A recente decisão da União Europeia (UE) em reconhecer oficialmente as algas como um recurso estratégico para as transições verde e azul redefine o posicionamento deste setor no espaço europeu.
O enquadramento agora reforçado abre caminho para políticas mais consistentes e para a mobilização de investimento, num momento em que a procura global por soluções sustentáveis mantem o ‘pé no acelerador’.
Para Portugal, o impacto potencial é particularmente relevante. A capacidade instalada, o know-how científico e as condições naturais favoráveis colocam o país numa posição competitiva única, mas atualmente ainda insuficientemente aproveitada.
Estima-se que existam cerca de 47 empresas ativas em Portugal, sendo que, em 2024, o setor gerou aproximadamente 92 milhões de euros, com uma previsão de crescimento anual na ordem dos 15%, segundo dados da PROALGA.
Apesar de ainda ser uma oportunidade pouco explorada, Portugal reúne condições para assumir a liderança europeia nesta área, convertendo um setor emergente numa alavanca de inovação, geração de emprego qualificado e criação de valor interno.
Para explorar melhor o tema através de uma perspetiva nacional, a REVISTA SUSTENTÁVEL conversou com Federico Velge, Presidente da PROALGA (Associação Portuguesa dos Produtores de Algas), que referiu que este reconhecimento europeu trata-se “uma decisão política estrutural para o setor”, uma vez que a algas, ao serem reconhecidas pela UE como um recurso estratégico, são colocadas “no centro das soluções para desafios ambientais, alimentares e industriais da próxima década”.

Frederico Velge, Presidente da PROALGA
Na perspetiva de Margarida Martins, Innovation Coordinator na ALGAplus, empresa portuguesa especializada no cultivo de macroalgas marinhas e entrevistada pela REVISTA SUSTENTÁVEL para aprofundar a visão da indústria em Portugal, este reconhecimento constitui “um marco importante”.
Isto porque a responsável acredita que “dará maior visibilidade ao setor” e, ao mesmo tempo, defendeu que também se espera “uma maior coordenação entre Estados-Membros e prioridade em agendas de investigação e fundos, o que é essencial para continuar a transformar o potencial das algas em cadeias de valor reais e escaláveis”.

Margarida Martins, Innovation Coordinator na ALGAplus
Que medidas políticas podem agora ser esperadas?
A responsável da ALGAplus acredita que, a partir de agora, esta decisão se traduza em “mais apoio no que respeita a linhas de financiamento dedicadas e chamadas para aumento de escala, harmonização de quadros regulatórios e licenciamento para aquacultura de macroalgas e incentivos para integração com outras infraestruturas (por exemplo aquacultura integrada, economia circular, biorrefinarias)”.
Para o Presidente da PROALGA, este novo enquadramento deverá traduzir-se “em medidas concretas, tais como rotulagem obrigatória da origem (permitindo diferenciar a produção europeia das importações extra-UE), incentivos ao aumento da produção local, mecanismos de proteção contra práticas de dumping e a simplificação dos processos de licenciamentos”. O responsável sublinhou ainda que estas medidas são “fundamentais” para “reforçar a competitividade e a sustentabilidade do setor europeu”.
Portugal na linha da frente
“Para Portugal, esta decisão representa uma oportunidade real: temos todas as condições para assumir uma posição de liderança, desde que estas intenções políticas sejam traduzidas, a nível nacional, em medidas concretas de valorização da produção nacional”, enfatizou o responsável da PROALGA.
Federico Velge defendeu ainda que “Portugal reúne uma combinação única”, desde “um litoral extenso com elevada biodiversidade marinha, centros de investigação de excelência, empresas inovadoras com experiência prática e um mercado europeu em expansão”.
Na sua ótica, esta junção de fatores “coloca o país na vanguarda do setor”. No entanto, refere o responsável, para assegurar essa liderança, “é essencial que Portugal adote uma visão estratégica de médio prazo, integrando o setor das algas nas suas políticas de bioeconomia, economia do mar e inovação”.
Para Portugal, esta decisão representa uma oportunidade real: temos todas as condições para assumir uma posição de liderança, desde que estas intenções políticas sejam traduzidas, a nível nacional, em medidas concretas de valorização da produção nacional.
“Com previsibilidade regulatória, acesso facilitado ao licenciamento e mecanismos que valorizem a produção nacional, Portugal tem potencial para se tornar um hub europeu. Existe espaço para um crescimento sustentável, criação de emprego altamente qualificado e atração de investimento estrangeiro num setor com forte dinâmica global”, acrescentou.
Margarida Martins também é da opinião que “Portugal tem uma combinação única de costa extensa, condições ambientais favoráveis, elevadíssimo know-how científico, tradição marinha e empresas com vontade de ‘fazer acontecer’”.
A Innovation Coordinator na ALGAplus defendeu também que, para o país liderar o setor, “precisamos de políticas nacionais coerentes, nomeadamente ao nível dos licenciamentos, investimento em demonstração em escala comercial, clusters regionais que integrem efetivamente a investigação-indústria-comunidade e promoção ativa das exportações e parcerias internacionais”. A responsável sublinhou ainda que “este cocktail possa ser diferenciador e acelerar esse papel de liderança”.

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O que Portugal tem a ganhar?
É Margarida Martins quem nos explica que, a aposta no setor das algas, nomeadamente em aquacultura, “traria vantagens económicas, ambientais e sociais muito significativas para Portugal”.
A responsável acredita que, do ponto de vista económico, esta dinâmica pode originar novas cadeias de valor, aumentar a empregabilidade, reforçar as exportações e atrair investimento nacional e internacional para um setor emergente e competitivo.
Já no plano ambiental, a porta-voz da ALGAplus adianta que o cultivo de algas fornece soluções naturais de biorremediação, reduz a pressão sobre os recursos terrestres e diminui a dependência europeia de importações de macroalgas da Ásia, fortalecendo a autonomia regional.
“Trata-se de uma produção intrinsecamente sustentável, que valoriza recursos marinhos subutilizados e apoia a saúde dos ecossistemas”, explica-nos, avançando ainda que, no plano social, o setor das algas tem revelado uma elevada capacidade de inclusão, marcada por uma forte participação feminina em várias fases da cadeia de valor, promovendo igualdade de oportunidades e estimulando o desenvolvimento de competências técnicas e científicas.
É essencial que Portugal adote uma visão estratégica de médio prazo, integrando o setor das algas nas suas políticas de bioeconomia, economia do mar e inovação.
A Innovation Coordinator na ALGAplus enfatizou também que, para além disto, esta aposta “contribui para a segurança alimentar, ao disponibilizar ingredientes alternativos, nutritivos e de baixo impacto ambiental”. Além disso, acredita que “reforça e diversifica a economia azul portuguesa, atualmente muito centrada no pescado, aliviando a pressão sobre os recursos marinhos tradicionais e abrindo espaço para novas formas de turismo científico e industrial, alinhadas com a transição verde e azul”.
Federico Velge é da opinião que “as algas constituem um verdadeiro ativo estratégico para Portugal” e defende que o investimento neste setor pode trazer “múltiplos benefícios”, nomeadamente gerar emprego, impulsionar a economia azul, aumentar as exportações, fomentar a inovação industrial e reforçar a sustentabilidade dos sistemas alimentares e produtivos.
De acordo com a sua visão, para além do impacto económico, o setor “contribui diretamente para o desenvolvimento das comunidades costeiras ajudando a fixar a população em regiões de baixa densidade a dinamizar novos modelos de desenvolvimento regional”.
Além disso, no que toca à descarbonização, as algas também podem desempenhar um papel fulcral. É Federico Velge quem nos explica que as algas capturam CO₂ de forma natural durante o seu crescimento e não exigem água doce, fertilizantes ou terra arável.
A par disto, têm potencial para substituir ingredientes de origem fóssil em várias cadeias de valor, tornando-se aliadas relevantes na transição para a neutralidade carbónica. “O seu cultivo sustentável constitui uma ferramenta eficaz para mitigar as alterações climáticas e fomentar sistemas alimentares sustentáveis”, enfatizou.
O presidente da PROALGA reforçou ainda que, “com um potencial de crescimento transversal, do mar à indústria, da saúde à tecnologia, as algas podem posicionar Portugal como referência global em inovação azul”.

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Obstáculos ao crescimento do setor
O porta-voz da Associação Portuguesa dos Produtores de Algas também alertou para alguns obstáculos ao desenvolvimento do setor. O responsável acredita que “a duração e a imprevisibilidade dos processos de licenciamento, a ausência de mecanismo que valorizem a produção nacional no mercado, e a concorrência desleal de biomassa importada a preços significativamente inferiores” são fatores que vão dificultar a escalada industrial e podem vir a comprometer o crescimento do setor em Portugal.
No mesmo sentido, a responsável da ALGAplus também destacou como principais obstáculos a complexidade e demora nos processos de licenciamento quer de novos ingredientes quer de espaços de produção, o elevado investimento necessário em todas as fases do processo, time to market, e ainda algum desconhecimento/desinformação do consumidor acerca destes produtos.
O seu cultivo sustentável constitui uma ferramenta eficaz para mitigar as alterações climáticas e fomentar sistemas alimentares sustentáveis.
Aplicações atuais e futuras, tendências e tecnologia
Margarida Martins realçou que a maior procura atual no setor é direcionada para a indústria alimentar (diferenciação no sabor e aporte nutricional), assim como ingredientes para a alimentação animal (alimentação funcional e bioatividades) e ingredientes para a área da cosmética natural (bioativos).
A responsável da ALGAplus antecipou também, para os próximos anos, um crescimento dos mercados B2B dedicados a ingredientes à base de algas para diferentes indústrias e, em paralelo, um aumento da informação disponível na comunidade sobre as potencialidades e vantagens do consumo deste recurso.
Já o Presidente da PROALGA sublinhou que, embora as algas tenham hoje aplicações relevantes na alimentação humana e animal, na cosmética, na agricultura e na biotecnologia, “o setor está a evoluir rapidamente”, avançando para inovações como embalagens biodegradáveis, suplementos alimentares e ingredientes funcionais, “o que torna esta matéria-prima extremamente versátil”.
No que toca a tendências de consumo que estão a beneficiar o setor das algas, a responsável da ALGAplus nomeou a crescente procura por ingredientes sustentáveis, o interesse em fontes alternativas de proteína, a valorização de ingredientes com benefícios para a saúde, como iodo, minerais, fibra e vitaminas, a procura por produtos com certificação e rastreabilidade, incluindo produção biológica e opções plant-based, e a preferência por ingredientes de origem europeia e de baixo impacto ambiental.
As propostas da PROALGA
A PROALGA defende uma estratégia nacional assente em três medidas prioritárias: rotulagem obrigatória da origem, permitindo diferencia a UE das importações extra-UE; instrumentos de regulação do comércio, como quotas ou critérios de sustentabilidade aplicado às importações e reforma urgente dos processos de licenciamento, garantindo maior previsibilidade e celeridade.
No que toca ao futuro, tendo em conta a decisão da UE, Federico Velge espera que este reconhecimento funcione como “um catalisador de ação, e não como um fim em si mesmo”.
A nível europeu, antecipa “a criação de instrumentos de financiamento específicos, projetos colaborativos de grande escala e quadros regulatórios mais estáveis”. No plano nacional, afirmou ser “fundamental que as autoridades atuem rapidamente para responder à urgência competitiva do setor”.
“Com a implementação de medidas adequadas, como rotulagem de origem, simplificação dos licenciamentos e regulação das importações, Portugal terá condições de aumentar a produção, atrair investimento e reforçar o seu posicionamento internacional. A PROALGA continuará a trabalhar para que isto se concretize, em estreita colaboração com produtores, Governo e parceiros europeus”, concluiu.
A indústria em Portugal pela ‘lente’ da ALGAplus
Margarida Martins explica-nos que a empresa assegura atualmente uma “forte presença” no mercado nacional e fornece também clientes B2B na Europa, atuando como produtora de ingredientes para as indústrias alimentar, nutracêutica, cosmética e de rações animais funcionais.
A curto prazo, estão a preparar o lançamento de condimentos à base de algas desenvolvidos com perfis distintos para aplicações culinárias. Paralelamente, está ainda a trabalhar em projetos com potencial para dar origem a ingredientes funcionais ou especializados, destinados a setores de utilização muito específicos.
A porta-voz da empresa também explicou que, na ALGAplus, cultivam macroalgas nativas da costa portuguesa e, entre elas, a Ulva sp. (conhecida como alface-do-mar), que se destaca pela elevada produtividade, pela facilidade de cultivo em maior escala e pelo perfil nutricional equilibrado. Na sua perspetiva, estas características tornam esta espécie “especialmente relevante para a transição verde e azul”.
Contudo, outras macroalgas cultivadas pela empresa, como Palmaria palmata e Porphyra spp., conhecidas respetivamente como botelho comprido e erva patinha, podem igualmente contribuir para esta transição, tanto pelo seu papel ecológico como pela versatilidade de aplicações e pelo interesse crescente do mercado, enfatizou Margarida Martins.
“A seleção destas espécies resulta, no fundo, de um equilíbrio entre oportunidades de mercado, papel ecológico e viabilidade de produção BIO e sustentável em aquacultura, no contexto europeu”, terminou.

Direitos Reservados // ALGAplus
