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Análise: Brasil, mercado apetecível mas complexo

Análise: Brasil

Com uma área de 8,5 milhões de km2, quase 200 milhões de habitantes e uma história comum de 500 anos o Brasil é visto como um mercado incontornável para Portugal. O que nos aproxima parece mais forte que o que nos separa mas as empresas portuguesas que lá estão sabem que não é bem assim e que são muitos os entraves a enfrentar. Ser bom na Europa é preciso mas não é suficiente e aconselha-se muita resiliência. 

As trocas comerciais entre Portugal e o Brasil têm atravessado diferentes fases ao longo dos séculos. Enquanto colónia portuguesa e mesmo após a independência, o Brasil teve sempre um papel extremamente importante como fornecedor de algumas matérias-primas e consumidor de produtos portugueses.

Nos últimos cinco anos, as exportações portuguesas extracomunitárias evoluíram de 22% para 27% do seu total, e o Brasil está hoje entre os quatro primeiros clientes externos de produtos e serviços portugueses, sem incluir a UE. Os outros são Angola, EUA e China.

Para a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, o percurso destes últimos anos veio reforçar um caminho que, ao longo das duas últimas décadas, “demonstra uma evolução muito positiva do comércio bilateral, com taxas históricas de crescimento muito superiores à média do crescimento do comércio mundial”, diz António Bustorff, presidente da CCILB.

António Belmar da Costa, Diretor Executivo da AGEPOR – Associação dos Agentes de Navegação de Portugal, acha “expectável que o esforço de penetração dos produtos portugueses no imenso mercado brasileiro possa vir a ser recompensado, apesar de a economia brasileira ter vindo a desiludir ultimamente”, refere, aludindo à recessão no segundo trimestre deste ano. Para que as trocas comerciais entre os dois países cresçam, aconselha que se faça uma “planificação cuidada das áreas e setores a privilegiar já que em todos os produtos com forte incidência no custo da mão-de-obra a competição para penetrar no mercado brasileiro é e será, cada vez mais, com os países do subcontinente indiano e Extremo Oriente”, refere. 

Ultrapassar protecionismo

Mas para que as trocas comerciais entre os dois países possam de facto progredir é precisa “capacidade política para ultrapassar algumas condicionantes burocráticas / fiscais / protecionistas”. Consequência dos anos passados, o responsável da AGEPOR diz ainda hoje notar “uma certa falta de estratégia concertada no sentido de, a nível político, ultrapassar barreiras burocráticas e fiscais que emperram um maior dinamismo das trocas comerciais”. Uma ideia partilhada pelas empresas que estão a trabalhar com o Brasil.

“O mercado fala a mesma língua, mas essa é mesmo a única vantagem dos exportadores portugueses, num mercado maduro, protetor e com muita concorrência”, diz Nuno Rangel. O Vice-Presidente do Grupo Rangel aconselha aos exportadores portugueses perseverança e competitividade para conseguir marcar presença local. Por outro lado, defende a continuação do trabalho que tem vindo a ser feito pelas entidades governamentais portuguesas. “Existe muito potencial, mas também muitas barreiras a serem ultrapassadas”.

Pedro Lopes Ribeiro, fundador e Ceo da Slidelog e da Picklog é da mesma opinião: “O Brasil é um país de fronteiras fechadas. Quem vem para o Brasil tem de ter muita qualidade, capacidade financeira, capacidade de resiliência e de persistência. A indústria brasileira está muito protegida, por isso, ser bom na Europa é condição necessária, porém não é condição suficiente para ser bem-sucedido aqui”. A Slidelog é uma empresa que se dedica à integração de sistemas intralogísticos automáticos e a Picklog desenvolve e fabrica a tecnologia Pick, um sistema de dispensação de materiais. No Brasil, a Slidelog iniciou atividade em julho de 2013, com investimento direto e focalizada nos mercados de healthcare e defesa. O seu cliente referencial no mercado é a Força Aérea Brasileira.

Melhorar relações institucionais

A experiência da Cenor vai no mesmo sentido. Quando entrou no Brasil, esta consultora de engenharia contava com uma relação privilegiada entre Portugal e o Brasil “que não existe”, diz Pedro Colunas Pereira. “As relações Portugal-Brasil estão num mínimo histórico e este governo brasileiro é claramente hostil a Portugal, por vezes mesmo tomando atitudes discriminatórias face a Portugal”. O administrador da Cenor não está otimista. Por um lado não vê nenhum sinal de alteração política que favoreça as relações institucionais com Portugal. Por outro, considera “inevitável que o Brasil entre em forte crise económica”. 

A CCILB reconhece que a economia brasileira é ainda extremamente fechada ao exterior, se comparada com o conjunto das principais economias mundiais. “A percentagem da corrente comercial brasileira com o exterior ronda os 20% do seu PIB, o que é manifestamente baixo para um país relativamente industrializado e detentor de enorme variedade e quantidade de recursos naturais”. Para António Bustorff, este fenómeno resulta de três fatores principais: a política económica protecionista, a insuficiência de infraestruturas e logística e a burocracia associada à regulação fiscal e aduaneira.

Esta organização espera, no entanto, maior abertura no futuro: “Tendo em conta que o comércio externo é uma estrada de duas vias e que o Brasil tem, pelas suas características naturais, mais a vender do que a comprar ao exterior, torna-se previsível que venhamos a observar nas próximas décadas uma maior abertura da sua economia e com ela do seu importante mercado consumidor, que cresce a bom ritmo, tanto em número como em capacidade de poder de compra”.

Leia este artigo na íntegra na edição da Logística & Transportes Hoje de setembro/outubro. 

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