Nos últimos anos, a transição energética na Europa tem atravessado uma transformação significativa, com um aumento considerável da eletricidade renovável.
No entanto, ainda persistem desafios, especialmente em termos de integração nas redes energéticas, armazenamento e a implementação de soluções sustentáveis para setores difíceis de eletrificar, como a aviação e a indústria pesada.
Para Teresa Ponce de Leão, presidente do Conselho Diretivo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) e vice-presidente da ESEIA (European Sustainable Energy Innovation Alliance), em entrevista à REVISTA SUSTENTÁVEL, “a transformação foi profunda: a eletricidade renovável passou de cerca de um terço para quase 50% da produção europeia.” Segundo a responsável, “Portugal destaca-se claramente, com 68% de eletricidade renovável em 2025, face a uma média europeia de 47%.”

Teresa Ponce de Leão, presidente do Conselho Diretivo do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG) e vice-presidente da ESEIA
De acordo com Teresa Ponce de Leão, esse progresso foi possível graças ao Green Deal, mas também a fatores externos, como a crise energética pós-Ucrânia. No entanto, a responsável destacou que “persistem lacunas: a bioenergia e os biocombustíveis têm sido relativamente negligenciados face à eletrificação.”
Segundo a presidente do Conselho Diretivo do LNEG, o objetivo “não é eliminar os biocombustíveis, mas sim os combustíveis fósseis”, e observou que o recente Automotive Package reabre espaço para os biocombustíveis, os quais são essenciais para uma “transição mais equilibrada”.
Apesar dos avanços, Teresa Ponce de Leão apontou que a adoção em massa das energias renováveis ainda enfrenta obstáculos significativos, frisando que “os principais entraves à adoção em massa das energias renováveis não são hoje de natureza tecnológica, mas sobretudo sistémica, económica e regulatória”.
A primeira grande dificuldade, explicou a vice-presidente da ESEIA, está na integração nos sistemas energéticos: “o crescimento rápido das renováveis, em especial da solar e da eólica, coloca desafios significativos à gestão das redes, à flexibilidade do sistema e ao armazenamento de energia.” Segundo a responsável, a ausência de “soluções maduras e economicamente acessíveis” limita a capacidade de integrar mais produção renovável de maneira estável e segura.
Além disso, os processos de infraestruturas e licenciamento continuam a ser problemáticos: “em muitos países europeus, incluindo Portugal, os processos de licenciamento são longos e complexos, e as infraestruturas de rede nem sempre acompanham o ritmo de instalação de nova capacidade renovável”, o que gera atrasos e incerteza para os investidores, explicou a presidente do Conselho Diretivo do LNEG.
Os principais entraves à adoção em massa das energias renováveis não são hoje de natureza tecnológica, mas sobretudo sistémica, económica e regulatória.
Em relação aos custos de investimento e acesso a financiamento, a responsável destacou que, apesar da redução significativa dos custos tecnológicos, “os projetos renováveis continuam a exigir elevado investimento inicial.” A volatilidade dos mercados, as taxas de juro e a incerteza regulatória tornam o acesso a financiamento mais difícil, especialmente para soluções inovadoras ou de menor escala, sublinhou.
Outro problema é a falta de uma abordagem equilibrada à transição energética. A responsável explicou que “a transição tem sido, em alguns casos, excessivamente centrada na eletrificação, deixando para segundo plano soluções complementares como a bioenergia, os biocombustíveis avançados e os gases renováveis, que são essenciais para setores difíceis de eletrificar, como a aviação, a indústria pesada ou parte dos transportes.”
Por fim, a presidente do Conselho Diretivo do LNEG mencionou os desafios relacionados à aceitação social e qualificação de recursos humanos, com a escassez de profissionais qualificados e o impacto local dos projetos a dificultar a implementação de soluções renováveis.
“Em síntese, acelerar a adoção em massa das renováveis exige não apenas mais tecnologia, mas políticas estáveis, planeamento integrado, investimento em redes e armazenamento, diversificação de soluções e capacitação das pessoas. É nesta visão sistémica que a transição energética pode tornar-se verdadeiramente robusta e inclusiva”, enfatizou a responsável.
Sobre o papel de Portugal na transição energética europeia, Teresa Ponce de Leão afirmou que o país tem “condições únicas para desempenhar um papel de referência na transição energética europeia, não apenas como utilizador de tecnologias limpas, mas como laboratório de soluções, produtor de energia renovável e exportador de conhecimento”.
A transição tem sido, em alguns casos, excessivamente centrada na eletrificação, deixando para segundo plano soluções complementares como a bioenergia, os biocombustíveis avançados e os gases renováveis.
A vice-presidente da ESEIA sublinhou que os “recursos endógenos excecionais” de Portugal, tanto solar, eólico onshore e offshore, hídrico, biomassa e oceânico, permitiram ao país atingir “níveis muito elevados” de eletricidade renovável, adquirindo experiência valiosa na integração dessas fontes no sistema elétrico.
“Essa experiência é hoje um ativo estratégico para a Europa”, acrescentou, frisando ainda que o papel de Portugal não se limita à eletricidade.
“O país pode afirmar-se como plataforma de demonstração e escala para soluções essenciais à transição, como os biocombustíveis avançados, os gases renováveis (biometano e hidrogénio de base renovável) e a valorização de resíduos agroindustriais, áreas críticas para setores difíceis de eletrificar, como a indústria, a aviação e parte dos transportes”, defendeu a responsável.
Além disso, Teresa Ponce de Leão acredita que Portugal pode ser uma “ponte entre política, ciência e indústria”, aproveitando um ecossistema de investigação robusto e instituições públicas com competências reconhecidas.
O crescimento rápido das renováveis, em especial da solar e da eólica, coloca desafios significativos à gestão das redes, à flexibilidade do sistema e ao armazenamento de energia.
“Neste domínio, a cooperação europeia e a participação ativa em projetos estratégicos são decisivas para posicionar o país nas cadeias de valor emergentes”, afirmou a presidente do Conselho Diretivo do LNEG.
Para a responsável, Portugal tem o potencial de “contribuir para uma visão europeia mais equilibrada da transição energética: rápida, mas pragmática, tecnologicamente diversa e socialmente inclusiva”.
Ao combinar ambição climática, segurança energética e criação de valor económico, Portugal pode ajudar a transformar a transição energética europeia em um verdadeiro projeto de desenvolvimento sustentável, concluiu a líder do LNEG.

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