Consumo Ético

A sustentabilidade sai cara?

Produtos biológicos e saudáveis

Adotar um consumo mais sustentável ainda não é para todas as carteiras. Na moda sustentável não há t-shirts a quatro euros, comprar alimentos biológicos ainda sai mais caro do que as alterativas convencionais e na cosmética biológica a preocupação em criar produtos saudáveis pode só trazer poupanças no longo prazo. Há cada vez mais consumidores preocupados com estas questões e que não se importam de pagar o preço da sustentabilidade, mas as empresas dizem estar a apostar na democratização destes produtos para que o preço não seja barreira para um estilo de vida mais consciente.

São vários os estudos que mostram que os produtos biológicos ainda chegam ao mercado a um preço mais elevado do que os convencionais. Se há uns anos se falava de oportunismo da produção e da distribuição, a tentar surfar a onda da sustentabilidade, hoje sabemos que o preço destes produtos tem vindo a diminuir e já não é impedimento para que possamos todos viver de forma mais sustentável.

Jaime Ferreira, Presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio), não nega que os produtos biológicos sejam mais caros, mas explica que “os preços têm vindo a diminuir e se fizéssemos um consumo dos produtos biológicos de acordo com a sua época própria de produção, os biológicos seriam bem mais baratos e a um preço bem mais próximo dos produtos convencionais.”

O representante dos produtores de biológicos em Portugal defende ainda que a questão do preço “tem a ver com o facto de haver pouca produção face ao consumo que já existe”, o que obriga, muitas vezes, a importar produtos de outros países, um fator que encarece o valor final do produto no canal de distribuição.

Ainda assim, lembra que nos deveríamos antes questionar porque é que os produtos convencionais são tão baratos. “Para nós essa questão é essencial. Não está associado ao preço dos produtos convencionais o facto de se deixar, por exemplo, o solo com resíduos de pesticidas, a acumulação de adubos químicos de síntese, a poluição da água. Alguém vai pagar essa conta. Aliás, nós pagamos essa conta, indiretamente, quando temos de descontaminar a água, os solos ou quando há problemas com o ar que respiramos. O planeta onde estamos vai acumulando essa fatura e mais tarde ou mais cedo essa conta vai-nos ser apresentada, nem que seja em saúde.”

“Muitas vezes o barato sai caro”

Uma opinião partilhada por Eunice Maia, o rosto da Maria Granel, mercearia de produtos biológicos e a granel e defensora do movimento ‘Zero Desperdício’, que rejeita a ideia de que consumir de forma mais sustentável seja mais caro.

“Por experiência própria, e apesar de ter de fazer uma declaração de interesses porque sou parte interessada com um negócio nessa área, como consumidora tenho a experiência contrária. Desde que comecei a consumir de forma mais sustentável, tenho poupado bastante”, justifica.

A fundadora da Maria Granel diz ainda que desde que abriu a primeira mercearia, em Alvalade, em 2015, tem vindo a assistir a uma mudança de comportamento por parte do consumidor, que hoje já “não se importar de pagar mais” se souber de onde vem o produto e como é produzido.

“Desde que haja transparência e conheçamos bem quem nos faz chegar o produto, e esta lição de proximidade e de familiaridade, conseguimos perceber o preço, sem dúvida nenhuma. E pagar um preço justo é uma forma de apoiarmos. O grande ponto de partida para mim como consumidora nem é porque é que as opções mais sustentáveis são caras, mas porque é que os outros são tão baratos (…) Nota-se que há muito mais consciência, não só do impacto que tem na saúde, quando falamos do biológico, em específico, mas também do impacto ambiental e social. A questão de garantir a sobrevivência e subsistência dos pequenos produtores e a valorização do ponto de vista nutritivo, dos solos, da água, do mundo rural, da biodiversidade, da dignidade do agricultor…O biológico é tudo isto, quando é bem feito”, refere.

Eunice Maia diz ainda que “quando pensamos no preço, enquanto número, é algo muito objetivo e mensurável. Mas quando se fala no biológico e em sustentabilidade, não podemos pensar a curto prazo. É muito importante pensarmos a longo prazo e quando olhamos só para o preço, a curto prazo e de forma unitária, estamos a olhar para a árvore e não para a floresta. A longo prazo há um impacto muito importante na nossa saúde individual, mas também na saúde do planeta. E quando pensamos no preço a curto prazo e de forma imediata, isso não nos vem à cabeça. Isto vai muito além do preço e basta pensar em produtos sustentáveis como um copo menstrual que custa 24 euros. É imenso, de facto, mas se eu pensar que com aquele copo estou a substituir milhares de pensos higiénicos e tampões, eu estou não só a poupar a minha saúde, mas também a ter impacto ao nível da saúde do planeta. Muitas vezes o barato sai caro.”

Consumidores estão “mais conscientes no momento da compra”


A Auchan, cadeia de distribuição que ao longo dos anos tem vindo a alargar não só o número de referências biológicas, mas também a granel, contando hoje com cerca de 600 referências de produtos avulso, rejeita a ideia de que consumir produtos a granel represente um acréscimo da despesa para as famílias.

Clara Costa, Diretora de Marca e Transformação da Auchan Portugal, explica que “um dos objetivos do avulso é precisamente a economia na compra. Este formato tem vantagens económicas ao oferecer ao cliente um modelo de compra alternativo em que pode poupar, comprando a um preço/quilo mais barato face aos equivalentes embalados, e nas quantidades adaptadas à sua carteira e necessidades imediatas. No que diz respeito aos biológicos, os valores são mais elevados porque são produtos que exigem uma certificação e obrigam ao cumprimento de determinados requisitos.”

A responsável da Auchan Portugal diz ainda que ao retirar as embalagens dos produtos, é possível “reduzir o seu preço”. “Acreditamos que a aposta na economia circular é o caminho. Na Auchan fomentamos a simplificação ou redução das embalagens nos produtos, exemplo dos nossos produtos avulso e do trabalho de ecodesign nas embalagens dos produtos de marca própria. Por outro lado, fazemos um trabalho de sensibilização para reutilização de embalagens de transporte e a redução do consumo, ou seja, um uso mais responsável.”

Clara Costa acredita também que “os consumidores estão cada vez mais preocupados com a sua alimentação, com a proteção do ambiente e com o respeito das condições de produção” e, por isso, também, “mais conscientes no momento da compra”, querendo “comprar melhor e na quantidade certa.”

“Quem manda no mundo são as grandes marcas”


Esta maior consciência e responsabilidade no momento da compra tem-se estendido também à indústria da cosmética, que além de uma aposta na desplastificação está também a tentar criar fórmulas cada vez mais naturais e biológicas a preços acessíveis.

Tiago Melo, Marketing Director Mass-Beauty da L’Oréal Portugal, explica que a marca Garnier, em particular, tem procurado “massificar e tornar acessível a todos os consumidores a compra de produtos naturais, ecológicos e biológicos”. De acordo com o responsável, a empresa foi “a primeira a disponibilizar produtos biológicos na grande distribuição com o lançamento de Garnier Bio”.

“Há uma crescente exigência dos consumidores e um aumento na procura destes produtos. Se por um lado temos consumidores mais exigentes e informados, por outro temos consumidores também mais conscientes e a adotar práticas sustentáveis de consumo”, acrescente.

Também por isso, a marca assumiu recentemente o compromisso Plasticless, um plano no âmbito do qual a Garnier planeia, em 2020, “reduzir em 8000 toneladas o consumo de plástico a nível mundial.” Tiago Melo lembra ainda que “a Garnier não faz testes em animais há três décadas e não o faz em nenhum dos países onde está presente”, “uma preocupação clara do consumidor atual que conseguimos antecipar há muito tempo.”

Cátia Curica, uma das fundadoras da Organii, rede de lojas de cosméticos biológicos, defende, porém, que comprar cosméticos biológicos certificados e isentos de produtos sintéticos não é mais caro do que comprar produtos convencionais.

“Não acho [que seja mais caro], mas tenho noção de que depende do que estamos a comparar. Há um determinado preço abaixo do qual nós temos noção de que o valor não paga nada. Quando vemos um litro de champô ou de gel de duche a um euro, temos de ter a noção que se inclui o fabrico da embalagem e da tampa, o transporte e o produto em si, isto não pode ser um preço justo. E se a isso acrescentarmos o marketing da embalagem, quem desenhou o rótulo, quem preparou as informações legais…Esses preços só são possíveis se alguém estiver a ser prejudicado na produção desse produto. Agora isso não significa que não seja possível ter preços baixos”, defende.

Cátia Curica, que organiza também o Organii Eco Market, um espaço onde se reúnem “marcas, conceitos e ideias mais sustentáveis”, diz também que hoje “as pessoas já não escolhem pela questão do preço”.

“Muitas vezes tem a ver com o local onde está disponível. As pessoas querem ir ao sítio do costume e ter lá esses produtos. Isso ainda não acontece e provavelmente não vai acontecer tão cedo. Enquanto o consumidor não fizer as escolhas noutro lado, os grandes locais onde tipicamente as pessoas fazem compras não vão mudar. Tem de ser uma mudança por parte do consumidor. O consumidor tem um poder inacreditável e o seu poder de voto ao comprar é extremamente elevado”, lembra.

A fundadora da Organii diz ainda que embora possam existir produtos de cosmética biológicos que possam ser mais caros que os convencionais, o custo a longo prazo acaba por ser menor, pelo menos na saúde e no ambiente.

“Essa é outra grande razão para a procura. Como estes produtos sempre quiseram ir por esta via mais natural, são produtos que são melhores para a saúde, mas que também respeitam o ambiente. A grande maioria dos protetores dos solares, por exemplo, não se degrada no ambiente. As pessoas usam, mas depois vão ao mar e os resíduos do protetor solar vão ficar a contaminar as águas, os solos…Já para não falar de que muitos, ou quase todos, quando ficam no mar fazem uma barreira e não deixam o sol penetrar, matando ecossistemas como os corais. Já há muitas zonas de praia onde se diz que é proibido usar protetor exatamente por isto”, explica, referindo também que os consumidores devem estar atentos às tentativas de greenwashing de algumas marcas.

“Quando uma marca tem uma série de linhas de produto que fazem mal ao ambiente ou que não se preocupam com a saúde e depois cria linhas sustentáveis porque o mercado está a pedir, temos de perceber que a única coisa que estas marcas querem é continuar a vender. Não estão intrinsecamente preocupadas em encontrar as soluções. Não tenho dúvida nenhuma de que quem manda no mundo são as grandes marcas. São elas que têm o poder de mudar o mundo”, conclui Cátia Curica.

“Vamos passar a comprar com mais qualidade e a ter menos coisas”

Em relação à indústria da moda, uma das mais poluidoras do mundo e uma das que mais tem estado debaixo dos holofotes da sustentabilidade, os consumidores começam a questionar as práticas de produção e as campanhas de marketing que apelam a um consumo desmedido.

A Conscious Swimwear, marca nacional que se dedica à produção de biquínis, foi criada por Joana Silva, que depois de alguns anos a trabalhar na L’Oréal decidiu que estava na hora de criar alternativas sustentáveis para as peças de praia. Em apenas seis meses criou uma marca 100% sustentável e com valores de defesa do trabalho justo e proteção do ambiente.

Quando decidi fazer uma marca mais sustentável tinha obviamente de questionar o tecido e o tecido mais fácil de encontrar nos fornecedores é obviamente a licra tradicional, muito usada para swimwear e para roupa de desporto. Sabia que esta não era a melhor opção e comecei à procura no Google, que é como começamos todos hoje em dia. Encontrei uma marca italiana, a Aquafil, que faz uma fibra de nylon a partir de plástico reciclado do mar e de lixeiras de todo o mundo e que a junta à fibra que no fundo dá a elasticidade, que é o elastano. 78% do material que usamos é plástico reciclado e os restantes 22% são elastano”, explica.

Todos os outros materiais, normais na operação de qualquer negócio, como as caixas e as etiquetas, são escolhidos “com o maior cuidado possível” para que haja reciclabilidade e durabilidade. Já o corte dos tecidos é feito à mão, em ateliê, para que haja “o menor desperdício possível”, “uma realidade gigante na indústria da moda”.

Joana Silva diz que os consumidores estão cada vez mais conscientes do impacto que cada uma das suas decisões de compra tem, mas defende que “há um grande trabalho a ser feito.”

“Há dias estava numa loja com um amigo e vi uma mochila por 3,90 euros. Como é que é possível? Provavelmente foi feito no Vietname, mas 3,90 euros não pagam sequer o transporte, nem o algodão e o poliéster que de certeza vieram de outro país qualquer. São estas coisas que eu antes não questionava, e que acredito que muita gente ainda não questione, que começam agora a ser notadas. Em Portugal já há muitas marcas a comunicarem tudo o que envolve o processo de produção e acho que é normal que seja mais caro (…) Vai haver uma grande revolução no consumo. Esta nossa necessidade de preencher vazios com coisas vai mudar. Vamos passar a comprar com mais qualidade e a ter menos coisas. Ter menos coisas significa também ter mais tempo”, defende.

“Acho que o trabalho de algumas marcas e pessoas tem sido importante para desincentivar o consumismo, mas por outro lado acho que as marcas grandes, que chegam a tanta gente, têm de fazer essa mudança. É um processo lento e às vezes carregado de greenwashing… As pessoas não entendem que o facto de uma peça dizer algodão 100% orgânico não é suficiente se depois é produzida num local onde não são dadas condições de trabalho… Mas são estas marcas que vão fazer a diferença no mundo, não é a minha. Nunca vou competir com uma Inditex ou com a H&M e são estas marcas que têm o poder de fazer a diferença, tendo fábricas onde são praticados ordenados e condições de trabalho justos. O caminho é por aí e está nas mãos destas marcas mudar o mundo. Se isso significar ter menos coleções durante o ano ou aumentar um pouco os preços, então que seja esse o caminho. Ele tem de ser feito”, conclui