A transição para uma economia de baixo carbono exige mais do que inovação em materiais sustentáveis: implica a transformação dos modelos territoriais, industriais e sociais. Exige, sobretudo, soluções capazes de articular recursos, conhecimento e valor ao longo das cadeias produtivas.
É neste enquadramento que surge o Projeto Integrado RN21, liderado pelo CoLAB ForestWISE. Partindo de um recurso histórico da floresta portuguesa – a Resina Natural – o RN21 demonstra como a bioeconomia pode ser operacionalizada de forma integrada, ao longo de toda a cadeia de valor. Com impacto na descarbonização da indústria, na gestão ativa da floresta e na coesão territorial, o RN21 afirma-se como um exemplo concreto de sustentabilidade aplicada, alinhado com as prioridades do Pacto Ecológico Europeu.
Em Portugal, cerca de 60% do território é ocupado por floresta e matos. O pinheiro-bravo, apesar de continuar a ser uma das espécies dominantes, perdeu relevância económica nas últimas décadas. A produção de Resina Natural ilustra esse declínio: passou de cerca de 140 mil toneladas nos anos 70, para aproximadamente 6 mil toneladas na atualidade. Esta quebra resulta do abandono produtivo, do envelhecimento da mão de obra e da substituição progressiva por resinas de origem fóssil, mais baratas, mas com uma pegada carbónica significativamente superior.
Este declínio ultrapassa a dimensão económica. Traduz-se numa menor gestão ativa do território, num aumento da vulnerabilidade aos incêndios florestais e numa dependência crescente de importações. É neste contexto que o RN21 se posiciona, enquadrado no Plano de Recuperação e Resiliência, como uma resposta integrada a falhas de mercado, riscos climáticos e desafios estruturais do setor florestal.
Governança colaborativa ao longo da cadeia de valor Um dos elementos estruturantes do Projeto RN21 é a sua arquitetura colaborativa. Como sublinha Rogério Rodrigues, Diretor Executivo do CoLAB ForestWISE e do Projeto Integrado RN21, “o consórcio reúne 36 parceiros, cobrindo produção florestal, primeira e segunda transformação, indústria, centros tecnológicos e entidades de I&D”. Esta configuração permite ultrapassar a fragmentação histórica do setor, alinhar inovação tecnológica com necessidades industriais reais e acelerar a transferência de conhecimento para o mercado.
A construção do Projeto assentou num diagnóstico partilhado: foram os próprios stakeholders que identificaram os principais bloqueios ao longo da cadeia de valor, da produção à transformação, e definiram as prioridades de intervenção. Esta estrutura confere ao RN21 um carácter eminentemente operativo, orientado para a resolução de problemas concretos, e não para demonstrações isoladas de inovação.
É precisamente essa abordagem que abre novas perspetivas sobre o potencial da Resina Natural. Para os investigadores envolvidos, a versatilidade desta matéria-prima coloca desafios e oportunidades estratégicas. “Sendo uma matéria-prima tão versátil, o que podemos fazer para ela entrar em novos mercados, reduzir pegada carbónica e auxiliar as nossas indústrias?”, questiona Marta Martins, gestora do projeto RN21.
Produção florestal: eficiência, atratividade e resiliência O primeiro pilar do RN21 incide sobre a produção de Resina Natural, historicamente associada a trabalho fisicamente exigente, baixa atratividade e fraca renovação geracional. O Projeto intervém neste domínio através da introdução de mecanização, de novos sistemas de recolha em circuito fechado e de programas de formação técnica dirigidos aos resineiros.
Estas soluções permitem reduzir drasticamente o número de intervenções por árvore, aumentam a produtividade e melhoram a qualidade da matéria-prima. “Construímos ferramentas que facilitam a vida do resineiro que deixa assim, no seu período anual de colheita, de precisar de ir 15 vezes à árvore fazer recolha para, em cinco ou seis vezes, retirar o mesmo volume de resina”, explica Rogério Rodrigues.
A adoção de sistemas de recolha fechados traduz-se ainda numa resina mais limpa, com menos impurezas, o que reduz consumos energéticos nas fases subsequentes de processamento industrial. Em paralelo, o Projeto RN21 investe em melhoramento genético, identificando árvores com maior capacidade produtiva e criando bases científicas para uma floresta mais eficiente, resiliente e alinhada com as exigências futuras do setor.
O segundo pilar do Projeto atua na transformação industrial e na valorização da resina como matéria-prima estratégica no contexto da bioeconomia. A partir dos seus principais derivados, a colofónia e a aguarrás, o RN21 desenvolve soluções para setores industriais fortemente dependentes de matérias-primas fósseis, criando alternativas competitivas com menos impacto ambiental.
A título de exemplo, as aplicações em desenvolvimento abrangem diferentes cadeias industriais:
• Embalagens alimentares, com filmes biobased que prolongam o tempo de prateleira, reduzem o desperdício alimentar e melhoram a reciclabilidade;
• Setor automóvel, com incorporação de Resina Natural em componentes interiores, reduzindo a pegada carbónica e a dependência de matérias-primas importadas;
• Têxtil e calçado, com novos adesivos, revestimentos e processos de tingimento mais sustentáveis, com um menor consumo de recursos fósseis.
Estas soluções estão a ser testadas em ambiente industrial real, com níveis de substituição entre 5% e 15%, podendo atingir 30% em algumas aplicações específicas, sem comprometer os requisitos de desempenho, qualidade e conformidade regulatória exigidos pelos diferentes setores.
Bioeconomia com impacto mensurável O RN21 demonstra que a bioeconomia pode gerar impactos ambientais mensuráveis em múltiplas dimensões, nomeadamente na, na diminuição da dependência de matérias-primas de origem fóssil, na valorização de recursos endógenos e no reforço da autonomia industrial.
Ao melhorar a sustentabilidade em toda a cadeia de valor e internalizar valor no território, o Projeto contribui de forma integrada para objetivos climáticos, económicos e estratégicos, reforçando a resiliência do tecido industrial nacional.
Resinae: rastreabilidade, certificação e mercado O terceiro pilar do RN21 materializa-se na criação da marca Resinae®, concebida como um mecanismo de valorização económica e de credibilização da Resina Natural de Pinus Pinaster. A marca garante rastreabilidade, transparência e diferenciação no mercado, associando os produtos finais a Resina Natural de pinheiro-bravo proveniente de florestas geridas de forma sustentável.
“Foi a forma que encontrámos para dar robustez a todo este processo. Com a Resinae® podemos dar uma vantagem competitiva ao proprietário florestal, permitindo uma via futura para que obtenha mais rendimento do que aquele que obtêm nos dias de hoje, e isso é diferenciador”, sublinha Marta Martins.
A utilização da marca está condicionada ao cumprimento de referenciais de certificação florestal reconhecidos, assegurando alinhamento com práticas ESG (Environmental, Social and Governance) e promovendo a transparência ao longo da cadeia de valor. Para os proprietários florestais, a resina passa a assumir um papel estrutural na rentabilidade do povoamento: a partir dos 20 anos, constitui uma fonte de rendimento anual, podendo aumentar em cerca de 30% o valor total gerado por hectare.
Gestão ativa e desafios futuros Um dos impactos estruturais do RN21 manifesta-se na relação direta entre produção de resina, gestão florestal e risco de incêndio. Ao criar incentivos económicos para a valorização e gestão ativa do pinhal, o Projeto contribui para a redução do abandono, para o reforço da vigilância no território e para a potencial diminuição da intensidade e extensão dos incêndios florestais.
Neste contexto, o resineiro é reposicionado como agente económico e ambiental, com um papel direto na prevenção e deteção precoce de incêndios. Esta valorização da atividade reforça a resiliência dos territórios do interior e contribui para a coesão territorial, associando rendimento, gestão florestal e criação de postos de trabalho.
O principal desafio do RN21 reside agora na escala: transformar protótipos em soluções de mercado, atrair novos profissionais para a atividade, consolidar a as inovações introduzidas na indústria permitindo a conquista de novos mercados. O envelhecimento da mão de obra e a resistência à mudança são obstáculos reais, que o Projeto propõe ultrapassar através de programas de formação, trabalho com escolas, uma forte campanha de comunicação e com a valorização social da atividade.
Apesar destes desafios, o RN21 estabelece bases sólidas para a replicabilidade noutros contextos europeus, demonstrando como recursos naturais tradicionais podem ser integrados em cadeias de valor modernas, competitivas e sustentáveis. Trata-se de um exemplo concreto de alinhamento entre bioeconomia, indústria e território.
Como sintetiza Rogério Rodrigues: “O que queremos é criar, na sociedade, no setor empresarial e também na estratégia política, um efeito agregador que reconheça na Resina Natural um agente importante dentro da bioeconomia, que se multiplica em muitos mercados”.
recuperarportugal.gov.pt
Projeto Integrado RN21 - Inovação na Fileira da Resina Natural para Reforço da Bioeconomia Nacional, é cofinanciado pelo Fundo Ambiental através da Componente 12 – Promoção da Bioeconomia Sustentável - Investimento TC-C12-i01 - Bioeconomia Sustentável - Aviso N.o 01/C12-i01/2021 e N.o 02/C12-i01/2021, dos fundos europeus atribuídos a Portugal pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito do Mecanismo de Recuperação e Resiliência (MRR) da União Europeia (EU), enquadrado no Next Generation UE, para o período de 2021 - 2026.
Não perca informação: Subscreva as nossas Newsletters