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Pressão sobre florestas tropicais aumenta com a crescente extração de recursos

Pressão sobre florestas tropicais aumenta com a crescente extração de recursos iStock

A crescente extração de recursos em florestas tropicais está a ’empurrar’ a Amazónia e biomas semelhantes para um ponto crítico, segundo um relatório encomendado pela Rainforest Foundation Norway.

A análise aponta para uma acumulação de pressões associadas à pecuária, agricultura, exploração mineira, combustíveis fósseis, biocombustíveis, pasta de papel, fast fashion, alimentação processada e embalagens.

O relatório acompanha tendências de commodities que ameaçam florestas na Amazónia, na Bacia do Congo e no Sudeste Asiático, reduzindo a sua capacidade de regular a temperatura, armazenar carbono, reciclar água e servir de habitat para a natureza.

De acordo com a análise, a pecuária, a agricultura e a mineração de ouro continuam a ser as maiores ameaças às florestas tropicais, estando prevista a expansão das três atividades. No entanto, os autores alertam que novas fontes de procura, incluindo minerais críticos, biocombustíveis e pasta de papel, estão a agravar pressões já existentes.

“Cria uma pressão que as florestas tropicais não conseguem suportar”, afirmou Ingrid Turgen, da Rainforest Foundation Norway. “A nossa principal mensagem é que esta acumulação, uma pressão sobre a outra, está a afetar as três bacias de floresta tropical, Amazónia, Congo e Sudeste Asiático, e se os governos não fizerem nada, então lugares como a Amazónia enfrentam um cenário bastante sombrio”, salienta.

Pecuária, ouro e combustíveis fósseis entre as principais pressões
O relatório prevê que o aumento de 10,2% da produção de carne bovina previsto pelo Governo brasileiro cause pelo menos 57 mil quilómetros quadrados de desflorestação até 2034. O valor poderá ser superior se continuar a tendência de deslocação da pecuária para a Amazónia. No mesmo período, a produção global de carne deverá aumentar 13%, impulsionada pelo crescimento populacional.

A mineração de ouro a céu aberto já cobre 1,9 milhões de hectares do bioma amazónico e poderá aumentar devido à procura projetada para joalharia, tecnologia e lingotes detidos por investidores e bancos centrais. A joalharia representa 43% da utilização de ouro, enquanto a tecnologia representa 7%.

O relatório identifica uma correlação clara entre os preços do ouro e a desflorestação associada à mineração na Amazónia. Com base nas tendências recentes, esta atividade poderá causar mais 375 quilómetros quadrados de desflorestação até 2028.

O petróleo, o gás e o carvão também têm um papel crescente na destruição das florestas tropicais, tanto de forma direta, através da perfuração, como indireta, por via do aquecimento global.

Segundo o relatório, a Amazónia é uma das fronteiras de combustíveis fósseis em maior crescimento, com exploração e extração no Brasil, Equador, Colômbia e Peru. Quase um quinto das reservas mundiais de petróleo e gás natural identificadas entre 2022 e 2024 foi encontrado na floresta tropical sul-americana e em regiões offshore.

Na República Democrática do Congo, foram aprovados no ano passado 52 novos blocos de exploração petrolífera, cobrindo 1,24 milhões de quilómetros quadrados nas turfeiras da Cuvette Centrale, identificadas no relatório como o maior reservatório terrestre de carbono do mundo e um ecossistema crítico de elevada biodiversidade.

Minerais críticos e biocombustíveis acrescentam novas pressões
A procura de minerais críticos, como lítio, níquel e cobalto, usados em baterias e noutras tecnologias associadas à transição para energia mais limpa, é apontada como uma fonte adicional de pressão. O estudo estima que a desflorestação acumulada associada à frota global de veículos elétricos se situe entre 1.500 e 4.700 quilómetros quadrados até 2050, mantendo-se as tendências atuais.

Embora esse valor represente cerca de 1% da desflorestação esperada nesse período, o relatório sublinha que os efeitos secundários são relevantes. O impacto ambiental das minas pode estender-se num raio de 50 quilómetros, devido à contaminação da água e dos solos. As minas tendem também a afetar de forma desproporcionada territórios indígenas e áreas de floresta relativamente intacta.

“Os impactos que se acumulam derivado à mineração em áreas florestais foram provavelmente significativamente subestimados durante muitos anos”, afirmou Veera Mo, da Rainforest Foundation Norway.

O setor dos biocombustíveis surge também como fonte crescente de pressão. Embora seja apresentado como alternativa sustentável ao petróleo e ao gás para a aviação e o transporte marítimo, pode levar à conversão de floresta para produção de soja, sebo, palma e etanol.

O relatório estima que serão necessários mais 52 milhões de hectares de terras agrícolas para responder à procura global projetada de biocombustíveis em 2030. Só nas culturas de soja associadas aos biocombustíveis, a análise prevê a conversão de entre 31.600 e 35 mil quilómetros quadrados de vegetação amazónica até 2035.

Consumo urbano e produtos descartáveis entram na equação
A pressão do óleo de palma deverá também aumentar com o crescimento do consumo de alimentos processados. Até agora, o principal impacto tem ocorrido nas florestas do Sudeste Asiático, em particular na Indonésia, mas o relatório aponta a Bacia do Congo como possível nova fronteira para o óleo de palma, devido ao crescimento dos mercados de alimentos processados associado à urbanização no Médio Oriente e na África Subsariana.

Outros produtos descartáveis promovidos como alternativas “verdes” em cidades distantes também podem agravar a pressão sobre as florestas tropicais. A popularidade da viscose e a fibra semissintética usada na fast fashion está a aumentar a pressão sobre as florestas da Indonésia, uma vez que um dos seus ingredientes principais é a pasta de madeira. O relatório refere ainda que os sacos de papel apresentados como alternativa ao plástico nem sempre têm origem sustentável, tal como parte das embalagens usadas no setor de comércio eletrónico.

Os autores defendem que as ameaças associadas à energia, mineração e comércio eletrónico são frequentemente analisadas de forma isolada, mas devem ser compreendidas em conjunto, enquanto pressão acumulada sobre as florestas tropicais.

O relatório identifica possíveis respostas, incluindo maior transparência nas cadeias de abastecimento e aplicação mais robusta da regulamentação. A reciclagem é apontada como uma forma de reduzir a necessidade de novas explorações mineiras, mas a redução da procura nos países consumidores é apresentada como objetivo central.

“Uma redução no uso de recursos não pode ser evitada. Não há dúvida de que a reciclagem é necessária, mas não será suficiente”, afirmou Barbara Kuepper, autora principal do relatório. “A utilização global de recursos é simplesmente demasiado grande”, salienta.

“Mesmo em setores onde esperamos uma transição, como a energia, o impacto sobre as florestas é preocupantemente elevado”, acrescentou.

 

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