Entrevista GS1: Há uma enorme oportunidade de crescimento da GS1 Portugal no setor logístico

Entrevista GS1: Há uma enorme oportunidade de crescimento da GS1 Portugal no setor logístico

No ano em que o Código de Barras comemora o seu 40º aniversário, a GS1 Portugal Codipor reforça as suas ambições. Disseminar o conhecimento sobre as vantagens da utilização das normas GS1 junto de setores de atividade onde o seu uso é ainda reduzido é um dos objetivos, de acordo com o Diretor Executivo da associação, João de Castro Guimarães.

Quais são os principais benefícios das normas GS1, em particular para os setores da distribuição, transportes e logística?

A GS1 Portugal está integrada numa organização mundial que agrega 150 países e representa o maior sistema de standards da cadeia de aprovisionamento. É uma associação sem fins lucrativos, neutra, multissetorial e orientada para e pelo utilizador. A sua grande vantagem é o facto de ser, de longe, o sistema mais usado em todo o mundo. Os benefícios da utilização dos códigos GS1 podem ser vistos a três níveis: identificação, captura e partilha de informação. O processo começa pela identificação, seja de ativos, localizações, serviços ou produtos. A identificação é feita de uma forma única, com recurso a cerca de uma dezena de identificadores chave. A segunda fase é a da captura da informação de forma automática, o que permite trabalhar de forma muito mais rápida e eliminar muito o número de erros, reduzindo as perdas e as ruturas no ponto de venda. A terceira fase é a da partilha, onde existem grandes vantagens, que se sentem muito na área do retalho. As grandes vantagens da utilização das normas GS1 são, assim, a eficiência no controlo de inventários, eliminar ruturas e erros, inventariar bem e depressa, o que reduz custos. As normas fomentam a colaboração entre os parceiros da cadeia de valor, garantem que os produtos seguem o que está regulamentado, evitando a contrafação, e fomentam a sustentabilidade, graças ao aumento da eficiência. O nosso grande projeto este ano é o GDSN – Global Data Management Network, um catálogo eletrónico que permite a compra e a venda de produtos entre retalhistas e produtores através de bases de dados certificadas pelo GS1. Cada ficha técnica tem mais de 100 campos, o que exige alguma disciplina na implementação. O GDSN fomenta a colaboração entre os parceiros da cadeia pois permite desde a pesquisa até à própria compra. E é totalmente sustentável, pois elimina a utilização de papel. Neste momento estamos a fazer ensaios com uma categoria de bebidas da Nestlé Portugal e com uma categoria de higiene oral da Johnson & Johnson em três das maiores insígnias: Sonae, Jerónimo Martins e Auchan. Estamos numa fase quase de roll out e acreditamos que vai ser possível promover as maiores eficiências.

O grau de maturidade da utilização das normas GS1 é muito superior em setores como os bens de consumo e o retalho, face a outros como os transportes e a logística. A que se deve esta diferença?

A GS1 Portugal tem 7000 associados, desde micro a grandes empresas. Operamos junto de 20 setores de atividade, mas temos três setores nucleares, onde estamos a apostar fortemente, com equipas específicas dedicadas: retalho e bens de consumo, transportes e logística e saúde. Estamos largamente presentes no retalho e bens de consumo, que representam cerca de 60% da nossa base associativa, com cerca de 4000 empresas. Já o setor da saúde representa menos de 2% dos nossos associados e a logística apenas 0,5%, com cerca de 35 associados. São normalmente grandes empresas, mais de metade operadores logísticos e também temos transportadores, armazenistas e alguns serviços de logística. O que se passa é que este setor normalmente delega esta tarefa nos seus clientes – indústria e retalho.
A maior maturidade de utilização dos códigos GS1 na indústria de bens de consumo explica-se pelo facto de a distribuição moderna ter funcionado como um driver, teve a força suficiente para impor uma mudança substancial na utilização das normas, o que não se verificou noutros setores
Temos ainda três novos setores estratégicos: o setor financeiro, onde neste momento existem grupos de trabalho conjuntos entre o governo norte-americano e a GS1, com o objetivo de criar indicadores (KPI), que depois possam conduzir a normas, para ajudar a antecipar riscos sistémicos como os que geraram a crise financeira de 2008. Um setor importantíssimo é o setor automóvel alemão, que em fevereiro passado anunciou a adesão total ao sistema GS1, substituindo os seus próprios sistemas proprietários, face às vantagens de terem um sistema único e global. Outro setor vital é o postal e os serviços postais internacionais também aderiram ao sistema GS1 por entenderem que a nossa localização é mais vantajosa, pela sua globalidade.

O que está a GS1 Portugal a fazer para promover a adesão às normas por parte dos setores onde ainda são pouco usadas?

Acreditamos que há uma enorme oportunidade de crescimento da GS1 Portugal no setor logístico, da saúde ou da construção, onde há armazenistas que têm mais de 100 mil referências e continuam a não utilizar os nossos códigos. O custo anual para tornar-se associado da GS1 ronda os 240 aos 390 euros. Já os custos relacionados com a implementação dos códigos, associados aos equipamentos, pagam-se em meses. A grande barreira é a mudança, que é sempre difícil…No caso dos transportes e da logística estamos a fazer um esforço muito grande para dar a conhecer as vantagens das nossas normas e temos contado com o apoio da APOL – Associação Portuguesa de Operadores Logísticos e da APLOG – Associação Portuguesa de Logística. Criámos um Comité Logístico Ibérico, em parceria com a nossa congénere espanhola (AECOC), com quem desenvolvemos três projetos importantes em 2012 para o setor dos transportes e do retalho. Em 2013, vamos implementar em Portugal o projeto TUM – Transporte Urbano de Mercadorias, que envolve Lisboa, Madrid e Barcelona, e vamos trazer um projeto de ponta extraordinário, um benchmarking logístico de transportes envolvendo retalhistas e produtores de marca, onde há um indicador logístico da performance e um quadro de honra dos melhores. Em Espanha este projeto está na sua quarta edição.

Quais são as normas GS1 mais úteis para o setor dos transportes e da logística?

O código de barras da logística é o chamado EAN128 e também o SSCC – Serial Shipment Container Code, que identificam claramente onde e quando o produto foi feito e por onde passou até ser vendido, tornando mais fácil agilizar o processo de saída e de deslocação do produto ao longo da cadeia de valor. Para identificação de locais temos o GLN – Global Location Number, que permite identificar prateleiras, casas ou doentes num hospital. O RFID Radio-Frequency Identification – é também muito relevante na cadeia logística.Temos também a Etiqueta Logística (STILL – Standard Internacional para a Etiqueta Logística), que contém códigos logísticos que identificam unidades logísticas e permitem a circulação eficiente e segura ao longo de toda a cadeia de valor. As suas vantagens principais são facilitar a rastreabilidade, pois uniformiza toda a informação necessária numa única etiqueta, reduzindo a complexidade que dificulta a rastreabilidade dos produtos, a gestão do inventário, a rapidez da operação e a segurança. Alguns países europeus já adotaram amplamente a etiqueta logística, com níveis de implementação entre os 60% e os 90%, caso de Espanha, Reino Unido, França, Bélgica, Alemanha, Suécia e Noruega. Em Portugal a GS1 Portugal vai criar um piloto ainda este ano para avançar com a sua implementação.

Quais são as áreas e projetos onde, futuramente, as normas GS1 apresentam maior potencial?

As normas GS1 representam uma enorme janela de oportunidade para o B2C – Business to Consumer, pois permitem aos consumidores finais aceder a informação fiável sobre os produtos. O consumidor é cada vez mais exigente na procura de informação sobre os produtos e uma das grandes preocupações dos produtores de marcas e dos retalhistas mundiais é a toxicidade de informação que existe na internet sobre as próprias marcas, de acordo com um inquérito realizado no decurso do The Consumer Goods Forum, há dois anos. A GS1 é o parceiro da cadeia que pode disponibilizar informação fiável, através do Global Data Sincronization Network. A base já existe, tem de ser alimentada, e temos de criar aplicações que possam ser lidas pelo consumidor. A porta de entrada para o acesso do consumidor a informação fiável sobre o produto será o código de barras, ou o databar, através de aplicações disponíveis nos seus telemóveis. Foi já assinado um memorandum de entendimento entre a GS1 e o The Consumer Goods Forum, em termos de top management, para fomentar o desenvolvimento dessas aplicações.
Os principais temas no que respeita às normas GS1 passam pela partilha de informação, pela criação de grupos de trabalho europeus e por melhorar a qualidade dos dados disponíveis. Temos capacidade para o fazer e conseguir com isso promover uma série de atividades.Por outro lado, podemos tornar-nos um parceiro ainda mais ativo na fatura eletrónica, potenciar a nossa atuação na traçabilidade da área alimentar e da saúde e na luta contra a contrafação. E, finalmente, continuar a alargar as vantagens das nossas normas a mais e mais setores, como o setor público ou a área aduaneira. 

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