólares por ano até 2030.

Entre os principais obstáculos ao investimento estão custos elevados, risco tecnológico, financiamento insuficiente, incerteza no abastecimento de matérias-primas, cadeias de fornecimento fragmentadas, instabilidade regulatória e falta de harmonização em normas e certificações.

Para desbloquear investimento, a análise defende regras públicas mais previsíveis, colaboração entre setor público e privado e novos modelos de negócio. O relatório aponta ainda a importância de contratos de longo prazo, mecanismos de partilha de risco, financiamento adequado e parcerias ao longo da cadeia de valor.

A Bain & Company conclui que os combustíveis limpos podem contribuir para reduzir emissões nos transportes e na indústria, diversificar o abastecimento energético e criar emprego industrial e rural. No entanto, a sua expansão dependerá de políticas estáveis, maior coordenação entre agentes e capacidade para transformar projetos planeados em produção efetiva.

 

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