A aceleração da reciclagem e da reutilização de baterias está a ganhar peso na resposta europeia à dependência de matérias-primas críticas. Num contexto em que a mobilidade elétrica e o armazenamento de energia aumentam a procura por baterias, a recuperação de materiais no fim de vida destes equipamentos começa a ser vista como uma dimensão industrial da transição energética.
Para Sandro Ferreira Mendonça, membro da Organização Europeia de Patentes (OEP), em entrevista à REVISTA SUSTENTÁVEL, o reaproveitamento de materiais permite “mais atividade e menos poluição, mais produção e menos importações, mais inovação e menos dependências”.

Sandro Ferreira Mendonça, membro da Organização Europeia de Patentes
As baterias tornaram-se assim uma tecnologia de ligação entre a transformação digital e a transição sustentável. Estão presentes em dispositivos móveis, em equipamentos associados à eletrificação da economia e no armazenamento de energia produzida a partir de fontes renováveis. Esse crescimento, porém, está a criar um novo desafio: o aumento do número de baterias elétricas em fim de vida e a necessidade de lhes dar um destino capaz de reter valor económico e reduzir pressão sobre recursos críticos.
Segundo Sandro Ferreira Mendonça, a questão é saber “que fazer então aos 1,2 milhões de baterias de carros elétricos que vão chegar ao fim do ciclo de vida em 2030 e aos 14 milhões em 2040?”. O crescimento deste fluxo poderá acelerar o desenvolvimento de uma nova indústria europeia centrada na recuperação, reprocessamento e reintegração de materiais críticos no circuito económico.
Uma cadeia de valor em formação
A circularidade das baterias deverá acrescentar novas etapas à cadeia de valor da mobilidade elétrica. Para além da produção automóvel e da fabricação de baterias, ganham relevância atividades como recolha, remoção, separação, desmantelamento, processamento, extração de materiais e reconversão de componentes.
“Estamos perante uma transformação industrial muito relevante”, afirma Sandro Ferreira Mendonça. À medida que aumenta o número de baterias em fim de vida, “surge também a necessidade e a oportunidade de criar uma nova cadeia de valor europeia dedicada à recuperação, reprocessamento e reintegração de materiais críticos no circuito económico”.
Surge também a necessidade e a oportunidade de criar uma nova cadeia de valor europeia dedicada à recuperação, reprocessamento e reintegração de materiais críticos no circuito económico.
Esta evolução poderá envolver empresas de mobilidade, energia, indústria química, gestão de resíduos e centros de investigação. Na leitura do membro da OEP, o valor económico deixará de estar apenas na produção da bateria, passando também pela sua regeneração e reutilização ao longo do tempo. A circularidade introduz, assim, uma lógica mais ampla na mobilidade elétrica, em que o ciclo de vida dos materiais passa a ser parte da competitividade industrial.
O desafio, sublinha, passa pela construção de “um novo sistema setorial de inovação”, capaz de articular atores industriais, científicos e tecnológicos em torno da circularidade das baterias. Essa articulação será necessária para transformar processos hoje dispersos numa cadeia estruturada, com capacidade para responder ao aumento previsto de baterias em fim de vida.
Dependência, inovação e competição internacional
A reciclagem e a reutilização de baterias são apresentadas como instrumentos para reduzir a dependência europeia de matérias-primas críticas. A lógica é simultaneamente industrial e ambiental: transformar desperdício em novos recursos, reintegrando materiais no circuito económico e reduzindo a necessidade de importações.
Para Sandro Ferreira Mendonça, esta circularidade “pode tornar-se não apenas uma questão ambiental, mas também uma alavanca industrial e estratégica para a Europa”. A capacidade de recuperar materiais críticos poderá, nesse quadro, influenciar a competitividade futura da indústria automóvel europeia, num setor em que a autonomia tecnológica e o acesso sustentável a recursos assumem maior relevância.
A posição europeia neste domínio não parte do zero. Sandro Ferreira Mendonça identifica três dos maiores inovadores mundiais no nicho das baterias circulares como europeus: a BASF, empresa multiproduto; a Umicore, especializada em reciclagem de baterias; e o CEA, instituto de investigação. Todos estão no top 10 referido pela fonte, a par de startups consideradas promissoras.
“O desafio passa agora por orquestrar estas capacidades industriais, científicas e tecnológicas de forma coerente, permitindo à Europa afirmar uma posição própria num contexto internacional altamente competitivo”, afirma.
O desafio passa agora por orquestrar estas capacidades industriais, científicas e tecnológicas de forma coerente, permitindo à Europa afirmar uma posição própria num contexto internacional altamente competitivo.
O papel da Organização Europeia de Patentes
A Ásia concentra 63% das patentes internacionais nesta área, um dado que coloca em destaque a questão da dependência tecnológica europeia. Para Sandro Ferreira Mendonça, as regiões e os países têm vantagens comparativas distintas em cada momento. A Europa, afirma, “pode colaborar com a Ásia, reconhecendo as competências dinâmicas que aí existem”.
No caso da América do Norte, o membro da OEP considera que essa colaboração é mais difícil, por entender que o seu foco “não está nas tecnologias limpas”. Para a Europa, a resposta passa por aprender “consigo mesma e com os melhores”.
Neste processo, a Organização Europeia de Patentes é apontada como um ator que contribui para acelerar a aprendizagem, através do mapeamento de atores e do fortalecimento de ligações. A competitividade europeia dependerá, assim, da capacidade de transformar competências dispersas numa cadeia de valor estruturada.
O aumento das baterias em fim de vida coloca um problema operacional, mas também uma oportunidade industrial. Se a Europa conseguir desenvolver capacidades próprias de recuperação e reconversão de materiais, a circularidade das baterias poderá passar de resposta ambiental a componente estratégica da mobilidade elétrica e da autonomia industrial europeia.

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