Portugal entra numa “fase decisiva” na descarbonização industrial: o reforço do CELE, com preços de carbono mais elevados e menos licenças disponíveis, está a aumentar a pressão sobre setores com emissões inevitáveis de CO₂. Para as indústrias hard-to-abate, a captura e armazenamento de carbono (CCS) surge como peça-chave para atingir a neutralidade carbónica sem perder competitividade.
Neste contexto, o “Portugal’s Carbon Link – White Paper”, desenvolvido pela ATIC em colaboração com a BCG e outros parceiros da indústria e da academia, concluiu que operar sem CCS pode comprometer, a longo prazo, a competitividade e a viabilidade da indústria nacional.
O relatório sistematizou e aprofundou a investigação já existente e propôs uma abordagem estratégica para acelerar a descarbonização dos setores industriais mais difíceis de transformar, alinhada com os compromissos climáticos nacionais e europeus.
A solução proposta assenta numa infraestrutura nacional integrada para captura, transporte e armazenamento de CO₂, com cerca de 660 km de gasodutos em terra e 25 km no mar, ligando perto de 20 emissores industriais a um local de armazenamento geológico na bacia sedimentar lusitânica.
A capacidade de armazenamento prevista é de 300 milhões de toneladas de CO₂, com um potencial total estimado de cerca de 3 gigatoneladas na bacia lusitânica, suficiente para suportar a descarbonização industrial por várias décadas.
Já o investimento estimado para criar esta infraestrutura é de cerca de 2 mil milhões de euros entre 2027 e 2056. O custo projetado de transporte e armazenamento ronda os 25 euros por tonelada de CO₂ (infraestrutura), enquanto os emissores terão custos de captura entre 80 e 110 euros por tonelada de CO₂.
Embora a implementação de CCS possa aumentar os custos de produção do cimento em 60% a 80%, o impacto nos custos de construção é estimado como reduzido, entre 2% e 4%, o que sustenta a competitividade industrial e a viabilidade financeira do projeto.
Para viabilizar a infraestrutura, o relatório recomenda um modelo de Base de Ativos Regulatórios (BAR), com tarifas reguladas que garantem previsibilidade de receitas e repartem o risco entre o setor público e o privado. Defende ainda regras claras e mecanismos de financiamento público-privado para reduzir a incerteza e desbloquear o investimento.
Segundo a análise, além do impacto ambiental, uma solução nacional de CCS poderá gerar um efeito económico direto e indireto de 14 mil milhões de euros no PIB e criar até 7 mil empregos diretos até 2065. A infraestrutura proposta não se limita ao setor cimenteiro: pode servir outros emissores industriais e apoiar a transição de Portugal para uma economia de baixo carbono, reforçando a posição do país no contexto europeu.
“A indústria portuguesa, e em particular a cimenteira, precisa de assegurar uma solução viável de descarbonização até 2040 que garanta a sua competitividade num contexto regulatório cada vez mais exigente. As alavancas tradicionais continuarão a ser fundamentais, mas, dada a natureza do processo produtivo, a captura e armazenamento de carbono deverá integrar esse percurso”, afirmou Carlos Elavai, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa.
E continua: “sendo uma solução tecnicamente complexa, a CCS já está a ser desenvolvida em vários países europeus, criando um legado de aprendizagem que Portugal deve aproveitar. O passo seguinte passa por mobilizar os diferentes stakeholders e avançar para um projeto-piloto que permita testar o modelo, reduzir incertezas e criar confiança para uma decisão em escala”.
De acordo com o relatório, o plano de implementação está estruturado em três fases:
- Demonstrar viabilidade, aprofundando os estudos geológicos, validando a capacidade de armazenamento e as opções de transporte de CO₂;
• Acelerar o desenvolvimento, criando grupos de trabalho multissetoriais com emissores, Governo e reguladores, e atualizando o quadro legal para simplificar o licenciamento;
• Desenvolver a infraestrutura, definindo corredores de transporte, reaproveitando infraestruturas de gás existentes e avançando com projetos-piloto de captura e injeção.
O relatório apontou ainda os principais riscos e formas de os mitigar, incluindo a incerteza geológica, o risco financeiro, os desafios regulatórios e a aceitação social. Para este último, defende comunicação transparente e envolvimento das comunidades locais.

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