A Renova acaba de inaugurar uma nova central de biomassa, a partir da qual vai produzir uma parte muito relevante da sua energia térmica, reduzindo para cerca de metade o consumo de gás natural na fábrica. Um projeto que junta descarbonização, recuperação de energia e eficiência no uso de recursos.
A Renova inaugurou, na Zibreira, em Torres Novas, um projeto de descarbonização industrial que marca uma mudança estrutural na forma como a empresa produz energia térmica para o fabrico de papel tissue. Batizado como ‘Descarbonizar@Renova’, o investimento assenta numa nova central de biomassa e num conjunto de medidas de eficiência energética, recuperação de calor e monitorização ambiental, com impacto direto na redução do consumo de gás natural e da pegada carbónica da unidade.
O projeto tinha como objetivo inicial reduzir 43% das emissões de CO₂ da empresa, correspondentes a cerca de 54 mil toneladas por ano evitadas, mas acabou por ultrapassar essa meta. Segundo a apresentação feita pela empresa, a redução alcançada foi de 50,6% das emissões dos scopes 1 e 2 face aos níveis de 2020. O investimento ronda os 11 milhões de euros, com um apoio de cerca de 5,8 milhões de euros no âmbito do PRR.
Para Paulo Pereira da Silva, CEO da Renova, este é um passo relevante não apenas do ponto de vista energético, mas também na coerência da proposta ambiental da marca. O responsável afirmou que o projeto trouxe “poupança de energia, competitividade, a redução da pegada carbónica” e maior coerência aos produtos da empresa, num contexto em que a Renova tem vindo a apostar em fibras recicladas, embalagens de papel e redução do impacto ambiental da sua atividade.

Paulo Pereira da Silva, CEO da Renova
Biomassa substitui gás natural
A principal transformação está na produção de vapor, essencial ao processo de fabrico de papel. Até aqui, esse vapor era produzido sobretudo a partir de gás natural. Com a nova central de biomassa, a empresa passou a produzir uma parte muito relevante da sua energia térmica a partir de uma fonte renovável, reduzindo para cerca de metade o consumo de gás natural na fábrica.
A biomassa utilizada pela Renova é certificada, tem origem controlada e cumpre requisitos de proveniência, rastreabilidade e sustentabilidade. A empresa sublinha que a transição energética tem de ser industrialmente eficaz, mas também ambientalmente credível, razão pela qual a origem e a certificação da matéria-prima são apresentadas como elementos centrais do projeto.
Na visita à central, Ricardo Silva, diretor de Manutenção da Renova, explicou que a produção de papel exige vapor para secar a folha durante a sua formação. A nova infraestrutura recebe diariamente cerca de 90 toneladas de estilha, que alimentam a câmara de combustão da caldeira. Os gases resultantes da queima atingem cerca de mil graus e são utilizados para aquecer e vaporizar água, produzindo cerca de 18 toneladas de vapor por hora, a uma pressão aproximada de 20 bar, depois distribuído pelas máquinas de papel.
A central está ainda equipada com sistemas de recuperação de energia e tratamento de emissões. Depois de cumprirem a função de vaporizar a água, os fumos passam por um economizador, usado para aquecer água associada ao processo de secagem de lamas. Esta operação permite reduzir a humidade desses resíduos, otimizando o seu transporte e valorização. Antes de serem emitidos para a atmosfera, os fumos passam por ciclones e filtros de mangas, com monitorização sistemática das emissões gasosas.
O Descarbonizar@Renova inclui também outras medidas de utilização racional de energia. Entre elas está a nova hood elétrica da Máquina 6, apresentada como a primeira solução deste tipo na empresa. Até agora, o ar quente utilizado na secagem do papel dependia de gás natural. A nova solução abre caminho à eletrificação parcial desse processo, embora a empresa reconheça que ainda não dispõe de energia elétrica suficiente para operar esta solução 24 horas por dia.

Além da biomassa e da eletrificação parcial, o projeto integra medidas de recuperação de energia térmica das chaminés das máquinas de papel, que passa a ser reutilizada no aquecimento de água para o processo produtivo, para a destintagem de papel e para a secagem de lamas quando a caldeira de biomassa está parada. Foram ainda instalados equipamentos destinados a reduzir desperdícios na reciclagem.
A produção de papel tissue, apesar de resultar num produto quotidiano e aparentemente simples, exige um equilíbrio rigoroso entre qualidade, eficiência e sustentabilidade. A Renova identifica como principais desafios a gestão da fibra, a intensidade energética da secagem, a utilização eficiente da água e a redução contínua do desperdício.
A empresa tem vindo a trabalhar estas dimensões através da modernização das unidades industriais, da eficiência energética, da produção de energia renovável, da otimização do consumo de água e da incorporação de fibras recicladas. Entre os exemplos referidos estão as fibras têxteis recicladas utilizadas na gama Renova TextilPapier e fibras alternativas, como o cânhamo.
Em paralelo, a Renova tem acelerado a digitalização e a utilização de inteligência artificial para otimizar processos, reforçar o controlo de qualidade e aumentar a eficiência operacional. A empresa enquadra estas apostas numa lógica de melhoria contínua, em que a descarbonização industrial não se faz com uma única tecnologia, mas através de uma sequência de decisões sobre energia, recursos, materiais, processos e produtos.
O projeto integra um ciclo de investimento de cerca de 152 milhões de euros realizado pela Renova em Torres Novas e na região nos últimos anos, abrangendo modernização industrial, capacidade produtiva, eficiência energética, digitalização, logística, qualidade ambiental e inovação. Para a empresa, o projeto de descarbonização não é um ponto de chegada, mas mais uma etapa num percurso de redução do impacto ambiental e modernização da base industrial.

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