Transição energética

EUA lideram expansão global de centrais a gás impulsionada pela IA

EUA lideram expansão global de centrais a gás impulsionada pela IA iStock

Os Estados Unidos da América (EUA) estão a liderar um forte aumento global da construção de centrais elétricas a gás, um movimento que poderá provocar um salto significativo nas emissões responsáveis pelo aquecimento global.

A principal força motriz desta expansão é o crescimento acelerado de centros de dados destinados a suportar aplicações de inteligência artificial (IA), segundo uma nova previsão da Global Energy Monitor (GEM).

De acordo com um relatório da organização, 2026 deverá bater o recorde anual de nova capacidade elétrica a gás a nível mundial. Os projetos atualmente em desenvolvimento poderão aumentar a capacidade global existente em quase 50%.

Os EUA estão na linha da frente deste impulso, depois de terem triplicado a capacidade de produção a gás planeada em 2025, num movimento que deverá intensificar-se nos próximos cinco anos.

Segundo a análise, grande parte desta nova capacidade destina-se a responder às elevadas necessidades energéticas da IA. Cerca de um terço dos 252 gigawatts de centrais a gás em desenvolvimento a nível mundial deverá ser instalado diretamente em centros de dados.

O GEM avançou ainda que esta aposta terá um custo climático elevado, numa altura em que a comunidade científica alerta para a necessidade urgente de abandonar os combustíveis fósseis para evitar consequências climáticas graves.

De acordo com a análise, se todos os projetos a gás atualmente em desenvolvimento nos Estados Unidos forem concluídos, estima-se que provoquem 12,1 mil milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono ao longo do seu tempo de vida, o dobro das emissões anuais atuais do país provenientes de todas as fontes.

À escala global, o boom planeado poderá resultar em 53,2 mil milhões de toneladas de emissões, agravando fenómenos como ondas de calor extremas, secas e cheias.

“Fixar novas centrais a gás para responder a uma procura energética incerta da IA significa consolidar décadas de poluição numa aposta que poderia ser resolvida com energia limpa e flexível”, afirmou Jenny Martos, gestora de projeto do rastreador de centrais a petróleo e gás do GEM.

E continua: “à medida que a bolha da IA cresce, os Estados Unidos têm de decidir se vão reforçar um futuro fóssil enquanto o resto do mundo vira para as energias renováveis”.

Embora vários países estejam a apostar no gás, a China, por exemplo, instalou 22,4 GW em 2024, o valor mais elevado de sempre num único ano, EUA destacam-se ao concentrarem quase um quarto de toda a capacidade global em desenvolvimento.

Seguem-se China, Vietname, Iraque e Brasil. No território norte-americano, o Texas é o epicentro da expansão, com 57,9 GW de nova capacidade a gás em curso no último ano, à frente da Louisiana e da Pensilvânia. Em 2026, as novas adições deverão ultrapassar o recorde histórico de 100 GW registado em 2002.

Segundo o GEM, o crescimento dos centros de dados, impulsionado pelas grandes empresas tecnológicas, tem sido fortemente promovido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que afirmou que a sua administração fará “o que for preciso” para garantir a liderança norte-americana em IA, prometendo eliminar “regras absurdas” que atrasem a construção destas infraestruturas.

No entanto, a proliferação dos centros de dados já está associada a um aumento das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e da procura de eletricidade, contribuindo para a subida das faturas energéticas de muitos consumidores.

Especialistas referem ainda que o bloqueio a projetos de energia limpa e o aumento das exportações de gás natural liquefeito estão a pressionar os preços da energia.

“O crescimento frenético dos centros de dados, com pouca transparência ou salvaguardas, coloca o público em risco de aumentos massivos de custos”, alertou Steve Clemmer, diretor de investigação energética da Union of Concerned Scientists, que prevê um aumento de 60% da procura de eletricidade nos EUA até 2050 devido a estas infraestruturas.

De acordo com o GEM, a contestação local também começa a ganhar força. Em várias regiões, projetos foram suspensos devido a preocupações com os preços da energia e o elevado consumo de água. T

Donald Trump reconheceu recentemente as limitações energéticas do país, afirmando num discurso em Davos: “Eu disse: não se consegue criar tanta energia assim. Precisávamos de mais do dobro da energia atual do país só para dar resposta às centrais de IA, e eu disse que isso não é possível”.

Apesar disso, os planos continuam a avançar. A Meta anunciou a construção de um centro de dados de 1,5 mil milhões de dólares, alimentado a gás, em El Paso, no Texas. Na Pensilvânia Ocidental, uma antiga central a carvão deverá ser reconvertida na maior central a gás do país para servir um novo campus de centros de dados, um projeto que divide a comunidade local.

 

 

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