Nas cadeias de abastecimento, a distância deixou de ser apenas uma questão de quilómetros. Passou a medir-se também em risco, tempo, carbono, stock parado e capacidade de resposta. Depois de décadas a procurar eficiência em geografias distantes, empresas e retalhistas começaram a olhar de novo para a proximidade, não como nostalgia industrial, mas como instrumento de resiliência. O que está em causa não é o fim da globalização, mas o fim da cadeia única.
A reorganização das cadeias de abastecimento deixou de ser uma hipótese para passar a ser uma necessidade estratégica. Depois de décadas marcadas pela deslocalização da produção para geografias mais baratas, o modelo global enfrenta hoje um ponto de inflexão, pressionado por disrupções logísticas, tensões geopolíticas, custos de transporte, exigências regulatórias e uma crescente preocupação com a sustentabilidade.
A mudança é sustentada por sinais concretos. Segundo o estudo “Supply Chain Risk Survey 2024”, da McKinsey, 90% dos líderes de supply chain inquiridos enfrentaram desafios nas cadeias de abastecimento em 2024; 73% reportaram progressos em estratégias de dual sourcing e 60% estão a desenvolver ações para regionalizar as suas operações. A proximidade, contudo, não elimina a tensão económica: no estudo “Closing the European competitiveness gap”, de setembro do ano passado, a Deloitte estima que seis em cada dez empresas industriais europeias operem com custos mais de 10% superiores aos de concorrentes noutras regiões.
O que está em causa não é, contudo, uma rutura total com a globalização. A tendência que começa a ganhar forma aponta antes para modelos híbridos, em que as empresas procuram combinar cadeias globais com fornecedores mais próximos, diversificando riscos e reduzindo a dependência de geografias distantes. O objetivo já não é apenas comprar ao menor custo unitário, mas garantir previsibilidade, rapidez de resposta, rastreabilidade e capacidade de adaptação num mercado mais instável.
Cadeias menos vulneráveis
No setor têxtil, essa mudança já é sentida no terreno. Marta Pacheco, diretora comercial da Riopele, confirma que, nos últimos anos, a empresa tem observado “um interesse crescente das marcas europeias por parceiros de produção mais próximos geograficamente, especialmente dentro do espaço europeu”. A explicação está menos numa lógica de regresso ao passado e mais na procura por cadeias menos vulneráveis, depois de anos marcados por pandemia, instabilidade logística global e tensões geopolíticas.
A instabilidade no Mar Vermelho, o aumento dos custos e tempos de transporte, as tensões comerciais entre grandes blocos económicos e a crescente incerteza regulatória e aduaneira criaram desafios para todos os intervenientes da cadeia de valor. O impacto sente-se na previsibilidade, nos custos operacionais e no planeamento. Perante este contexto, muitas marcas começaram a repensar o risco associado a cadeias demasiado longas e concentradas, procurando complementar os modelos tradicionais com parceiros mais próximos dos mercados finais.
A palavra-chave, para a Riopele, é complementar. “O que temos observado não é necessariamente uma substituição total da Ásia, mas sim uma diversificação das estratégias de sourcing“, detalha Marta Pacheco. A Ásia continua a desempenhar um papel relevante na indústria global, sobretudo em categorias de grande escala e muito orientadas para o custo, mas as marcas europeias e norte-americanas estão a reduzir gradualmente a dependência da China e a reforçar estratégias de nearshoring e regionalização da produção.
É neste contexto que Portugal pode ganhar espaço e Marta Pacheco defende mesmo que o país tem ganho relevância enquanto “hub europeu de desenvolvimento e produção têxtil premium”, não apenas pela proximidade geográfica, mas também pelo know-how técnico e pela tradição industrial. A diferença face a outros mercados de proximidade, como a Turquia, o Norte de África ou alguns países da Europa de Leste, está na combinação de flexibilidade, rapidez de resposta, consistência de qualidade, capacidade técnica, desenvolvimento conjunto e maior controlo sobre sustentabilidade e rastreabilidade.
A rapidez tornou-se decisiva num setor em que os ciclos da moda estão mais curtos e as marcas procuram fornecedores capazes de responder a cápsulas, reposições, alterações de procura e desenvolvimentos mais frequentes. A gestão de risco também ganhou peso, depois de as disrupções logísticas dos últimos anos terem exposto a vulnerabilidade de cadeias demasiado concentradas. A estes fatores juntam-se a sustentabilidade, a rastreabilidade e a pressão para reduzir stocks, quer por razões de rentabilidade, quer por razões ambientais.
Produzir mais próximo implica, naturalmente, diferenças de custo face a alguns mercados asiáticos, sobretudo quando se olha apenas para o custo direto de produção. Mas a equação está a mudar. Segundo Marta Pacheco, “cada vez mais marcas avaliam a competitividade de forma mais abrangente”, considerando lead times, flexibilidade, risco de stock, custos logísticos, previsibilidade, qualidade, sustentabilidade e capacidade de resposta. Em muitos casos, acrescenta, produzir mais perto permite reduzir desperdício, minimizar excesso de inventário e responder melhor à volatilidade da procura, equilibrando a rentabilidade final.
“Cada vez mais marcas avaliam a competitividade de forma mais abrangente”, considerando lead times, flexibilidade, risco de stock, custos logísticos, previsibilidade, qualidade, sustentabilidade e capacidade de resposta. Em muitos casos, acrescenta, produzir mais perto permite reduzir desperdício, minimizar excesso de inventário e responder melhor à volatilidade da procura, equilibrando a rentabilidade final.

Relocalizar não é só produzir mais perto
A leitura do CITEVE acrescenta uma camada técnica a esta discussão. O projeto be@t – Bioeconomia na Indústria Têxtil não trata a relocalização apenas no sentido clássico de trazer produção de volta para a Europa. O foco está também na redução de dependências externas críticas e na diversificação do aprovisionamento, através da valorização de matérias-primas e resíduos locais, incluindo resíduos agroindustriais, florestais e têxteis.
“Mais do que relocalizar produção no sentido clássico, o projeto ajuda o setor a reduzir dependências externas e a diversificar o aprovisionamento”, afirma Carla Joana Silva, diretora do Departamento de Química e Biotecnologia, explicando que o be@t atua “onde as cadeias de abastecimento ganham ou perdem robustez: matérias-primas, ingredientes, processos e dados”. O objetivo passa por acelerar a adoção industrial de soluções de base biológica e circular, com impacto na resiliência, na transparência e no valor acrescentado da fileira.
Em resultados acumulados entre julho de 2022 e outubro de 2025, o projeto reporta 80 atividades de I&D+I, 98 novos produtos com melhor pegada ecológica e quatro plataformas ou bases de dados desenvolvidas. Entre os exemplos concretos estão desenvolvimentos com linho e cânhamo, fibras de folhas de ananás e de bananeira integradas em fios e malhas, bem como a valorização de resíduos como aparas de poda da videira, cascas de pinheiro e cortiça.
O projeto inclui ainda trabalho em rastreabilidade e transparência, nomeadamente através do Passaporte Digital do Produto, com aplicação implementada para versão móvel e desktop, ainda em fase de especificação e testes. Este ponto é relevante porque a reorganização das cadeias não depende apenas da distância geográfica, mas também da capacidade de provar origem, composição, impacto ambiental e conformidade regulatória.
As dependências externas mais expostas no setor têxtil estão, segundo Carla Joana Silva, em três frentes: matérias-primas fibrosas e produtos intermédios produzidos fora da União Europeia; química têxtil, como corantes, auxiliares e ingredientes funcionais; e risco logístico e geopolítico associado a rotas longas, que amplificam disrupções, alongam prazos e tornam a rastreabilidade mais difícil e mais cara.
A proximidade pode reduzir tempos de transporte e aumentar a capacidade de resposta, melhorando reposições, pequenas séries e ajustes rápidos. Mas não elimina a tensão económica. A responsável admite que pode existir um patamar inicial de custos mais elevado em algumas etapas, defendendo, contudo, que o indicador relevante deve ser o custo total – risco de rutura, inventário, perdas por atraso, custo logístico e exposição à volatilidade.
Também aqui a tendência é apresentada como estrutural, ainda que em consolidação. Segundo a diretora do Departamento de Química e Biotecnologia do CITEVE, já existem empresas portuguesas a encurtar cadeias através da integração de matérias recicladas e de base biológica, da valorização de resíduos locais e de parcerias intersetoriais entre têxtil, floresta e agroindústria. O be@t reporta ainda a implementação, em entidades empresariais parceiras, de dez linhas piloto-industriais para produção de novas matérias-primas de base biológica.

Portugal como plataforma de proximidade
Em Portugal, a tendência lê-se mais pela própria estrutura exportadora da economia. Segundo a AICEP/Portugal Global, a União Europeia absorveu 71% das exportações portuguesas de bens em 2024. A leitura é confirmada pela Síntese Estatística do Comércio Internacional n.º 01/2026, do GEE, com base em dados do INE, que aponta para um peso de 71,1% do mercado intra-UE nas exportações portuguesas de mercadorias entre janeiro e novembro de 2025. Em ambos os casos, os dados confirmam a forte integração do país em cadeias regionais e em mercados próximos.
Essa relação é particularmente relevante em setores industriais como o têxtil e o calçado, onde a proximidade aos clientes europeus se cruza com rapidez de resposta, flexibilidade produtiva e capacidade de desenvolvimento. No têxtil e vestuário, a ATP estima que o setor represente cerca de 10% das exportações nacionais e 20% do emprego da indústria transformadora. Já no calçado, segundo a APICCAPS, Portugal exportou cerca de 68 milhões de pares em 2025, no valor de 1,718 mil milhões de euros, reforçando a presença do setor nos mercados externos e a sua capacidade de competir em segmentos de maior valor acrescentado.
Também no têxtil surgem exemplos concretos desta reorganização. A marca francesa Veja desenvolveu uma cadeia de produção em Portugal destinada ao mercado europeu, numa lógica de “made in Europe, sold in Europe”, associando proximidade geográfica a maior rapidez de resposta e redução de risco nas cadeias de abastecimento. O caso mostra que o país pode funcionar não apenas como fornecedor, mas como plataforma industrial para marcas que procuram maior controlo sobre prazos, qualidade e rastreabilidade.
No cruzamento entre estes dados e a leitura da Riopele e do CITEVE, a proximidade deixa de ser apenas geográfica. Passa a significar controlo, transparência, tempo de resposta e capacidade de adaptação. No limite, pode ser produtiva, tecnológica, material ou informacional, e é aí que Portugal pode ganhar espaço numa Europa que procura cadeias menos longas, menos vulneráveis e mais rastreáveis.
A proximidade deixa de ser apenas geográfica. Passa a significar controlo, transparência, tempo de resposta e capacidade de adaptação. No limite, pode ser produtiva, tecnológica, material ou informacional, e é aí que Portugal pode ganhar espaço numa Europa que procura cadeias menos longas, menos vulneráveis e mais rastreáveis.
No retalho alimentar, proximidade também é eficiência
No retalho alimentar, a proximidade assume outra dimensão. A Jerónimo Martins associa as relações com fornecedores locais ao fortalecimento da economia regional, à dinamização das comunidades onde opera e à criação de emprego, mas também aponta benefícios operacionais diretos: simplificação da cadeia de abastecimento, maior eficiência, prazos de entrega mais curtos e produtos mais frescos, com maior durabilidade e qualidade.
A empresa relaciona ainda a redução das distâncias percorridas no transporte, nomeadamente aéreo e marítimo, com a diminuição das emissões de carbono. Além disso, liga a proximidade à redução do desperdício alimentar, ao defender que a diminuição do tempo de transporte se traduz em mais tempo de prateleira.
É neste enquadramento que o grupo afirma manter, há mais de uma década, o compromisso de que pelo menos 80% das compras de produtos alimentares sejam efetuadas pelas suas companhias de distribuição alimentar a fornecedores locais. Esta aposta tem expressão nos vários mercados onde opera.
Na Polónia, a Biedronka desenvolve desde 2021 um programa de compras diretas a pequenos produtores locais, que começou com 60 participantes e, em 2025, integrava mais de 260 produtores ativos, responsáveis por mais de 268 milhões de alimentos entregues nas lojas da insígnia. Na Colômbia, a Ara desenvolve a iniciativa “La placita de Ara”, que reserva uma secção específica, à entrada das lojas, para fruta e legumes adquiridos diretamente a produtores locais. Em 2025, mais de 100 produtores participaram nesta iniciativa, resultando na comercialização de cerca de 80 mil toneladas de produtos locais. Em Portugal, o Pingo Doce adquiriu, em 2025, mais de 16 mil toneladas de maçã, maçã mini, pera mini, cereja, castanha nacional e kiwi.
Neste caso, a cadeia curta traduz-se em frescura, eficiência operacional, redução de desperdício e valorização da produção local. Mas também aqui o movimento não significa uma rutura com modelos globais. O que se observa é uma adaptação progressiva, em que a proximidade ganha peso como fator de decisão, sobretudo em categorias onde frescura, sazonalidade, disponibilidade e shelf life são determinantes.

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O fim da cadeia única
A reorganização das cadeias de abastecimento não aponta para o fim da globalização, mas para o fim da dependência excessiva de uma única geografia, fornecedor ou modelo. O que está em curso é uma redistribuição do risco, em que proximidade, diversificação, rastreabilidade e capacidade de resposta passam a pesar tanto quanto o custo.
No têxtil, essa mudança aparece na procura por parceiros europeus capazes de responder mais depressa e com maior controlo sobre qualidade e sustentabilidade. Na indústria, projetos como o be@t mostram que a autonomia também se constrói a montante, através de novas matérias-primas, valorização de resíduos e soluções de base biológica. No retalho alimentar, a proximidade surge como forma de garantir frescura, eficiência e redução de desperdício.
O futuro das cadeias de abastecimento não será apenas mais curto. Será mais seletivo: global quando a escala o justificar, regional quando o risco o exigir, local quando a proximidade criar valor, e circular quando a dependência de matérias-primas externas se tornar demasiado cara para ignorar.

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