Biodiversidade

“A biodiversidade é o nosso amortecedor natural”

“A biodiversidade é o nosso amortecedor natural” iStock

O declínio da biodiversidade está a intensificar-se a nível global e Portugal acompanha esta tendência, num contexto marcado pela pressão crescente das atividades humanas, pelas alterações climáticas e pela transformação dos usos do solo.

A degradação de habitats, a intensificação agrícola e a urbanização estão entre os principais fatores identificados, com impactos diretos nos ecossistemas e nas espécies.

No território nacional, esta evolução traduz-se numa pressão significativa sobre vários ecossistemas, nomeadamente zonas costeiras e marinhas, sistemas agrícolas, florestas e recursos hídricos. A perda de habitats fundamentais, aliada à fragmentação do território e à escassez de água, está a comprometer a resiliência ambiental e a estabilidade de funções essenciais, como a regulação climática e a proteção costeira.

Para o tecido empresarial, este contexto traz desafios diretos. Os atuais modelos de produção e consumo são apontados como parte relevante do problema, mas também como parte da solução, exigindo uma reavaliação de práticas, uma maior integração de critérios ambientais e colaboração entre setores para travar a perda de biodiversidade.

Em entrevista à REVISTA SUSTENTÁVEL, Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, explica que o declínio da biodiversidade resulta sobretudo “da perda e degradação de habitats, associadas ao atual modelo de produção alimentar, da sobreexploração de recursos naturais, da disseminação de espécies invasoras, da poluição e dos impactos crescentes das alterações climáticas”.

Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal

Segundo a responsável, em conjunto, estes fatores têm acelerado a erosão da vida selvagem, refletida numa queda de 73% no tamanho médio das populações de vertebrados monitorizadas a nível mundial nos últimos 50 anos, de acordo com o Relatório Planeta Vivo 2024 da WWF.

Catarina Grilo sublinha ainda que “Portugal reflete de forma muito clara esta realidade global”, sendo atualmente “o segundo da Europa com maior número de espécies de animais e plantas ameaçadas, ultrapassando as 800 espécies em risco”.

E continua: “nas últimas décadas, a perda de ecossistemas críticos tem sido significativa: por exemplo, desapareceram em Portugal cerca de 33% dos sapais e 10% das pradarias marinhas, dois habitats fundamentais para o armazenamento de carbono e para a estabilidade das zonas costeiras. A combinação entre pressões locais, como incêndios recorrentes, seca prolongada e fragmentação do território, e tendências globais agrava a vulnerabilidade dos ecossistemas portugueses”.

Também para Ana Teresa Pereira, técnica de projetos de conservação de aves estepárias, e Tereza Fonseca, técnica coordenadora do Programa Zonas Costeiras e Oceano, porta-vozes da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), em entrevista REVISTA SUSTENTÁVEL, este declínio é explicado pela “intensificação das atividades humanas nas últimas décadas”, nomeadamente, salientam as técnicas, através da “destruição e fragmentação de habitats, da intensificação agrícola e florestal, da urbanização desordenada, dos atuais padrões de consumo, da poluição e da introdução de espécies exóticas invasoras”.

Tereza Fonseca, técnica coordenadora do Programa Zonas Costeiras e Oceano

Ana Teresa Pereira, técnica de projetos de conservação de aves estepárias

E continuam: “estas diferentes pressões, algumas delas interligadas, interagem, acelerando o ritmo de perda de biodiversidade. Os efeitos negativos da atividade humana são ainda amplificados pelas alterações climáticas, que estão a modificar, cada vez de forma mais destrutiva, os ciclos naturais que regulam os nossos ecossistemas. As crises climáticas e da biodiversidade estão intrinsecamente ligadas”.

As responsáveis da LPN acrescentam igualmente que Portugal acompanha a tendência global de declínio da biodiversidade e que, apesar da diversidade de ecossistemas e espécies, muitos dos habitats naturais do país sofreram alterações profundas.

Além disso, referem ainda que a intensificação do uso do solo, o abandono rural, a simplificação das paisagens agrícolas e florestais e a pressão sobre as zonas costeiras têm contribuído para a degradação dos habitats e para o declínio de várias espécies, em ecossistemas terrestres e marinhos.

As crises climáticas e da biodiversidade estão intrinsecamente ligadas.

“O problema é agravado pela falta de coerência entre políticas de diferentes setores e pela fraca implementação da legislação ambiental, seja por insuficiente fiscalização, escassos recursos para a monitorização ou fraca aplicação de sanções”, enfatizam.

As porta-vozes da LPN deram como exemplo o caso das aves estepárias, como a abetarda e o sisão, cujas populações têm registado reduções significativas nas últimas décadas devido à transformação dos habitats agrícolas, sobretudo por efeito da intensificação da agricultura.

Principais ameaças à biodiversidade em Portugal e ecossistemas mais pressionados

Para Catarina Grilo, as principais ameaças à biodiversidade em Portugal “resultam da interação entre alterações climáticas, alterações do uso do solo, práticas de produção intensiva e ausência de gestão ativa em vastas áreas do território”.

A responsável acrescenta ainda que os incêndios florestais são também um fator de ameaça à biodiversidade em território nacional, uma vez que destroem habitats inteiros e aceleram processos de desertificação, tal como a disseminação de espécies invasoras, que comprometem “o equilíbrio ecológico e dificultam a recuperação de ecossistemas nativos”.

No que toca aos ecossistemas que atualmente se encontram mais pressionados, a diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal enfatiza que são os costeiros, “em resultado principalmente da ocupação humana preferencial destas zonas”; os agrícolas, “em resultado da intensificação desta atividade combinada com o abandono e com a expansão periurbana”; e os bosques e matos, “em resultado dos incêndios que assolam o país no verão”.

No entanto, destaca também os ecossistemas de água doce, nomeadamente rios, ribeiras, riachos ou lagoas, “que também precisam de água e estão pressionados pelas secas mais prolongadas, pela poluição e pela presença de milhares de barreiras fluviais que alteram profundamente a dinâmica natural dos rios”.

“A nível político, o pacote ‘Omnibus’ de desregulamentação da Comissão Europeia ameaça desmantelar leis fundamentais da água e da proteção da natureza sob o pretexto da ‘simplificação’”, frisa Catarina Grilo.

A nível político, o pacote ‘Omnibus’ de desregulamentação da Comissão Europeia ameaça desmantelar leis fundamentais da água e da proteção da natureza sob o pretexto da ‘simplificação’.

Também para as técnicas da LPN, os ecossistemas sob maior pressão em Portugal “são aqueles associados às zonas costeiras e marinhas, às zonas húmidas, aos sistemas agrícolas tradicionais e às florestas nativas e matos mediterrânicos”.

Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca referem ainda que, no Alentejo, a intensificação da agricultura, associada a grandes projetos de regadio, nomeadamente ligados à barragem de Alqueva, levou à expansão de olivais e amendoais intensivos em áreas antes ocupadas por agricultura extensiva, pastoreio ou matagais.

As porta-vozes da Liga para a Proteção da Natureza alertam também para o avanço de projetos de energia renovável sem a necessária avaliação ambiental estratégica, considerando que isso tem agravado a perda e a fragmentação de habitats. Além disso, frisam que a este quadro se junta o impacto das alterações climáticas, com períodos de seca mais longos e temperaturas mais elevadas a condicionarem a reprodução das aves estepárias no sul do país.

Segundo as responsáveis, a pressão estende-se ainda aos sistemas agrícolas tradicionais, como os montados de sobro e azinho, vulneráveis à seca, à desertificação e a alterações no uso do solo. No plano florestal, a substituição de florestas nativas por monoculturas de eucalipto e a falta de gestão têm contribuído para a perda de biodiversidade, a degradação do solo, o maior consumo de água e o aumento do risco de incêndio.

Nas palavras de ambas, as zonas húmidas e os rios são afetados pela poluição, por barragens e por espécies invasoras, com impactos sobre espécies endémicas e sobre a fauna piscícola de água doce. Já os habitats costeiros e marinhos estão entre os mais afetados pela pressão humana crescente, devido à sobrepesca, poluição, urbanização costeira e turismo. Entre as áreas mais vulneráveis, as responsáveis destacam a Ria Formosa e o Estuário do Sado, sublinhando o seu papel fundamental na proteção da costa.

Espécies ameaçadas em Portugal: A dimensão do problema e os principais indicadores

Catarina Grilo é clara e garante que “a realidade portuguesa é particularmente preocupante”, explicando que “a dimensão desta crise torna-se clara quando analisamos os principais indicadores utilizados a nível internacional”.

A realidade portuguesa é particularmente preocupante.

Falando em espécies ameaçadas, a diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal refere desde espécies emblemáticas, como o lince-ibérico e o lobo-ibérico, até outras menos visíveis, mas “vitais” para o equilíbrio dos ecossistemas, presentes em zonas de elevada importância ecológica, como o Estuário do Tejo.

A responsável destaca igualmente três indicadores centrais para avaliar a dimensão da crise da biodiversidade. São eles o Índice Planeta Vivo, que mede a evolução da abundância das populações monitorizadas de vertebrados, cujo resultado mais recente aponta para uma queda média global de 73% nas últimas cinco décadas.

Já o Índice da Lista Vermelha da IUCN avalia a evolução do risco de extinção das espécies, tendo em conta fatores como o tamanho da população, a taxa de declínio e a distribuição geográfica. Este indicador permite perceber quantas espécies em Portugal passam para categorias de risco mais ou menos graves.

Outro elemento determinante é o estado de conservação dos habitats. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, a maioria dos habitats protegidos está em condição desfavorável, sendo a agricultura uma das principais causas dessa degradação. Isto significa que, mesmo quando uma espécie ainda não está formalmente classificada como ameaçada, o habitat onde vive pode já não garantir a sua sobrevivência a médio prazo. Em conjunto, estes três sistemas de monitorização dão uma visão mais completa da urgência da situação.

São também as porta-vozes da LPN que destacam que, em Portugal, existem mais de 500 espécies classificadas como ameaçadas, tanto terrestres como marinhas, frisando que “muitas delas dependem de ecossistemas específicos que estão sob pressão”.

“Falamos de espécies carismáticas, como o lince-ibérico, a águia-imperial-ibérica, o abutre-preto ou o saramugo (um dos peixes de água doce mais ameaçados da Península Ibérica), mas também de habitats menos conhecidos e sob forte pressão, como as lagoas temporárias, que suportam um largo número de espécies de plantas e animais raras e únicas, algumas delas ameaçadas a nível europeu e global”, explicam as responsáveis.

Relativamente às ferramentas para medir a dimensão do problema, as responsáveis enfatizam vários indicadores, como o número e a proporção de espécies ameaçadas, a evolução das populações e das suas áreas de distribuição, bem como o estado de conservação dos habitats.

Destacam ainda os Livros Vermelhos como uma ferramenta relevante de apoio à decisão, uma vez que reúnem informação sobre o risco de extinção das espécies em território nacional com base nos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Referem também a monitorização da biodiversidade enquadrada por vários instrumentos legais e políticos, que obrigam à avaliação, recolha de dados e reporte sobre o estado das espécies e dos habitats. Entre eles, apontam a Diretiva Habitats, a Diretiva Aves, a Diretiva-Quadro da Água, a Diretiva-Quadro Estratégia Marinha e a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade.

Impacto das alterações climáticas na biodiversidade em Portugal
A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal explica que as alterações climáticas estão a “acelerar a perda de biodiversidade ao criarem condições ambientais extremas que ultrapassam a capacidade de adaptação de muitas espécies e habitats”.

Segundo a responsável, “vivemos um ‘Novo Normal Climático’, onde fenómenos extremos como as tempestades que assolaram o país no início de 2026 serão o padrão e não a exceção”. Para Catarina Grilo, “a biodiversidade é o nosso amortecedor natural; sem ela, os avultados danos económicos de cheias e secas em Portugal e na Europa continuarão a repetir-se”.

Vivemos um ‘Novo Normal Climático’, onde fenómenos extremos como as tempestades que assolaram o país no início de 2026 serão o padrão e não a exceção.

A porta-voz da WWF Portugal refere que o país enfrenta atualmente “um padrão recorrente de fenómenos meteorológicos intensos que veio para ficar: fogos maiores, tempestades mais severas, cheias mais intensas e deslizamentos de terras alternam com períodos de seca profunda e escassez hídrica”.

E continua: “esta oscilação extrema enfraquece a resiliência dos ecossistemas e da economia e potencia a propagação de pragas e doenças, afetando tanto a biodiversidade como a produção agrícola e a silvicultura”.

Já as responsáveis da Liga para a Proteção da Natureza referem que os sinais mais visíveis do impacto das alterações climáticas acontecem nos ecossistemas terrestres, com a desertificação de solos agrícolas e o aumento da frequência e intensidade de incêndios florestais, “mas vão muito além disso”.

“Nos rios e ecossistemas de água doce, as alterações nos regimes de precipitação, as ondas de calor e as secas prolongadas estão a levar à redução da disponibilidade de água e ao aumento da temperatura da água, impactando espécies aquáticas. Um dos sinais mais evidentes acaba por ser a morte de peixes de água doce, espécies mais sensíveis”, frisam.

No que toca às zonas costeiras, as porta-vozes explicam que a elevação do nível do mar está a levar à erosão de praias e dunas, com a perda de habitats de nidificação de aves e outras espécies, conduzindo à salinização dos solos e das águas interiores, com alterações na composição da vegetação.

Relativamente aos ecossistemas marinhos, ambas adiantam que a acidificação do oceano dificulta a formação de conchas e esqueletos em espécies como moluscos, crustáceos e corais, enquanto o aumento da temperatura da água afeta a reprodução, alimentação, distribuição e migração das espécies.

“As alterações nas correntes e na produtividade primária interferem na cadeia alimentar marinha, com mudanças na distribuição de espécies comerciais e bentónicas e na abundância de plâncton, base da cadeia alimentar marinha”, sublinham.

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