Biodiversidade

O custo invisível da perda de biodiversidade na economia portuguesa

O custo invisível da perda de biodiversidade na economia portuguesa iStock

A perda de biodiversidade deixou de ser apenas uma preocupação ambiental para se ter vindo a tornar num risco económico real.

Em Portugal, setores estruturais como a agricultura, a floresta, as pescas, o turismo ou a energia já sentem os efeitos da degradação dos ecossistemas, muitas vezes de forma silenciosa, mas com impactos crescentes na produtividade, nos custos e na resiliência das atividades. Ainda assim, esta dependência profunda da natureza continua subvalorizada, apesar de sustentar serviços essenciais ao funcionamento da economia.

Apesar do discurso em torno da sustentabilidade e dos critérios ESG estar a ganhar relevo, a biodiversidade mantém-se frequentemente como um elemento secundário nas estratégias empresariais, marcado por compromissos pouco concretos, dificuldades de medição e práticas de greenwashing.

Ainda assim, há sinais de mudança e soluções identificadas, desde a transformação das práticas agrícolas e florestais ao reforço de políticas públicas e parcerias, embora a janela de oportunidade para travar a degradação seja cada vez mais estreita.

É neste contexto que se enquadram as perspetivas de Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, e de Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca, respetivamente técnica de projetos de conservação de aves estepárias e técnica coordenadora do Programa Zonas Costeiras e Oceano da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), cujas análises ajudam a enquadrar os custos, os riscos e as soluções associados à perda de biodiversidade em Portugal.

Tereza Fonseca, técnica coordenadora do Programa Zonas Costeiras e Oceano

Ana Teresa Pereira, técnica de projetos de conservação de aves estepárias

O custo da perda de biodiversidade na economia portuguesa e os seus impactos setoriais

É Catarina Grilo quem nos começa por dizer que os custos da perda de biodiversidade “são vastos e, muitas vezes, só se tornam visíveis quando perturbam setores inteiros da economia”.

Segundo a responsável, em Portugal, “os impactos são evidentes em múltiplos setores: a agricultura sofre com a perda de polinizadores, com a redução da fertilidade dos solos, e com a remoção frequente de todos os elementos naturais numa exploração”.

E continua: “a floresta é afetada por incêndios cada vez mais intensos, que geram prejuízos elevados, incluindo perda de vidas humanas, e reduzem a disponibilidade de matérias‑primas”.

Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal

Além disso, a diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal afirma que os stocks pesqueiros enfrentam pressões significativas devido à sobrepesca e à degradação dos habitats marinhos, enquanto o Estado continua a assegurar o financiamento de modelos inovadores e mais eficazes de gestão das pescarias, como é o caso dos comités de cogestão para a apanha de percebe na Reserva Natural das Berlengas e da pesca do polvo no Algarve.

Já no turismo, sublinha que beneficia da qualidade ambiental do país, mas também a prejudica ao exceder frequentemente a capacidade de carga de vários locais e ao fomentar a criação de infraestruturas de utilidade duvidosa que reduzem a qualidade ambiental e paisagística.

Quanto ao setor energético, aponta que, com o aumento da temperatura média do ar, é colocado sob maior pressão devido à maior procura por eletricidade para climatização dos edifícios, bem como ao facto de os equipamentos operarem em condições térmicas menos adequadas, sublinhando também que a maior incerteza na precipitação limita a água disponível para o arrefecimento de centrais térmicas e torna a produção hidroelétrica menos fiável.

Na ótica de Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca, “o problema é a perceção da importância destas dinâmicas para o bem-estar da sociedade”, uma vez que se são “serviços silenciosos”.

O problema é a perceção da importância destas dinâmicas para o bem-estar da sociedade.

As responsáveis dão como exemplo o setor agrícola, em que o declínio de insetos polinizadores pode afetar culturas dependentes de polinização, como várias produções frutícolas. Referem ainda a floresta, onde “ecossistemas menos diversos e mais simplificados tornam-se mais vulneráveis a pragas, doenças e incêndios”.

Além disso, “no mar, o desequilíbrio dos ecossistemas marinhos leva à redução das capturas, com impacto no rendimento das comunidades piscatórias”, frisam.

Setores com maior impacto na biodiversidade e pontos críticos nas cadeias de valor

As porta-vozes da LPN destacam que os setores com maior impacto são aqueles que recorrem à utilização de recursos naturais como matéria-prima ou como fonte de energia para a produção e transformação, bem como os que têm lugar em áreas de grande valor natural, seja pelo seu potencial produtivo ou pelo valor cénico.

Referem ainda que se trata sobretudo da agricultura e da agroindústria, da produção florestal, das pescas e aquacultura, da construção e infraestruturação do território, da produção de energia, da mineração, da indústria têxtil e do turismo.

As responsáveis sublinham que existem “vários pontos críticos nas cadeias de valor onde é possível intervir, desde a extração dos recursos até ao consumo final”. Na sua perspetiva, é necessário “olhar para onde os danos ambientais são maiores: na indústria extrativa, sobretudo na destruição direta dos ecossistemas; na produção, no uso de água e de energia, na poluição e nas emissões, que conduzem à degradação e contaminação dos ecossistemas; e no consumo, na sobre-exploração e nos resíduos, que agravam ainda mais essa degradação…”.

Para além dos pontos críticos específicos ao longo das cadeias de valor, Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca alertam para a existência de um “desafio transversal”, que se prende com “a dificuldade em medir de forma rigorosa os impactos das atividades económicas na biodiversidade, o que compromete a transparência e a eficácia da sua monitorização”.

Já para Catarina Grilo, nas cadeias de valor, “os maiores pontos críticos residem na elevada dependência de serviços ecossistémicos e na ausência de avaliação de riscos climáticos e naturais, que podem gerar disrupções severas nos negócios”.

Os maiores pontos críticos residem na elevada dependência de serviços ecossistémicos e na ausência de avaliação de riscos climáticos e naturais, que podem gerar disrupções severas nos negócios.

Adverte ainda que “as empresas têm de perceber que a desregulamentação ambiental (ou seja, reduzir a exigência ambiental às empresas) não aumenta a competitividade: apenas destrói os ativos naturais de que dependem para operar”, frisando também que “a resiliência de um negócio mede-se agora pela integridade da sua cadeia de valor”.

Integração da biodiversidade nas estratégias empresariais: Prioridade ou tema secundário?

“Apesar de a sustentabilidade fazer hoje parte do discurso empresarial, a verdade é que a biodiversidade continua, na maioria dos casos, longe de estar integrada de forma substantiva na estratégia das empresas”, começa por referir Catarina Grilo.

A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal afirma ainda que, em muitos contextos, a biodiversidade permanece como um tema secundário, traduzido em compromissos vagos ou ações isoladas que não alteram o modelo de negócio nem reduzem a pressão efetiva sobre os ecossistemas. Aponta ainda que persiste a tendência para confundir responsabilidade ambiental com comunicação ou para apostar em soluções rápidas, como compensações carbónicas, que não substituem reduções reais de impacto.

A porta-voz da WWF Portugal sublinha também que “a natureza não é apenas um tema ambiental: é uma infraestrutura económica essencial”, uma vez que, “sem solos férteis, água disponível, polinizadores ou clima estável, não existe produtividade agrícola, estabilidade energética, cadeias de abastecimento resilientes ou segurança hídrica”.

Apesar de a sustentabilidade fazer hoje parte do discurso empresarial, a verdade é que a biodiversidade continua, na maioria dos casos, longe de estar integrada de forma substantiva na estratégia das empresas.

Sublinha ainda que o envolvimento das empresas é “absolutamente determinante” e que é necessário passar da retórica à ação concreta, nomeadamente através da medição de impactos e dependências, da integração dos riscos naturais nas decisões financeiras, da definição de metas vinculativas de redução, do investimento em restauro ecológico e do alinhamento dos planos de negócio com políticas públicas de longo prazo.

Ainda assim, Catarina Grilo salienta que existem empresas que “já estão a ajustar os seus modelos de produção, a investir em restauro da natureza e a incorporar indicadores de resiliência ecológica na gestão”, acrescentando que “estes exemplos mostram que a mudança é possível, que existe ambição no tecido empresarial português e que, quando há liderança interna, os resultados são concretos e mensuráveis”.

Defende, contudo, que o que ainda está a faltar “é que esta mobilização deixe de ser exceção e passe a ser norma, porque num país tão exposto à crise climática e à perda de biodiversidade como Portugal, a inação já não é uma opção sustentável, nem ambiental nem economicamente”.

Também Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca consideram que a integração da biodiversidade nas estratégias empresariais se trata de um tema que “está na moda”, sendo “favorável para chamar à atenção para a problemática”, mas que, “na prática, mantém-se secundário”.

Segundo as especialistas, “as medidas adotadas continuam a traduzir-se em metas de carbono, em detrimento de métricas relacionadas com a biodiversidade e a saúde dos ecossistemas, ou revelam impacto reduzido nos habitats”. Para ambas, “é dada maior importância à comunicação da crescente preocupação ambiental das empresas, o que frequentemente resulta em práticas de greenwashing, cada vez mais sofisticadas e que exigem uma regulamentação mais rigorosa”.

Acrescentam também que, nas empresas onde as boas práticas de sustentabilidade já estão a ser integradas, o foco tem sido maior nas alterações climáticas do que na perda de biodiversidade, uma vez que esta é mais difícil de medir, tanto em termos de impactes diretos como de impactes indiretos ao longo da cadeia de valor, onde persistem lacunas ao nível de indicadores simples e comparáveis, de dados e de transparência.

Referem ainda que existe pressão das métricas europeias, que tendem a centrar-se nas metas de carbono, embora reconheçam que há “boas exceções”.

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