Transição energética

Recuperar calor para produzir cerveja

Recuperar calor para produzir cerveja Direitos Reservados

Reduzir emissões e recuperar energia. É nova aposta da Central de Cervejas e Bebidas que acaba de inaugurar, na unidade de Vialonga, um sistema com bomba de calor industrial que recupera a energia antes desperdiçada e a devolve ao processo produtivo.

Na produção de cerveja, a descarbonização não se resolve apenas com eletricidade renovável. Uma parte decisiva do processo depende de calor: para produzir, transformar cevada em malte, aquecer água e alimentar diferentes etapas industriais. É precisamente aí que a Central de Cervejas e Bebidas está a concentrar a fase seguinte da sua transição energética, com a inauguração, na Cervejeira de Vialonga, de um sistema industrial de recuperação de energia baseado numa bomba de calor.

A solução, desenvolvida em parceria com a Siemens Portugal, permitirá reduzir em cerca de 50% as emissões de CO₂ associadas à energia térmica. O sistema recupera calor excedente dos processos de refrigeração e usa eletricidade renovável para produzir água quente, substituindo parcialmente o vapor gerado por caldeiras a gás natural.

O desafio estava no calor
Na unidade de Vialonga, a energia térmica representa cerca de dois terços da energia total consumida nas operações e é uma das áreas mais difíceis de descarbonizar na indústria cervejeira. Ao contrário da eletricidade, cuja transição para fontes renováveis já foi concluída nas operações da empresa, o calor industrial continua a exigir soluções mais complexas, por depender historicamente do gás natural e por estar diretamente ligado ao funcionamento dos processos produtivos.

A especificidade de Vialonga está também na existência de uma malteria integrada, onde a cevada é transformada em malte, uma das matérias-primas essenciais da cerveja. Essa componente aumenta a relevância da energia térmica na unidade e ajuda a explicar porque é que a solução teve de ser desenhada à medida da fábrica, e não como um equipamento isolado, pronto a ligar.

Parte da produção de calor, que era alimentada por gás natural, passa agora a ser assegurada por eletricidade renovável e por energia recuperada dentro da própria unidade industrial, numa alteração que não muda o produto final, mas transforma a forma como a fábrica o produz. Ou, como sintetizou Manuel Galvão, diretor de Supply Chain da Central de Cervejas e Bebidas, “vai mudar a fonte de energia”. A intervenção surge depois de a empresa ter concluído a passagem da eletricidade consumida nas operações para fontes renováveis. E, como, desde 2024, as operações da Central de Cervejas e Bebidas são alimentadas por eletricidade 100% renovável, faltava, por isso, ‘atacar’ a componente térmica, onde o grau de dificuldade é superior. “As fontes de calor são mais complexas. Os processos de transição são mais complexos. As tecnologias são mais complexas. E, portanto, agora é o foco”, afirmou Manuel Galvão.

Segundo a empresa, a bomba de calor representa um investimento de 33,5 milhões de euros, cofinanciado parcialmente pelo Plano de Recuperação e Resiliência em 8,8 milhões de euros. A Central de Cervejas e Bebidas estima que o projeto permita evitar 7.381 toneladas de CO₂ por ano e alcançar ganhos de eficiência energética na ordem dos 39%, face ao início do projeto.

A ambição da Central de Cervejas e Bebidas, que integra o Grupo Heineken desde 2008, é atingir a neutralidade carbónica na produção até 2030 e a neutralidade carbónica em toda a cadeia de valor até 2040. No caso da unidade de Vialonga, Manuel Galvão admitiu que a primeira meta possa ser ligeiramente antecipada. “Quando terminarmos a transição da energia térmica, vamos ficar neutros em termos de emissões carbónicas na produção de cerveja em Vialonga”, afirmou. “A nossa meta é 2030, mas pensamos conseguir antecipar ligeiramente essa meta.”

Quando terminarmos a transição da energia térmica, vamos ficar neutros em termos de emissões carbónicas na produção de cerveja em Vialonga.

A escala do desafio torna-se mais evidente quando se olha para a pegada global do Grupo HEINEKEN. Segundo dados apresentados pela empresa, a pegada de carbono consolidada do grupo em 2025 ascendia a cerca de 14,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Desse total, 13,9 milhões de toneladas estavam associadas ao âmbito 3, que inclui a cadeia de valor. Na repartição apresentada, o enchimento representava 35% da pegada global, a agricultura 17%, a logística 13%, o arrefecimento 9%, a produção 8% e o processamento 3%.

Na fábrica, a resposta passa por recuperar energia que antes se perdia. A bomba de calor aproveita calor excedente dos processos de refrigeração e transforma-o em energia térmica útil, distribuída através de um circuito fechado de água quente. Esse circuito leva calor às diferentes áreas da cervejeira e da malteria, reduzindo a necessidade de vapor produzido por caldeiras a gás natural.

A integração do sistema exigiu, contudo, uma intervenção profunda numa unidade que continuou a produzir. Para Manuel Galvão, esse foi o ponto mais difícil – a nova solução numa fábrica existente, adaptar equipamentos e redes de distribuição de calor e manter a Cervejeira de Vialonga em funcionamento durante todo o processo. A instalação decorreu ao longo de 22 meses.

“E esse foi, de facto, o maior desafio”, afirmou Manuel Galvão, quando questionado sobre a execução da obra com a fábrica em laboração. O responsável explicou que a tecnologia das bombas de calor não é completamente nova para a empresa, habituada a trabalhar com compressores e permutadores de calor, mas a dificuldade esteve em integrar equipamentos de última geração numa instalação industrial já existente.

“Conseguir fazer ou instalar todo esse equipamento numa instalação já existente, e que não é nova”, foi, explicou, uma das partes mais exigentes do processo. A intervenção obrigou a adaptar a nova estrutura ao layout da unidade, alterar processos que dependiam de vapor e garantir que a produção continuava a responder aos períodos de maior procura.

A mudança passou também pela instalação de circuitos de água quente e tubagens isoladas em diferentes áreas da fábrica, para levar calor aos pontos onde este é necessário nas várias etapas produtivas. Alguns equipamentos que usavam vapor foram adaptados para passarem a usar água quente, aumentando a complexidade de uma intervenção feita sobre uma unidade industrial já em funcionamento.

Da simulação à realidade industrial
Antes da obra física, a Siemens Portugal trabalhou sobre uma réplica digital do sistema energético da fábrica. Miguel Rangel, gestor da área de edifícios da Siemens Portugal, explicou na apresentação do projeto que a solução começou por ser testada num gémeo digital, antes de ganhar forma no chão de fábrica. “Durante meses, este projeto viveu apenas no mundo dos dados”, afirmou.

Segundo Miguel Rangel, a réplica virtual foi construída a partir de 74 mil milhões de pontos de varrimento de laser e de várias centenas de milhões de dados de consumo de energia e de processos. A partir desse modelo, foram analisados mais de 60 cenários possíveis, sem parar a produção e sem intervir diretamente nas máquinas. “É a passagem da simulação à realidade. Do potencial ao impacto”, sintetizou o responsável da Siemens Portugal.

No centro do sistema está uma bomba de calor de alta temperatura de 6 MW, construída à medida para a realidade da Cervejeira de Vialonga. A intervenção implicou cerca de cinco quilómetros de nova tubagem, mais de 40 intervenções nos sistemas existentes, a coordenação de mais de 20 fornecedores e a presença de cerca de 70 pessoas diariamente na fábrica em obra.

Para Miguel Rangel, o projeto mostra que a descarbonização industrial deixou de ser apenas uma questão de ambição e passou a depender da capacidade de combinar dados, engenharia e execução. “O relógio da descarbonização não para. A corrida já começou e ninguém pode ficar para trás”, afirmou, defendendo que soluções como a de Vialonga podem ser replicadas noutros setores onde a energia térmica tenha um peso relevante, nomeadamente na indústria alimentar e das bebidas.

O relógio da descarbonização não para. A corrida já começou e ninguém pode ficar para trás.

A bomba de calor é mais um passo numa trajetória de descarbonização iniciada há vários anos. Segundo a empresa, a jornada da Cervejeira de Vialonga inclui medidas de eficiência energética, a instalação de 8.400 painéis solares, a utilização de uma caldeira a biogás, contratos de eletricidade renovável e recuperação de energia dentro da própria unidade. A existência de uma estação de tratamento de águas residuais e de uma malteria integrada reforça a complexidade ambiental e energética da instalação, onde a redução de emissões depende da articulação entre diferentes fluxos: calor, frio, água, resíduos e energia.

Desde 2017, a Central de Cervejas e Bebidas contabiliza 135 milhões de euros investidos na transição energética das suas unidades de produção. Para Julien Haex, diretor-geral da empresa, a bomba de calor deve ser lida nesse percurso, e não como uma intervenção isolada. “Hoje não inauguramos apenas um equipamento industrial”, declarou. A empresa apresenta o projeto como exemplo de uma transformação industrial em que crescimento económico, inovação e sustentabilidade deixam de ser metas separadas.

O que falta descarbonizar
A bomba de calor não encerra a transição da energia térmica em Vialonga. Ao reduzir cerca de metade das emissões associadas à produção de calor, a solução agora inaugurada cobre uma parte relevante do problema, mas deixa uma parcela remanescente que a Central de Cervejas e Bebidas prevê atacar com outra tecnologia: uma bateria térmica.

Desenvolvido em parceria com a EDP e a Rondo Energy, o projeto prevê uma bateria térmica de 100 MWh na Cervejeira de Vialonga e malteria. A solução deverá armazenar eletricidade renovável sob a forma de calor de alta temperatura e fornecer vapor aos processos industriais. Estão ainda previstos uma central solar de 7 MWp no local e o fornecimento complementar de eletricidade renovável através de um contrato flexível de longo prazo de 25 GWh por ano. Segundo a Rondo Energy, a bateria deverá fornecer 7 MW de vapor para a produção. O valor de investimento associado a esta fase não foi divulgado nas fontes públicas consultadas.

 

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