Circularidade

APED quer transformar lojas em porta de entrada para a economia circular

APED quer transformar lojas em porta de entrada para a economia circular Direitos Reservados // Sara Matos

Guardar um telemóvel antigo numa gaveta, deixar um pequeno eletrodoméstico parado na garagem ou manter um equipamento em casa “para o caso de um dia fazer falta” continua a afastar resíduos elétricos e eletrónicos dos circuitos formais de recolha, reciclagem e reutilização.

É sobre esse comportamento que incide a campanha “Não fiques com ele”, lançada pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), que procura mobilizar os consumidores para a entrega destes equipamentos nos pontos de recolha disponíveis.

A iniciativa foi desenvolvida em parceria com a ERP Portugal e conta com o apoio institucional da Agência Portuguesa do Ambiente e da Direção-Geral da Economia e o ponto de partida é um dado do estudo da ERP Portugal sobre os “Hábitos dos Portugueses em relação ao Lixo Eletrónico”: 33% dos portugueses admitem guardar equipamentos antigos em armários, garagens ou prateleiras.

Em entrevista à REVISTA SUSTENTÁVEL, Cristina Câmara, Diretora de Sustentabilidade da APED, defende que a resposta ao problema passa pela combinação entre infraestrutura, sensibilização e mudança de hábitos de pós-consumo.

A distribuição entre o cidadão e a economia circular

Para Cristina Câmara, a distribuição ocupa hoje uma posição relevante na recolha e encaminhamento de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos em Portugal. “A distribuição é hoje um importante elo de ligação entre o cidadão e a economia circular”, afirma. A responsável sublinha que o papel do setor não se limita ao cumprimento da obrigação legal de receção e encaminhamento de equipamentos usados para reciclagem.

“O nosso papel vai muito além do cumprimento de uma obrigação legal de receção e encaminhamento de equipamentos usados para reciclagem; funcionamos como uma plataforma de alta eficiência”, refere a Diretora de Sustentabilidade da APED.

Segundo Cristina Câmara, a presença dos associados da APED permite aproximar a recolha dos consumidores e simplificar o gesto de entrega. “Através dos nossos associados, garantimos que a entrega de equipamentos elétricos e eletrónicos seja tão simples e acessível quanto o ato da compra, assegurando que o material seja recolhido através de um circuito de triagem e valorização, evitando, assim, o encaminhamento inadequado”, acrescenta.

A distribuição é hoje um importante elo de ligação entre o cidadão e a economia circular.

Infraestrutura existe, mas comportamento ainda pesa

A rede atual inclui 1.692 pontos de recolha nos espaços dos associados da APED, em complemento à rede de recolha das entidades gestoras deste fluxo específico e ao papel dos municípios. Para Cristina Câmara, esta cobertura demonstra que a infraestrutura física em Portugal é “robusta” e oferece uma “cobertura territorial abrangente”.

Apesar disso, a acumulação doméstica mantém-se. A responsável associa este comportamento a dois fatores principais: a chamada “posse emocional”, ligada ao receio de perder o valor residual do equipamento, e o desconhecimento dos riscos ambientais associados à retenção destes resíduos em casa.

“É certo que todos reconhecem que a reciclagem é essencial para preservar o ambiente, mas poucos estão conscientes do verdadeiro impacto da falta dela — principalmente neste tipo de equipamentos, que ainda causam muitas dúvidas”, afirma Cristina Câmara. Para a responsável, a sensibilização deve ir além da indicação do local de entrega: “Mais do que dizer o quê, temos de explicar porquê e como.”

A campanha procura precisamente responder a esse desafio. Desenvolvida para criar uma mensagem de sensibilização e informação próxima do consumidor, recorre ao humor, a referências culturais reconhecíveis e a uma linguagem próxima para promover comportamentos mais responsáveis no momento da entrega de equipamentos usados.

Acreditamos que o sucesso deste modelo dependerá da capacidade de criar soluções simples, convenientes e economicamente viáveis para o consumidor final.

Normalizar a entrega no ponto de venda

O ponto de venda surge, nesta abordagem, como um espaço relevante para a normalização da entrega de resíduos elétricos e eletrónicos. A proximidade das lojas ao consumidor permite reduzir barreiras no momento de encaminhar equipamentos usados para os circuitos de triagem e valorização.

Atualmente, os associados da APED garantem cerca de 17% da recolha global destes resíduos realizada pelas entidades gestoras. Para Cristina Câmara, aproximar Portugal das metas europeias exige reforçar e incentivar comportamentos que assegurem a correta entrega dos equipamentos. As lojas, sustenta, constituem um canal que pode assegurar simplicidade e eficiência no processo de recolha e encaminhamento.

Este contributo, porém, exige capacidade operacional por parte dos retalhistas. A gestão destes fluxos implica desafios diários relacionados com a limitação de espaço para armazenamento seguro de resíduos, muitos deles volumosos, bem como com a alocação de recursos e a coordenação logística necessária para garantir o encaminhamento rápido.

Segundo Cristina Câmara, o setor tem procurado responder a estas barreiras com investimento contínuo em processos e formação de equipas. A gestão dos resíduos dentro das lojas exige, por isso, articulação entre espaço físico, procedimentos internos e ligação aos circuitos de recolha e valorização.

É certo que todos reconhecem que a reciclagem é essencial para preservar o ambiente, mas poucos estão conscientes do verdadeiro impacto da falta dela — principalmente neste tipo de equipamentos, que ainda causam muitas dúvidas.

Mais colaboração na cadeia de valor

O papel da distribuição na transição para modelos mais circulares é associado pela APED à sua capilaridade, proximidade ao consumidor e influência na promoção de boas práticas ao longo da cadeia de valor. Para Cristina Câmara, estas características dão ao setor condições para impulsionar comportamentos mais alinhados com a economia circular.

As parcerias institucionais assumem também relevância neste processo. A responsável aponta a colaboração entre produtores, retalhistas e Estado como um fator importante para consolidar um ecossistema mais sustentável e operacionalmente integrado.

Nos próximos anos, Cristina Câmara antecipa uma integração mais estrutural entre logística inversa, economia circular e responsabilidade alargada do produtor. A evolução do modelo deverá passar por uma colaboração mais estreita entre os diferentes elos da cadeia, com maior peso do ecodesign e da reparação.

“Acreditamos que o sucesso deste modelo dependerá da capacidade de criar soluções simples, convenientes e economicamente viáveis para o consumidor final”, afirma. Para a Diretora de Sustentabilidade da APED, o retalho deverá manter um papel central neste processo: “O retalho, pela sua proximidade e capilaridade, terá um papel decisivo na massificação de comportamentos circulares e na transição para modelos de consumo mais sustentáveis”.

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