A maioria dos portugueses reconhece a realidade das alterações climáticas e a sua origem na ação humana, mas a prevalência de níveis médios de ansiedade climática entre adultos em Portugal é relativamente baixa.
A conclusão consta de um estudo da Universidade de Aveiro, que procurou perceber de que forma a perceção das alterações climáticas afeta a saúde mental e influencia a adoção de comportamentos pró-ambientais.
O trabalho contou com a participação de 3300 pessoas e avaliou a ansiedade climática através de uma escala validada, que mede a frequência de sintomas como perturbações cognitivas, incluindo dificuldades de concentração ou de sono, e dificuldades funcionais associadas às preocupações com o clima.
Para a investigadora Mariana Pinho, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar e do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, “a ansiedade climática é uma preocupação crónica com os impactos das alterações climáticas, com o futuro do planeta, de si próprio e das gerações futuras”.
A responsável refere ainda que, “no geral, a prevalência desse tipo de ansiedade entre adultos em Portugal é relativamente baixa, havendo evidência noutros estudos de diferenças entre faixas etárias, género, entre outros fatores”.
A investigadora sublinha, contudo, que estes resultados devem ser lidos com cautela. Segundo Mariana Pinho, “isso não significa que os portugueses não acreditem ou não se preocupem com as alterações climáticas, mas que no geral estas não têm um impacto ao nível do funcionamento cognitivo — como perda de sono ou dificuldades de concentração — nem interferem significativamente com a rotina diária”.
O estudo conclui que a baixa ansiedade climática não corresponde a desinteresse ou falta de consciência ambiental. De acordo com a investigadora, a maioria das pessoas reconhece a realidade das alterações climáticas, as suas origens antropogénicas e os seus impactos, mantendo também uma forte ligação psicológica à natureza, ainda que isso não se traduza necessariamente em ansiedade clínica ou psicológica intensa.
Os resultados mostram também que idade, escolaridade e rendimento estão negativamente associados à ansiedade climática. Ou seja, pessoas mais velhas, com maior nível de educação e com rendimentos mais elevados tendem a apresentar níveis mais baixos desta forma de ansiedade. Em contrapartida, experiências mais diretas com os impactos das alterações climáticas estão associadas a níveis mais elevados.
O estudo identifica ainda uma relação entre maior preocupação climática e maior adoção de comportamentos pró-ambientais. Mariana Pinho afirma que “de forma geral, níveis mais elevados de preocupação/ansiedade climática tendem a estar associados com a maior adoção de comportamentos pró-ambientais”.
Acrescenta que a forma como as pessoas percebem as alterações climáticas pode influenciar os seus comportamentos de conservação ambiental, com a ansiedade climática a funcionar como um dos mecanismos de ligação entre essa perceção e as atitudes e ações pró-ambientais.
A investigadora alerta ainda para a necessidade de não desvalorizar os impactos das alterações climáticas na saúde.
“As alterações climáticas estão a afetar não só o ambiente, mas também a nossa saúde física e mental. A ansiedade e o stress associados a estes fenómenos são reais e não devem ser ignorados. Quem sente que esta preocupação está a afetar significativamente o seu bem-estar deve procurar ajuda”, afirma.
De acordo com o estudo, compreender o papel das características sociodemográficas e sociopsicológicas na ansiedade climática é relevante para o desenvolvimento de políticas e programas ambientais mais inclusivos, capazes de promover mudança social e responder às desigualdades existentes.

iStock
