Mobilidade

Transição energética: O circuito fechado entre economia, ecologia e mobilidade

Transição energética

Com a transição energética dos estados a acelerar, também o segmento empresarial dá passos concretos para contribuir para as metas e objetivos coletivos relacionados com a descarbonização. Com uma rede de carregamento cada vez mais robusta, fomos conhecer dois projetos de mobilidade que estão a mover-se a energia verde. As razões economicistas ainda são argumento, mas a sustentabilidade é a grande força motriz por trás dos investimentos.  

O tema da sustentabilidade tem múltiplas dimensões e uma das que mais vezes tem sido abordada em termos globais está relacionada com a transição energética a operar na mobilidade. Com grande parte do planeta a fazer uma mudança de combustíveis fósseis para veículos movidos a eletricidade, a rede de carregamentos era vista como um dos principais entraves à disseminação massiva deste tipo de solução. Porém, os investimentos têm vindo a somar-se e a rede portuguesa, por exemplo, já está entre as cinco mais fortes a nível europeu.

O número de carregamentos, segundo dados públicos partilhados pela plataforma Mobi.e também tem vindo a crescer de forma exponencial, sendo que se em 2019 se registavam apenas 293 680, em 2022, este número subiu para 2 435 971, comprovando um apetite de empresas e particulares por este tipo de solução de mobilidade. Mas há dados ainda mais animadores. Pela primeira vez em Portugal registaram-se mais de 300 mil (312.204) carregamentos num único mês (abril de 2023), uma subida de 64% relativamente a dados respetivos ao mesmo mês de 2022.

Em apenas quatro anos, o número de carregamentos na rede Mobi-e passou de 293 680 para 2 435 971

 Até dia 25 de maio, na rede pública, tinham sido registados mais de 1,3 milhões de carregamentos. Mantendo a procura equivalente a 2022, o número de carregamentos deverá crescer nos próximos meses, sendo que o número mais alto verificado no ano passado foi registado em dezembro, com 251 379 carregamentos.

Gerir o ciclo energético

Mas vamos ao que nos trouxe aqui. Neste artigo trazemos exemplos da Vygon e da Leroy Merlin, empresas que têm estado a fazer uma aposta vincada na eletrificação das suas operações e robustecimento da sua rede, sempre, claro, com foco também na gestão energética, tentando construir projetos circulares que fechem, sobre si mesmos, o ciclo energético.

No caso da Vygon Portugal, empresa de origem francesa que se dedica à produção de equipamentos médicos e farmacêuticos, o projeto, que contou com uma parceria com a Helexia Portugal, apostou na produção solar (carport solar) e na instalação de 10 carregadores para a sua frota. Ainda num processo de migração para veículos híbridos e elétricos, a empresa, em resposta às questões apresentadas pela revista Sustentável, lembra que é essencial assegurar, neste tipo de investimento, a ‘segurança’ dupla de ganho económico e impacto na redução da pegada ambiental.

Portugal é o quarto país europeu, segundo dados de 2022, com melhor rede de carregamento de veículos elétricos

Com um parque de carregamento de cariz privado, uma vez que os postos de carregamento da Vygon não integram a rede publica, “o projeto fotovoltaico, que ficou concluído no final do mês de março” tinha em atenção diversos fatores, sendo que o primordial foi a redução do impacto do “aumento dos custos energéticos.”

“Para esse investimento pensamos de forma imediata incorporar a instalação dos postos de carregamento, uma prioridade para nós tendo em conta a evolução do mercado automóvel – basta observar por exemplo as propostas de renting das empresas especializadas as quais reduziram enormemente as opções de viaturas a 100% combustão fóssil”, começa por explicar Nuno Barbosa, Diretor Geral da Vygon Portugal. “Neste momento, os três colaboradores que possuem viatura elétrica/híbrida já carregam as suas viaturas nos postos de carregamento da empresa, sendo, neste caso, uma adesão a 100%. Cada colaborador recebeu a sua ‘chave’ a qual contém um código único, por forma a conseguirmos quantificar o consumo energético associado a cada viatura”, acrescenta.

Um projeto semelhante tem sido construído pela Leroy Merlin em Portugal. Com forte necessidade de reduzir a sua pegada ambiental, a empresa que se dedica ao comércio de materiais para a casa e jardim, tem apostado de forma concreta na conversão do espaço exterior das suas lojas. Com instalações de painéis fotovoltaicos em diversos espaços comerciais, a marca disponibiliza também, aos clientes, a possibilidade de carregarem os seus veículos enquanto fazem compras.

A Leroy Merlin tem já sete lojas com autoconsumo e carregadores elétricos. O parque de lojas com este tipo de instalação continuará a crescer

No total, esta insígnia contabiliza já 11 lojas com produção solar, com uma potência instalada de 3.52 MWp, sendo que são já sete os espaços comerciais com postos de carregamento elétrico. Para mais, no projeto desenvolvido em parceria com a Helexia Portugal, a Leroy Merlin fez ainda investimentos para aumentar a sua eficiência energética, sendo que, no total, nove espaços comerciais da retalhista passaram também a contar com certificação BREEAM.

Apenas com o projeto de instalação de painéis fotovoltaicos, num total de 10540 painéis solares distribuídos pelas lojas, a marca conseguiu já produzir mais de 10 GWh de energia limpa, algo que teve um impacto concreto de redução de emissões de mais de 5000 toneladas de CO2.

Regressando à Vygon, Nuno Barbosa lembra também que para lá dos objetivos de redução de custos com a fatura energética, a empresa beneficiou ao investir neste projeto energético de uma “redução da pegada carbónica da empresa (que em alguns países é importantíssimo para a própria definição dos impostos a pagar)”, permitindo também uma melhoria da sua “imagem para os seus stakeholders”.

Em 2021, Portugal tinha uma média de 14,9 postos de carregamento por 100 quilómetros de estradas, segundo dados da ACEA (Associação Europeia de Construtores Automóveis)

Questionado sobre a importância de encerrar o ciclo de investimento em transformação energética e carregadores sobre si mesmo, ou seja, com a energia solar produzida a alimentar os carregadores, o gestor lembra que, numa fase inicial, os postos de carregamento estão ainda a ser alimentados pela rede. “Estamos a proceder ao carregamento com recurso a energia proveniente da rede, uma vez que pretendemos aferir, nesta fase inicial, qual o impacto da produção energética na nossa atividade”, começa por explicar Nuno Barbosa, afiançando que, “numa segunda fase, aí sim, avançaremos para o carregamento ‘verde’, no projeto”.

“Do nosso ponto de vista, é mesmo muito importante [este encerramento do ciclo]. Não só pelas questões economicistas ou possível maior rapidez na obtenção de um retorno do investimento, mas pela própria estratégia e visão do grupo, a qual assenta muito em projetos os quais privilegiam a sustentabilidade e a otimização da gestão dos recursos”, explica.

Energia limpa em ‘circuito fechado’

A Helexia Portugal tem vindo a desenvolver em Portugal diversos projetos. Do turismo ao retalho, a empresa colabora regularmente no que é o fortalecimento da rede em Portugal. Ouvidos pela Revista Sustentável relativamente a estes dois projetos, a empresa explica que tem registado “uma evolução muito positiva entre as empresas de que a transição para energia limpa para alem de ser necessária para enfrentar os desafios ambientais, também oferece oportunidades económicas.”

Neste sentido, reconhecendo a importância de conciliar estes investimentos com objetivos económicos para lá dos ambientais, João Guerra, Diretor de Marketing da Helexia Portugal, refere que “se existem benefícios financeiros e em paralelo o impacto no planeta é menor, não existem razões para não avançar. Isto é algo que na Helexia falamos constantemente, o binómio entre economia e ecologia, que se traduz na redução dos custos operacionais e da pegada ecológica, é um win-win”.

“Estes fatores, combinados com uma maior consciência das alterações climáticas, políticas de regulação favoráveis, importância de reputação de imagem de marca, têm sido determinantes para acelerar a transição energética das empresas”, assevera o gestor.

Também neste âmbito, Nuno Barbosa, responsável da Vygon em Portugal, lembra que apesar de ser “ainda precoce” fazer a avaliação do projeto, a empresa já conseguiu resultados relativamente às expetativas iniciais. “O nosso objetivo inicial (redução direta em 30% no consumo energético) será plenamente atingido. Os primeiros dados são promissores, mesmo tendo em conta um abril chuvoso ou nublado”, começa por referir, acrescentando: “Estamos bastante otimistas, mas também, permita-me, orgulhosos, uma vez que encabeçamos um projeto que agora se estendeu a mais filiais do grupo.”

Com o projeto desenvolvido, a Vygon tinha o objetivo de reduzir os custos de energia em 30%, algo que já alcançou

Neste sentido, João Guerra diz sentir esta transformação de ‘mentalidades’ no setor empresarial, com muitas empresas a apostarem em três eixos, fechando o investimento sobre ele mesmo. “As empresas estão a tomar consciência que o importante é descarbonizar a sua atividade e isso faz-se com a combinação de várias soluções: autoconsumo de energia limpa, eficiência energética e mobilidade sustentável”, revela.

Mas como se mede o impacto deste tipo de iniciativa? João Guerra é claro na sua abordagem: “É possível quantificar o retorno da poupança e essa vertente faz parte de todas as nossas propostas. Em muitos projetos, para alem de desenhar e implementar a componente técnica, também somos o investidor, o que significa partilha de risco com a empresa cliente, como tal a análise financeira do projeto é um aspeto que levamos muito a sério”, começa por exemplificar.

“Mais uma vez, é o binómio economia e ecologia a funcionar, tem de existir um benefício evidente em ambas as vertentes. Podemos afirmar com segurança que todos os projetos que desenvolvemos, os clientes sentem que a sua competitividade no mercado aumenta, os retornos são muito positivos. Combinar várias tecnologias e vertentes da transição energética, exponencia os retornos financeiros e ambientais”, lembra.

Os projetos Vygon e Helexia visto à lupa

“Do ponto de vista energético, desde 2018 que a Helexia tem trabalhado com a Leroy Merlin, estabelecendo de forma sustentada, a trajetória para ajudar a Leroy Merlin atingir os seus objetivos de diminuição de pegada carbónica. Definimos as principais linhas de orientação, e identificamos as opções custo eficazes para atingir o cenário ideal de desenvolvimento sustentável. Este trabalho conjunto tem permitido uma redução dos custos de energia e um menor impacto ambiental. No total são 11 lojas que já usufruem de autoconsumo solar. Neste contexto, recentemente temos trabalhado com a Leroy Merlin a dar resposta às necessidades de carregamento dos seus clientes, que já optaram por um veículo elétrico. A Leroy Merlin reconhece que a mobilidade elétrica é uma componente essencial na descarbonização e, dessa forma, as várias lojas com autoconsumo solar, vão disponibilizar postos de carregamento para veículos elétricos. Isto permite um mix energético muito interessante”.

“A Vygon é uma multinacional francesa, que está no mercado português há mais de 45 anos e dedica-se a produzir dispositivos médicos de alta tecnologia. A Vygon tem um forte compromisso com as melhores práticas ambientais e, em parceria com a Helexia, desenvolveu um projeto integrado: autoconsumo solar e carregamento elétrico para a sua frota. É a primeira vez que a frota da empresa pode carregar no seu próprio espaço e certamente que vai existir um impacto positivo na cultura da empresa. É natural que a eletrificação da frota acelere. Por ter sido incorporado no parque de estacionamento, um carport solar com vários carregadores elétricos, reforça a mensagem que é um projeto integrado e que a energia ou pelo menos parte dela é limpa e renovável. Este reforço é feito porque os painéis solares, são visíveis, o colaborador estaciona o carro para carregar, no sítio onde a energia renovável está a ser produzida. Não pode existir melhor cartão de visita”.

Esta rubrica tem o apoio de Helexia

 

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