O Grupo Urbanos tem vindo a crescer bastante nos últimos anos, em contraciclo com a economia. Quais são as vossas expectativas de crescimento para este ano, nomeadamente em termos de faturação?
Estamos de facto num ciclo de crescimento que deverá prolongar-se por mais uns anos. Há um ano e meio tínhamos 57 mil metros quadrados de área de plataformas logísticas, hoje temos 120 mil metros quadrados. Em volume de negócios, crescemos cerca de cinco a 10% de 2010 para 2011 e prevemos crescer 25% este ano. Faturámos 25 milhões de euros em 2011 e devemos fechar 2012 com 36 milhões de euros. É a nova realidade do grupo, com as aquisições, mas mesmo sem elas teríamos crescimento orgânico.
A opção de expansão da Urbanos tem sido feita através das aquisições. Vai continuar a ser esta a estratégia?
Na verdade crescemos tanto por via orgânica como por aquisição nos últimos dois anos, o que se passa é que as aquisições são mais visíveis. A nossa estratégia de crescimento, que vai manter-se, é muito simples, é conhecida por toda a organização e é coerente com o nosso core business, a logística: crescer em áreas onde já temos uma quota considerável e existe potencial de crescimento do mercado, e em áreas em que podemos crescer por determos uma quota baixa, mesmo que não estejam em crescimento.
Por exemplo, a recente aquisição da Mclane permitiu-nos crescer na área da distribuição alimentar e de produtos químicos, que era uma lacuna que tínhamos no nosso portfolio de serviços logísticos. A aquisição da RNTrans permitiu-nos entrar na logística de feiras e congressos, que não tínhamos, e também crescer numa área onde já tínhamos alguma dimensão, a arte. E estamos a falar de empresas cujas condições de aquisição nos foram favoráveis face ao contexto atual.
Como tem o Grupo Urbanos atuado para minimizar os efeitos da crise económica?
Temos vindo a assistir a uma redução do valor médio de faturação por cliente. Há setores onde esta redução é na ordem dos 5%, noutros chega aos 40%. A estratégia do grupo tem sido compensar a redução do peso dos clientes atuais com a entrada de novos clientes. Por outro lado, temos uma taxa de retenção elevadíssima.
Desde 2010 temos vindo a apostar na eficiência operacional. A criação da IT Log, por exemplo, foi uma decisão arriscada, que requereu investimento avultado, contratação de pessoas qualificadas e um tempo de amadurecimento das soluções. Hoje já estamos a colher os frutos, através de uma maior fiabilidade das operações e redução de custos.
Outra medida que temos vindo a tomar há 2 anos é o reforço das nossas linhas intermédias. Fazemos uma segmentação do serviço ao nível base (motoristas, operadores de armazém) e começamos a ter polivalência ao nível das chefias intermédias, o que requer investimento em formação.
Para promover a desejada articulação entre as diferentes unidades de negócio – e a Urbanos abrange quase todas as atividades na área da logística – criámos um gabinete de desenvolvimento estratégico de negócio. Cabe-lhe fazer a integração da oferta disponível e analisar potenciais áreas de negócio. Desta forma, conseguimos capturar mais valor dos clientes que já tínhamos em carteira.
Também reforçámos a atenção em determinadas áreas, como os eletrodomésticos e a eletrónica de consumo, com bons resultados. E temos procurado manter a saúde da nossa tesouraria, com bons clientes que honram os seus compromissos a tempo e horas e atuando rapidamente quando há algum desvio face ao planeado. Por outro lado, nos últimos dois anos não aumentámos o nosso nível de endividamento.
Com estas medidas melhorámos a nossa competitividade e eficiência e conquistámos mais clientes, pois os nossos preços tornaram-se mais agressivos e a qualidade de serviço continuou em crescimento.
Quais são as áreas de negócio estratégicas para o grupo, ou seja, aquelas onde pensam crescer mais?
Segmentamos os setores em que nos movemos em três: de crescimento acentuado, moderado e os de estagnação ou regressão. Nos de crescimento acentuado, isto é, com crescimentos superiores a 10% ao ano, temos a área de serviços tecnológicos – eletrodomésticos e eletrónica de consumo, a componente internacional e a logística de serviços, que compreende o kitting e o packing, e serviços associados ao marketing e ao merchandising.
Nas áreas de crescimento moderado, entre os 5 e os 10%, temos a arte, as feiras, a distribuição alimentar e a gestão documental. Em estagnação está a área das mudanças (quer o mercado de escritórios quer o particular estão parados) e a atividade expresso, que é muito concorrencial e tem sofrido com a redução da atividade económica.
Basicamente as áreas importantes para nós são a logística tecnológica e a componente internacional.
Em termos setoriais, quais são as vossas apostas? Por exemplo, conseguiram recentemente um novo cliente, a Indesit.
Telecomunicações, eletrónica de consumo, eletrodomésticos e indústria farmacêutica, na área de eventos, são as áreas onde prevemos maior crescimento.
Junto dos operadores de telecomunicações existe um grande potencial de operação ao nível da logística tecnológica e de serviços, nomeadamente do kitting. É um setor muito dinâmico onde queremos sem dúvida estar presentes.
Temos já uma quota de mercado que ronda os 40% na área de eletrónica de consumo e eletrodomésticos, de acordo com as estatísticas dos fabricantes, e o nosso objetivo é terminar este ano acima dos 50%. Neste setor a dimensão é uma questão crítica. Como os locais onde se fazem as entregas são mais ou menos os mesmos, quem consegue capturar a maioria das marcas consegue mais vantagens e preço para capturar o mercado que falta. Já temos rotas fixas diárias e por essa via temos condições vantajosas na captura desse mercado.
Outro setor onde queremos apostar é o farmacêutico. Não pretendemos entrar na distribuição de fármacos, mas estamos presentes, e queremos reforçar a nossa presença, na organização logística de eventos (congressos, feiras, exposições e ações de marketing destas empresas).
Qual é o posicionamento pretendido na área do comércio eletrónico?
Pretendemos crescer no e-commerce, que é uma área que ainda não está suficientemente desenvolvida em Portugal, embora qualquer uma das marcas que é nossa cliente na distribuição física também tenha vendas online.
Estamos a criar um CCO – Centro de Coordenação Operacional, que seguirá passo a passo as equipas, com o objetivo de rentabilizar as áreas, e queremos desenvolver um contact centre. Com estas duas estruturas articuladas entre si, a Urbanos tem capacidade de prestar um serviço de baixo custo e altíssima qualidade.
Dentro de que áreas é que pretendem prestar serviços logísticos no e-commerce?
Com exceção da área alimentar, que implica especificidades em termos de climatização de viaturas, podemos entrar em qualquer outra, desde eletrónica de consumo, vestuário, etc.. Tudo o que fazemos com armazenagem e distribuição física queremos também fazê-lo para vendas online.
Desde 2011 estão a apostar na internacionalização. Estão presentes em Marrocos e estão a entrar em Angola. Em que áreas estão a atuar nestes países?
Em Marrocos iniciámos a operação no último trimestre de 2011. Começámos pelos setores de logística expresso e logística de suply chain, incluindo armazenamento e distribuição. Mas vamos desenvolver em Marrocos as mesmas unidades de negócio que temos em Portugal e vamos começar já este ano. Estamos atualmente a alargar a nossa presença, a nossa frota e os nossos recursos e, à medida que o fazemos, vamos alargando o portfolio de serviços.
Porque decidiram apostar em Marrocos?
É um mercado que está a crescer 5% ao ano, tem estabilidade política, apesar dos acontecimentos nos países em redor, e está próximo de Portugal.
Qual foi o montante do investimento e quando estimam atingir o break even?
O montante do investimento foi de 4,5 milhões de euros mas vamos continuar a investir em função do que sejam os requisitos e as necessidades do mercado. O break even da operação está previsto para final de 2013.
E no caso de Angola?
Em Angola estamos presentes com um parceiro, o grupo Mota Engil e estamos na fase de instalação e de contratação de pessoas. Vamos começar pelas províncias principais, onde há atividade económica, ligada aos portos ou à exploração de recursos naturais: Luanda, Lobito, Benguela, Soyo e Huambo.
A operação deverá arrancar entre junho e julho, com os serviços expresso (doméstico e internacional) e logística supply chain de suporte às cada vez mais empresas portuguesas que atuam no mercado angolano, sobretudo na área da distribuição.
O modelo a seguir será similar, ainda que por um lado existam algumas carências em termos logísticos (infraestruturas logísticas, subcontratação de transportadores), e por outro existam áreas onde o desenvolvimento poderá ser mais célere, como a área de mudanças, que apresenta grande potencial, sobretudo no setor empresarial. É uma área que deveríamos lançar anda este ano.
No caso de Angola, qual é o montante do investimento e quando planeiam o break even?
O investimento em Angola ronda os 4 milhões de euros, com início em 2012 e tem o break even ao fim do segundo ano completo de operação. Tal como nos restantes casos, vamos investir de forma gradual e em função do crescimento da própria atividade.
Planeiam avançar para outros países ou para já a estratégia é consolidar a presença nestes dois?
A prioridade é consolidar a operação nestes dois países. Estamos também a analisar a expansão para Moçambique em parceria com uma empresa portuguesa presente no país, temos várias em análise. E estamos também a olhar, ainda que com menos relevância neste momento, para o mercado brasileiro.
Onde espera ver a Urbanos daqui a dois ou três anos?
Queremos ser um dos maiores grupos portugueses na área da logística. Ser reconhecidos pela nossa tecnologia e sistemas de informação, ser uma referência não só pela qualidade de serviço mas pela forma inteligente como utilizamos a tecnologia e os sistemas de informação.
E queremos ter uma posição sólida no mercado angolano, marroquino e, quem sabe, também em Moçambique. Teremos sempre, em Portugal como nesses países, a grande ameaça das multinacionais da logística, mas encontraremos os elementos diferenciadores para nos distinguirmos.

