A transição energética está a perder ritmo e o mundo caminha para uma trajetória de aquecimento de 2,6ºC, concluiu o relatório “Energy Transition Outlook 2025-26”, da Wood Mackenzie.
A consultora sublinhou que, uma década após o Acordo de Paris, nenhum grande país do G7 parece estar no caminho para cumprir metas de redução de emissões em 2030 e que é “amplamente reconhecido” que o objetivo de emissões líquidas zero em 2050 não será atingido.
No cenário-base, as emissões globais atingem o pico em 2028 e a descida posterior abranda para cerca de 2% ao ano. A Wood Mackenzie admitiu que limitar o aquecimento a 2ºC “continua plausível” se o mundo alcançar o net zero por volta de 2060, mas isso exigiria um aumento de 30% no investimento anual, para uma média de 4,3 biliões de dólares entre hoje e 2060.
O relatório trabalhou quatro trajetórias até 2060: “delayed transition” (3,1ºC), “base case” (2,6ºC), “country pledges” (2ºC) e “net zero” (1,5ºC). Entre os indicadores comparados, surgem diferenças relevantes no investimento acumulado (de 130 a 175 biliões de dólares), na penetração de veículos elétricos (49% a 93% do parque) e no mix elétrico (82% a 96% de renováveis), com preços de carbono que vão de 103 a 166 dólares por tonelada.
A consultora sublinhou ainda que a transição “não é apenas adicionar megawatts”: implica modernização e reforço de redes, armazenamento e infraestruturas que garantam estabilidade e fiabilidade, com efeitos potenciais na fatura final mesmo quando a produção renovável é, por si só, mais barata
“O impulso global para enfrentar as alterações climáticas abrandou. As metas anunciadas de redução de emissões até 2035 mostram falta de ambição, sugerindo que demasiados governos estão a ‘adiar o problema’”, sublinhou Simon Flowers, Chief Analyst na Wood Mackenzie.
E continua: “Porque há tão pouco progresso? Desafios geopolíticos e económicos —da pandemia de Covid-19 à guerra na Ucrânia e no Médio Oriente e a tarifas comerciais imprevisíveis — surgiram como barreiras. Ao mesmo tempo, o crescimento da população, o crescimento económico e as aspirações sociais, sobretudo nos países em desenvolvimento, estão a aumentar a procura de energia, ultrapassando as melhorias na eficiência energética”.
O responsável enfatizou ainda que em muitos países desenvolvidos, os governos estão a dar prioridade a garantir energia a preços acessíveis em detrimento de atingir os objetivos de sustentabilidade energética.
“É claro que não podemos trocar rapidamente o atual sistema energético baseado em combustíveis fósseis por um novo sistema de baixo carbono. Embora a quota das renováveis no fornecimento global de eletricidade tenha aumentado de 5% para 20% na última década, isso mal chegou para acompanhar o crescimento incremental da procura. Aumentar a oferta de baixo carbono mais rapidamente do que a procura e construir um novo sistema energético profundamente descarbonizado e resiliente está a revelar-se mais difícil do que se previa”, concluiu Simon Flowers.
No setor elétrico, a Wood Mackenzie projetou que a energia solar global “duplicará” até 2030, ultrapassando o gás em 2033 e o carvão em 2034. Apesar do avanço das renováveis, os combustíveis fósseis vão manter-se relevantes por mais tempo do que o previsto em cenários mais otimistas.
A procura por petróleo e derivados deverá atingir um pico de 108 milhões de barris por dia em 2032, enquanto o gás natural se manterá resiliente até 2040.
A Wood Mackenzie identificou também os minerais críticos como um novo “campo de batalha” estratégico: tecnologias como baterias, turbinas eólicas e painéis solares dependem de matérias-primas cuja procura cresce mais depressa do que a capacidade de oferta e processamento, com cadeias de abastecimento concentradas e vulneráveis.
No capítulo das tecnologias emergentes, o relatório aponta o CCUS (captura, utilização e armazenamento de carbono) e o hidrogénio como peças importantes para indústria pesada e transportes de longa distância, mas condicionadas por barreiras de escala, custo e capital.
A consultora defendeu que estas soluções não “lideram” a transição, mas podem ser decisivas para fechar a última fase da descarbonização e, em trajetórias net zero, representar 20% a 30% das reduções totais de emissões.

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