Há 30 anos, falar de reciclagem de embalagens em Portugal era falar de um conceito praticamente desconhecido para a maioria dos cidadãos. A separação de resíduos de embalagens não fazia parte do quotidiano das pessoas, os ecopontos ainda não existiam na paisagem urbana e o termo ‘economia circular’ estava longe de entrar no vocabulário das empresas ou das famílias.
Foi neste contexto que nasceu a Sociedade Ponto Verde (SPV), a 19 de novembro de 1996, com uma missão clara: criar um sistema capaz de organizar a gestão de resíduos de embalagens em Portugal e mobilizar empresas, cidadãos e entidades públicas em torno de um objetivo comum.
Três décadas depois, a transformação é evidente. A reciclagem de embalagens passou a fazer parte da rotina diária de milhões de portugueses, a rede de recolha seletiva cobre todo o território nacional e o Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE) tornou-se uma infraestrutura essencial para a promoção da economia circular em Portugal.
Aliás, o comportamento dos cidadãos já reflete uma adesão significativa à reciclagem de embalagens – hoje, aproximadamente 70% dos lares portugueses colocam as suas embalagens nos ecopontos, cuja rede nacional é composta por cerca de 70 mil. Além disso, a maior parte dos cidadãos considera que a reciclagem de embalagens é o seu maior contributo para o ambiente.
Por tudo isto, mais do que celebrar um aniversário, os 30 anos da SPV representam um momento de reflexão sobre o caminho percorrido, os desafios que o setor ainda enfrenta e, sobretudo, sobre o futuro da gestão de resíduos em Portugal. Num contexto de transformação ambiental, tecnológica e social, a inovação será determinante para acelerar a transição para modelos mais eficientes, inteligentes e participativos, capazes de responder às exigências das próximas décadas. Desde a digitalização de processos à criação de novas soluções de recolha e reciclagem, passando pelo reforço da proximidade com os cidadãos, o futuro do setor passará inevitavelmente pela capacidade de inovar, colaborar e antecipar novos desafios.

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Um sistema pioneiro
A fundação da SPV marcou o início da reciclagem de embalagens em Portugal. O País foi o sexto da União Europeia a implementar um sistema organizado de gestão de resíduos de embalagens, avançando antes de países como Espanha ou Itália. Este pioneirismo revelou-se determinante para estruturar um modelo capaz de responder às exigentes diretrizes europeias ambientais que estavam a ser, à data, transpostas para Portugal, e criar hábitos de reciclagem de embalagens numa sociedade onde praticamente não existia cultura de separação destes resíduos.
No primeiro ano de atividade da SPV, foram recicladas cerca de 1.500 toneladas de resíduos de embalagens. Só em 2025, esse número alcançou perto de 487 mil toneladas. Além disso, desde 1996, a SPV já contribui para a reciclagem de mais de 11 milhões de toneladas de embalagens. A evolução demonstra não apenas o crescimento do sistema, mas também a mudança progressiva de comportamentos e o aumento da consciência ambiental dos portugueses.
Ao longo destas três décadas, a SPV ajudou a construir uma rede nacional de recolha seletiva, apoiou o desenvolvimento de infraestruturas, contribuiu para aumentar a capacidade de triagem e valorização de materiais e promoveu sucessivas campanhas de comunicação e sensibilização que aproximaram a reciclagem de embalagens dos cidadãos.
Mas a transformação não foi apenas operacional. A reciclagem de embalagens deixou de ser encarada como uma questão exclusivamente ligada à gestão dos resíduos para passar a integrar uma visão mais ampla sobre sustentabilidade, eficiência de recursos e circularidade.

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Da reciclagem de embalagens à economia circular
A evolução do setor trouxe consigo novos desafios e novas responsabilidades. Se, numa primeira fase, o grande objetivo era criar um sistema capaz de assegurar a recolha e reciclagem de embalagens, hoje a discussão é muito mais abrangente.
A economia circular tornou-se um eixo central da atuação da SPV, promovendo uma abordagem integrada que considera todo o ciclo de vida das embalagens – desde a conceção até à valorização dos materiais após utilização para entrarem novamente no ciclo produtivo. Neste contexto, o ecodesign assumiu um papel particularmente relevante. Desenvolver embalagens mais recicláveis, mais sustentáveis e com maior incorporação de materiais reciclados é hoje uma prioridade para o setor e para as empresas.
Para o efeito, a SPV tem vindo a disponibilizar ferramentas e conhecimento técnico que apoiam as empresas nesta transição, promovendo soluções mais eficientes e alinhadas com as exigências ambientais atuais e futuras. Exemplos disso são o Ponto Verde Lab, uma plataforma agregadora de conhecimento e inovação que apoia a evolução dos processos do setor, bem como as ferramentas de ecodesign que promovem a conceção de embalagens mais circulares. Destacam-se o ‘Pack4Recycling’ e, em particular, o ‘Pack4Sustain’, que permite às empresas clientes da SPV avaliar e melhorar a sustentabilidade das suas embalagens através de novas funcionalidades, contribuindo para um maior compromisso empresarial com a transição para uma economia circular. Desde o seu lançamento, o Pack4Sustain já analisou e forneceu recomendações para 365 embalagens simuladas, abrangendo diferentes indústrias e tipos de materiais.
Ao mesmo tempo, a entidade tem reforçado o trabalho colaborativo com municípios, sistemas de gestão de resíduos, empresas, academia e parceiros tecnológicos, numa lógica de inovação aberta e construção conjunta de novas soluções. Porque a verdade é que os desafios ambientais exigem respostas coletivas. Exemplo desta aposta é o projeto Rede Recicla +, o programa de financiamento da SPV de ações de comunicação, sensibilização e educação para SGRU e para Câmaras e Empresas Municipais com foco na sensibilização para a reciclagem de embalagens de vidro, que tem crescido ano após ano e que, na edição que está a decorrer em 2026, tem 700 mil euros para atribuir a projetos destas entidades.

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Inovação como motor de transformação
Se existe um elemento transversal à história da Sociedade Ponto Verde, esse elemento é a inovação. Desde 1996, a SPV tem apostado continuamente em projetos de investigação e desenvolvimento (I&D) e inovação como forma de melhorar o desempenho do sistema e acelerar a transição para modelos mais circulares.
Até 2025, o investimento total acumulado foi de 18.9 milhões de euros em mais de 120 estudos e projetos de I&D, envolvendo mais de 150 entidades. O objetivo tem sido claro: desenvolver soluções capazes de modernizar a operação, aumentar a eficiência do sistema e gerar melhores resultados ambientais.
Hoje, a inovação na gestão de resíduos de embalagem vai muito além da componente tecnológica tradicional. Fala-se de inteligência artificial, robotização, automação, análise de dados, rastreabilidade, sensores inteligentes, gamificação, novos modelos de recolha e sistemas de incentivo ao comportamento dos cidadãos.
A digitalização está a transformar profundamente o setor. Só através da análise de dados e da aplicação de novas tecnologias, é possível melhorar processos de recolha e triagem, aumentar a qualidade dos materiais recolhidos, monitorizar operações em tempo real e criar soluções para que seja prestado um melhor serviço aos cidadãos em qualidade e conveniência.
Para isso, a SPV defende que é necessário criar um registo único de dados do sistema de reciclagem de embalagens, que permita gerar indicadores fiáveis, uniformes e consistentes para toda a cadeia de valor – empresas, SGRU, tutela, governo, cidadãos, municípios e entidades gestoras. Apenas com dados uniformes e transparentes é possível tomar decisões estratégicas informadas, medir a performance do sistema e monitorizar resultados. Só através deste modelo será possível definir objetivos concretos e até criar mecanismos de incentivo ou penalização consoante o desempenho das entidades envolvidas.
Sem esquecer que a inovação também passa pela forma como se comunica sustentabilidade. Hoje, sensibilizar para a reciclagem de embalagens exige proximidade, criatividade e capacidade de envolver diferentes públicos através de experiências mais interativas e relevantes. É precisamente nesta interseção entre tecnologia, colaboração e mudança comportamental que a SPV tem vindo a desenvolver alguns dos seus projetos mais relevantes.

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Re_Source: inovação colaborativa com impacto global
Um dos exemplos mais emblemáticos deste investimento em inovação é o Re_Source, o programa de inovação colaborativa desenvolvido pela SPV em parceria com a Beta-i.
Criado para identificar soluções inovadoras capazes de responder aos desafios da gestão de resíduos de embalagens e da circularidade, o programa tem vindo a afirmar-se como uma plataforma de experimentação e desenvolvimento de novas ideias para o setor. Ao longo de quatro edições, o Re_Source recebeu mais de 600 candidaturas provenientes de dezenas de países, demonstrando que os desafios ambientais são globais e que a inovação não conhece fronteiras.
Até ao momento, a SPV já investiu mais de 1.7 milhões de euros em 35 projetos-piloto desenvolvidos no âmbito deste programa. O objetivo passa por testar soluções em contexto real, avaliar o seu impacto operacional e ambiental e acelerar a implementação das iniciativas com maior potencial.
Entre as soluções aplicadas encontram-se inteligência artificial aplicada à triagem de resíduos de embalagens, à aplicação de sensores nos ecopontos para otimização das rotas de recolha, soluções de rastreabilidade de materiais, modelos inteligentes de recolha seletiva, automação industrial e ferramentas de incentivo ao comportamento dos cidadãos. Mais do que promover a inovação, o Re_Source procura gerar soluções concretas que contribuam para melhorar a eficiência operacional do sistema, aumentar a circularidade dos materiais e responder às metas ambientais cada vez mais exigentes.

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Literacia ambiental: educar para transformar
A história da reciclagem de embalagens em Portugal mostra que a transformação do sistema depende de vários fatores a atuar em conjunto: da evolução das infraestruturas e da tecnologia, da melhoria contínua do nível de serviço e, igualmente, do envolvimento dos cidadãos. Ao longo das últimas décadas, foi esta combinação entre inovação, investimento e participação dos cidadãos que permitiu consolidar hábitos, aumentar resultados e fazer crescer a reciclagem de embalagens no País
Desde cedo, a SPV percebeu que o sucesso do sistema exigia uma forte aposta na sensibilização e na educação ambiental. Porque, acima de tudo, reciclar embalagens é um comportamento aprendido.
Em 2019, nasceu a Academia Ponto Verde, o programa educativo da SPV dirigido à comunidade escolar. Hoje, é o expoente máximo da relação de proximidade com os mais novos e transformou-se num dos programas educativos de referência no País que ajuda a formar milhares de crianças e jovens, permitindo que adquiram as ferramentas e competências necessárias para contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade, em particular no que toca à reciclagem de embalagens. Só no ano letivo 2025/2026 a Academia Ponto Verde estima chegar a mais 21 mil alunos dos 2.º e 3.º ciclos, através de formações realizadas em contexto de sala de aula, para que aprendam mais sobre este tema e esclareçam todas as suas dúvidas.
Além destas sessões formativas, a Academia Ponto Verde também vai ao encontro dos mais jovens levando a importância da reciclagem de embalagens às praias, durante o verão e, ao longo do ano, a festivais e outros eventos de cariz cultural ou desportivo, mostrando que esta boa prática é simples e pode ser feita em qualquer momento e em qualquer lugar. Ao longo destes 30 anos, contando com todas as atividades que já foram desenvolvidas junto dos mais novos, já são mais de 170.000 crianças e jovens a serem impactados pela SPV.
Ao longo destas três décadas, foram desenvolvidas inúmeras campanhas de comunicação e sensibilização e projetos educativos dirigidos a diferentes públicos, sempre com o objetivo de aproximar a reciclagem de embalagens do quotidiano dos cidadãos e reforçar a confiança no sistema.
Hoje, 7 em cada 10 portugueses já separam as suas embalagens, mas destes só 1 o faz de forma correta, o que mostra que ainda há caminho a percorrer e é necessário acelerar para que quem ainda não recicla passe a fazê-lo, e quem já o faz, o faça bem e de forma consistente.

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Comunicação mais próxima e participativa
Em 2025, a SPV reforçou a vertente de proximidade com os cidadãos através da marca Ponto Verde, assumindo uma comunicação mais próxima, participativa e orientada para a mudança efetiva de comportamentos. Mais do que uma marca, a Ponto Verde afirma-se como um movimento coletivo que procura mobilizar cidadãos e desenhar o futuro, trabalhando para que separar embalagens corretamente deixe de ser exceção e passe a ser regra.
Este posicionamento reflete a ambição da SPV de estar mais próxima dos cidadãos. Nesse sentido, no final de 2025, a Sociedade Ponto Verde avançou também com um processo de rebranding, modernizando a sua identidade visual e reforçando a proximidade com os cidadãos, num momento em que os desafios ambientais exigem uma comunicação cada vez mais clara, mobilizadora e participativa.
Além deste formato, a SPV tem vindo a explorar novas formas de comunicação através da gamificação e de experiências digitais mais interativas. A app Ponto Verde é um exemplo claro dessa estratégia: está disponível ao longo de todo o ano e combina conteúdos educativos, dicas ou artigos, com passatempos esporádicos.
Desde o lançamento, em 2023, já se registaram mais de 190 mil utilizadores únicos na aplicação da Ponto Verde, o que mostra o seu impacto e alcance, comprovando como a atuação de proximidade, através da tecnologia, é uma aliada poderosa da educação e literacia ambiental.
A gamificação tem sido também aplicada em iniciativas específicas, como ativações desenvolvidas em festivais e grandes eventos, permitindo sensibilizar públicos mais jovens através de experiências diferenciadoras.
Ao nível da proximidade, destaca-se, ainda, o prémio Junta-te ao Gervásio, um projeto que tem como objetivo distinguir projetos na área da reciclagem de embalagens e da economia circular em três categorias: Juntas de Freguesia, Entidades de Proximidade e Cidadania Social. O desafio principal passa por mobilizar cidadãos para a adoção de práticas mais circulares, através deste um prémio que funciona como um call to action, materializado numa dinâmica de concurso. Na prática, esta iniciativa tem procurado identificar e reconhecer projetos sustentáveis nas mais diversas comunidades, com o objetivo de poderem ser replicados a nível nacional.

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Os desafios do presente
Apesar da evolução registada nas últimas décadas, os desafios continuam a ser muitos. Em 2025, Portugal, apesar do investimento histórico no SIGRE, não atingiu a meta da reciclagem de embalagens (recolher 65% de todas as embalagens colocadas no mercado) e entrou em incumprimento. A aplicação dos novos valores de contrapartida (VC) pagos aos serviços municipais, multimunicipais e concessionários pelas entidades gestoras, como a SPV, geraram um reforço na capacidade de investimento no setor acima dos 90M€, em 2025, num total de 212M€ investidos nesse ano. Já em 2026, prevê-se mais 25M€, perfazendo, assim, um total de 237M€ de financiamento ao sistema em dois anos.
Ao mesmo tempo, persistem fragilidades estruturais associadas à recolha seletiva de embalagens, à qualidade dos materiais recolhidos e à capacidade das infraestruturas de gestão destes resíduos. A necessidade de acelerar o investimento em inovação, modernizar operações e melhorar o nível de serviço prestado aos cidadãos tornou-se particularmente evidente. Mas, mais do que aumentar o financiamento, é hoje fundamental garantir que os recursos financeiros são efetivamente aplicados na operação e canalizados de acordo com as reais necessidades do sistema.
Para a SPV, o futuro passa pela construção de um novo modelo, que assegure um sistema mais eficiente, tecnológico e orientado para resultados mensuráveis. Isso implica aumentar a conveniência da recolha seletiva, reforçar mecanismos de monitorização, criar novos incentivos e promover soluções inovadoras capazes de gerar impacto real ao longo de toda a cadeia de valor. Mas implica também continuar a investir em literacia ambiental e em mudança comportamental. Porque a economia circular não se constrói apenas com tecnologia. Constrói-se com colaboração, compromisso coletivo e participação ativa dos cidadãos.
Os próximos 30 anos
Ao olhar para o futuro, a SPV defende a importância de acelerar a transição para um modelo verdadeiramente circular, onde os resíduos de embalagens sejam cada vez mais encarados como recursos, pelo seu valor intrínseco, e onde a inovação desempenhe um papel central na transformação do sistema.
Os próximos anos serão marcados por novos desafios regulatórios: a meta de reciclar 65% de todas as embalagens colocadas no mercado continua em vigor até 2029 e, mantendo este ritmo, o País continuará em incumprimento e enfrentará um desafio ainda maior para conseguir alcançar as metas mais exigentes previstas para 2030 (reciclar 70% de todas as embalagens colocadas no mercado).
Será necessário continuar a investir em soluções tecnológicas, ecodesign, rastreabilidade, inteligência artificial e novos modelos de recolha seletiva, nomeadamente para os materiais mais críticos, como o vidro. Mas será igualmente essencial reforçar a colaboração entre empresas, municípios, academia, parceiros tecnológicos e cidadãos. Porque, por mais inovação que exista, só se conseguirá cumprir as metas ambientais com a participação ativa dos cidadãos e se cada embalagem for corretamente separada e depositada nos ecopontos.
Ao longo de três décadas – que não se medem apenas em anos, mas em impacto -, a SPV tem sido motor de evolução e inovação no setor da reciclagem de embalagens em Portugal, contribuindo para transformar um comportamento ainda emergente num hábito socialmente reconhecido. Hoje, o desafio é ainda mais ambicioso: acelerar esta transformação e ajudar a consolidar a circularidade como um modelo estrutural da economia e da sociedade. Essa transformação já começou e ganha forma todos os dias, num percurso que continua a evoluir e a abrir caminho para novos desafios e oportunidades.

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