Num setor intensivo em consumo, a eficiência energética deixou de ser um tema ambiental para se afirmar como uma variável crítica de gestão. Produção própria, inteligência artificial e edifícios mais eficientes estão a redesenhar a operação do retalho em Portugal.
A eficiência energética está a ganhar um peso crescente na operação do retalho em Portugal, deixando de ser apenas uma vertente da estratégia de sustentabilidade para se afirmar como um fator crítico de gestão, num contexto marcado pela pressão sobre os custos energéticos e por exigências regulatórias europeias cada vez mais apertadas. No setor dos centros comerciais, esta transformação é já visível e Carla Pinto, diretora executiva da Associação Portuguesa de Centros Comerciais (APCC), sublinha que a sustentabilidade é hoje uma prioridade transversal, refletida na adoção generalizada de práticas mais eficientes. Segundo dados da associação, 97% dos operadores já implementaram medidas alinhadas com objetivos de sustentabilidade, 87% contam com produção fotovoltaica e 88% adotaram soluções de redução de consumo energético. Assim, no âmbito do Plano de Poupança de Energia, desenvolvido em parceria com a ADENE, os centros comerciais registaram uma redução global de 58% nos consumos de gás e eletricidade entre agosto de 2022 e fevereiro de 2024.
Este movimento não acontece de forma isolada, já que resulta também de um enquadramento europeu cada vez mais exigente, com a revisão da Diretiva da Eficiência Energética e da Diretiva de Desempenho Energético dos Edifícios a reforçar metas de redução de consumo e descarbonização até 2030, pressionando diretamente setores com grande intensidade energética, como o retalho alimentar e os centros comerciais. Num setor onde as margens são tradicionalmente reduzidas, a energia passou a ser uma variável de competitividade, com impacto direto nos custos operacionais e na resiliência do negócio.
Do ponto de vista técnico, o foco é claro. De acordo com uma análise desenvolvida no Instituto Superior Técnico sobre o desempenho energético de supermercados em Portugal, os sistemas de refrigeração e climatização podem representar cerca de 60% do consumo total destes espaços, tornando-se o principal campo de intervenção. É também aqui que se concentram os maiores ganhos potenciais, seja através da modernização dos equipamentos, da introdução de portas nos móveis de frio ou da recuperação de calor para reutilização na climatização.
Escala, investimento e produção própria: o novo desenho energético do retalho
A dimensão desta transformação é particularmente visível nos maiores operadores do retalho alimentar, onde a eficiência energética passou a ser integrada na própria arquitetura da operação. Carlos Sampaio, Head of the Energy Area da MC, sublinha que esta abordagem começa no desenho das lojas e estende-se à gestão diária dos ativos, refletindo uma estratégia de longo prazo assente na redução estrutural do consumo energético. A empresa conta atualmente com mais de 245 centrais fotovoltaicas instaladas e uma potência de 67 MWp, permitindo cobrir cerca de 35% das necessidades de eletricidade com produção própria, valor que ultrapassa os 50% quando considerado o mix energético nacional.
A aposta na produção própria responde não só a objetivos ambientais, mas também a uma lógica de previsibilidade e controlo de custos num contexto de volatilidade dos preços da energia. Ao longo da última década, a MC reduziu em 19% a energia comprada à rede, apoiada em investimento contínuo em tecnologia, que só em 2024 atingiu os 53 milhões de euros. A gestão energética assenta em sistemas de monitorização em tempo real, com recurso a soluções IoT, automação e inteligência artificial, permitindo ajustar consumos em função da operação e antecipar desvios de eficiência.
Também a ALDI Portugal tem vindo a reforçar a produção própria como eixo da sua estratégia energética. João Braz Teixeira, Managing Director Expansion and Real Estate, indica que a empresa já instalou painéis fotovoltaicos em 144 lojas e no centro de distribuição da Moita, abrangendo cerca de 94% da rede. Em termos operacionais, cerca de 30% do consumo diário de energia das lojas é assegurado por produção própria, reduzindo a dependência da rede elétrica e aumentando a eficiência global das operações.
Também o Lidl Portugal tem vindo a reforçar a produção própria como eixo da sua estratégia energética. Vanessa Romeu, diretora de Corporate Affairs, refere que a empresa utiliza eletricidade 100% verde em todos os seus edifícios desde 2019 e conta já com mais de 150 lojas equipadas com sistemas fotovoltaicos. A produção própria representa cerca de 13% do consumo total, atingindo os 25 GWh, o equivalente ao consumo anual de mais de sete mil lares portugueses. A responsável acrescenta que a insígnia reduziu em 56% as emissões operacionais de âmbito 1 e eliminou as emissões de âmbito 2 através da utilização exclusiva de eletricidade com garantia de origem, evidenciando a ligação direta entre eficiência energética e descarbonização.
Já no caso do Grupo Mosqueteiros, a estratégia passa pelo reforço progressivo da autonomia energética das lojas. De acordo com informação da empresa, cerca de 28% da energia consumida já tem origem em produção fotovoltaica própria, com mais de 260 lojas equipadas com painéis solares. Em paralelo, está em curso a implementação de sistemas de armazenamento, que deverão permitir aumentar o autoconsumo de cerca de 20% para aproximadamente 50%, reduzindo a exposição à volatilidade dos preços da energia e reforçando a estabilidade das operações.
Por sua vez, o Grupo Jerónimo Martins, e de acordo com a informação mais recente divulgada, aponta para um reforço do investimento em eficiência energética e descarbonização das operações, nomeadamente através da melhoria da eficiência dos equipamentos, da aposta em energia renovável e da redução das emissões associadas à atividade.

Onde se ganha eficiência
Se a produção de energia é um dos pilares, a gestão inteligente dos consumos é o outro. Na Worten, Alexander Uzcategui, Sustainability Area Coordinator, explica que a empresa tem vindo a apostar na digitalização da gestão energética, com sistemas que permitem acompanhar consumos em tempo real, identificar ineficiências e ajustar a operação das lojas. Esta abordagem, combinada com a substituição da iluminação por LED e a modernização dos equipamentos, permitiu reduzir em cerca de 15% o consumo energético nas lojas comparáveis, podendo atingir reduções de 25% em períodos de menor atividade.
Esta lógica de eficiência operacional estende-se também ao setor da restauração. A McDonald’s Portugal tem vindo a reforçar a eficiência energética da sua operação, com mais de 70% dos restaurantes já equipados com iluminação LED e 55% das unidades a integrarem sistemas de gestão de energia, que permitem ajustar consumos em tempo real, evitando desperdícios e adequando o funcionamento dos equipamentos à procura efetiva. A empresa aposta ainda em equipamentos mais eficientes, sistemas de climatização inteligentes e na mobilidade elétrica, com 188 pontos de carregamento rápido já instalados em restaurantes com serviço drive.
A eficiência energética está também a ser trabalhada ao nível estrutural dos edifícios, numa abordagem cada vez mais integrada. João Lavos, diretor de Sustentabilidade e Impacto Positivo da Leroy Merlin Portugal, destaca que a construção e utilização de edifícios representam cerca de 40% da pegada carbónica global, o que coloca este domínio no centro das estratégias de descarbonização.
A intervenção passa tanto pelo reforço do isolamento como pela modernização tecnológica, incluindo iluminação LED regulável, equipamentos de climatização eficientes e sistemas de automação. Esta abordagem é visível nas novas infraestruturas, como o Centro de Distribuição Nacional, que integra mais de 2.300 módulos fotovoltaicos e uma produção anual superior a 1.800 MWh, tendo obtido certificação LEED Platinum. No conjunto da operação, 100% da energia consumida já provém de fontes renováveis e a empresa reduziu em 23% a sua pegada carbónica desde 2021.
Do internacional ao local. Até onde pode ir o modelo
Os exemplos internacionais mostram até onde pode evoluir este modelo. De acordo com um estudo publicado na ScienceDirect, um supermercado na Suécia conseguiu reduzir o consumo energético em cerca de 60% face a um modelo tradicional, através da combinação de iluminação LED, sistemas de refrigeração com recuperação de calor e produção fotovoltaica. A introdução de portas nos equipamentos de frio permitiu reduzir em mais de 50% o consumo energético dessa área, evidenciando o impacto de medidas relativamente simples quando aplicadas em escala.
Também no Reino Unido, iniciativas desenvolvidas em parceria com entidades técnicas do setor, como a Chartered Institution of Building Services Engineers (CIBSE), mostram que é possível integrar soluções de eficiência energética desde a fase de conceção das lojas. É neste contexto que a Tesco, cadeia britânica de distribuição alimentar, tem vindo a desenvolver projetos com sistemas de refrigeração de baixo consumo, recuperação de calor e otimização energética dos edifícios, num modelo que antecipa aquilo que começa a ser implementado em Portugal.
A leitura conjunta destes exemplos aponta para uma conclusão clara: a eficiência energética no retalho deixou de ser incremental e passou a ser estrutural. Num setor caracterizado por elevados consumos, a energia passou a ser gerida como um ativo crítico, com impacto direto na rentabilidade, na previsibilidade dos custos e na capacidade de adaptação a um contexto regulatório e económico cada vez mais exigente.
Energia no retalho em números
- 58%
Redução do consumo energético nos centros comerciais (2022–2024, APCC/ADENE) - 67 MWp
Potência fotovoltaica instalada na MC - 35%
Eletricidade assegurada por produção própria na MC (mais de 50% com mix nacional) - 25 GWh
Produção anual de energia do Lidl em Portugal - 7.000 lares
Equivalente ao consumo energético coberto pelo Lidl
O que estão a fazer as marcas?
- MC
245 centrais solares / -19% energia comprada à rede / 53 M€ investidos em 2024 - ALDI Portugal
94% das lojas com solar / ~30% consumo assegurado por produção própria - Lidl Portugal
100% eletricidade verde / -56% emissões Scope 1 - Grupo Mosqueteiros
28% energia própria / objetivo de 50% autoconsumo com armazenamento - Worten
-15% consumo energético (até -25% em períodos de menor atividade) - McDonald’s Portugal
70% restaurantes com LED / 55% com gestão energética | 188 pontos de carregamento - Leroy Merlin Portugal
100% energia renovável / -23% pegada carbónica desde 2021

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