A transição para modelos económicos mais sustentáveis passa pela forma como o território e os recursos naturais são geridos. Em Portugal, a agricultura e a floresta estão no centro deste desafio, sendo simultaneamente fontes de pressão sobre os ecossistemas e setores-chave para a sua recuperação.
A adoção de práticas mais regenerativas, a diversificação das paisagens e uma gestão florestal mais ativa surgem como caminhos vitais para reduzir impactos, aumentar a resiliência e garantir viabilidade económica no longo prazo.
No entanto, estas transformações não podem acontecer de forma isolada. A conservação da biodiversidade exige uma ação coordenada entre empresas, Governo, organizações e sociedade civil, combinando conhecimento científico, capacidade de implementação e financiamento.
Iniciativas já em curso mostram que esta colaboração é possível, mas também evidenciam a necessidade de maior escala e ambição. Ao mesmo tempo, cresce o consenso de que, embora seja difícil reverter totalmente a degradação, ainda é possível atenuá-la, desde que se reforcem políticas públicas, se invista no restauro ecológico e se integrem de forma efetiva os limites ambientais nas decisões económicas.
É neste enquadramento que se inserem as perspetivas de Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, e de Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca, respetivamente técnica de projetos de conservação de aves estepárias e técnica coordenadora do Programa Zonas Costeiras e Oceano da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), cujas análises ajudam a identificar prioridades, desafios e oportunidades para travar a perda de biodiversidade em Portugal.

Catarina Grilo
Agricultura e floresta: Que mudanças são necessárias?
Segundo Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca, ao nível da agricultura, é prioritário favorecer a criação de mosaicos agrícolas diversificados, mesmo em explorações intensivas, através da criação de pontos verdes que promovam a biodiversidade e da introdução de elementos da paisagem como sebes, pousios e margens.
Explicam também que estes elementos são fundamentais para espécies como a abetarda ou o sisão, que dependem de paisagens agrícolas abertas e heterogéneas.
No caso das explorações florestais, defendem que deve ser promovida a diversidade dentro das áreas de produção, com recurso a espécies autóctones e à criação de bolsas ou corredores ecológicos, sublinhando ainda que é determinante melhorar a gestão florestal, valorizando a resiliência dos ecossistemas e mitigando o risco de incêndio.
As responsáveis apontam ainda que a “renaturalização” dos ecossistemas agrícolas passa também pela redução do uso de pesticidas e fertilizantes e pela aposta em dinâmicas naturais para o combate de pragas e aumento da qualidade e saúde do solo.
Ambas frisam que “estas medidas não são apenas promotoras de biodiversidade – elas contribuem para a resiliência económica e ecológica das paisagens, acabando por trabalhar na prevenção dos efeitos negativos das alterações climáticas”.

Tereza Fonseca

Ana Teresa Pereira
Catarina Grilo partilha de uma opinião semelhante defendendo que a agricultura deve acelerar a transição para práticas regenerativas e agroecológicas que restaurem a fertilidade dos solos, reduzam a dependência de fertilizantes e pesticidas e utilizem a água de forma mais eficiente, sublinhando que estas práticas não só reduzem o impacto ambiental como aumentam a resiliência das explorações e podem gerar retornos financeiros significativos.
Já no setor florestal, considera que a gestão ativa é “indispensável”, defendendo que apenas paisagens em mosaico, compostas por diferentes tipos de uso do solo, tanto para produção como para conservação, conseguem reduzir o risco de incêndios e, simultaneamente, melhorar a biodiversidade e o dinamismo económico do território.
Para a diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, “tudo isto tem de ser suportado por políticas públicas”. E continua: “por isso defendemos que o Orçamento do Estado 2026 deveria ter priorizado a ação na conservação e restauro da natureza nas várias vertentes de ação nacional, o que infelizmente não aconteceu”.
O Orçamento do Estado 2026 deveria ter priorizado a ação na conservação e restauro da natureza nas várias vertentes de ação nacional, o que infelizmente não aconteceu.
Colaboração entre empresas, Estado e conservação: Os modelos que estão a funcionar
As especialistas da LPN apontam como exemplo o projeto LIFE SOS Pygargus, um projeto transfronteiriço que reúne conservacionistas, cientistas, agricultores e entidades públicas e privadas com o objetivo de salvar o tartaranhão-caçador da extinção em Portugal e na parte ocidental de Espanha.
Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca referem ainda que uma das medidas em curso passa por adaptar as práticas agrícolas ao ciclo reprodutivo da espécie, promovendo o uso de variedades de cereais e forragens tradicionais, mais compatíveis com as suas necessidades ecológicas e melhor adaptadas à seca.
Acrescentam também que a ANPOC — Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais —, parceira do projeto, está a impulsionar a criação de uma organização de produtores de cereais no Norte do país, considerando que esta entidade será fundamental para alavancar o setor, promover a segurança alimentar, aumentar a oferta nacional desta matéria-prima essencial e proteger a biodiversidade das paisagens agrícolas, em benefício de todos.
Além disso, referem ainda que existem empresas que financiam projetos de conservação da natureza como forma de procurar diminuir o impacto da sua atividade, defendendo que estas devem ser chamadas a assumir essa responsabilidade, sobretudo as de grande dimensão.
As responsáveis apontam o Protocolo Avifauna — um compromisso entre a E-REDES, o ICNF, a SPEA, a Quercus e a LPN para a promoção de soluções de proteção da avifauna na distribuição de eletricidade — como um exemplo relevante.
As porta-vozes da Liga para a Proteção da Natureza rematam ainda que “a conservação da biodiversidade exige uma abordagem colaborativa, incluindo também a sociedade civil”, acrescentando que “parcerias entre empresas, administração pública e organizações de conservação podem ser eficazes quando combinam conhecimento científico, capacidade de implementação e recursos financeiros”.
A conservação da biodiversidade exige uma abordagem colaborativa, incluindo também a sociedade civil.
No mesmo sentido, Catarina Grilo defende que “a conservação e restauro da natureza exige uma ação coletiva e ambiciosa”.
A responsável aponta como principal exemplo a iniciativa Re-Store Portugal, lançada em outubro de 2025 para acelerar o restauro da natureza no país, utilizando a própria natureza como ferramenta.
Para a porta-voz da WWF Portugal, através desta iniciativa, têm sido mobilizados, com sucesso, o setor corporativo, o Estado e as comunidades locais em torno de projetos concretos no terreno. Acrescenta ainda que a nova Lei Europeia do Restauro da Natureza exige que todos os países da União Europeia (UE) apresentem um Plano Nacional de Restauro até 2026, sublinhando que Portugal tem agora a oportunidade de liderar este esforço, com metas claras para recuperar ecossistemas terrestres, marinhos, urbanos, agrícolas e fluviais até 2050, considerando que modelos partilhados como este serão “determinantes” para o sucesso desse plano.
Podemos ainda travar a perda de biodiversidade em Portugal?
“Sim, ainda vamos a tempo, mas a janela de ação exige uma coragem política sem precedentes”, sublinha Catarina Grilo.
Segundo a responsável, “para invertermos a tendência de degradação em Portugal, a medida mais urgente passa por travar o retrocesso legislativo que o pacote “Omnibus” da Comissão Europeia representa, garantindo que o Governo português defende a integridade das nossas leis da água e da natureza contra qualquer tentativa de desregulamentação”.
Além disso, acrescenta também que é “imperativo” que o Governo assuma o restauro ecológico como uma prioridade estratégica nacional, assegurando o financiamento necessário para cumprir a meta europeia de restaurar 20% das áreas degradadas terrestres e marinhas até 2030.
A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal defende ainda que a economia deve tornar-se “livre de destruição ambiental”, o que exige que o Estado e as empresas implementem o Regulamento de Desflorestação da UE (EUDR) de “forma rigorosa e sem atrasos”, melhorando as cadeias de valor e respondendo à legítima preocupação dos cidadãos com a proteção do futuro comum.
Para invertermos a tendência de degradação em Portugal, a medida mais urgente passa por travar o retrocesso legislativo que o pacote “Omnibus” da Comissão Europeia representa, garantindo que o Governo português defende a integridade das nossas leis da água e da natureza contra qualquer tentativa de desregulamentação.
As especialistas da LPN defendem que “a reversão é complexa e pouco provável”, mas acreditam que “é possível atenuar significativamente a degradação da biodiversidade e dos habitats em Portugal”.
No entanto, defendem que, para isso, “é necessário implementar (e respeitar) a legislação e as políticas ambientais que já existem”. Na ótica de ambas, “Portugal dispõe já de instrumentos importantes, como a Rede Natura 2000, mas é essencial reforçar a sua gestão, financiamento e monitorização”.
Além disso, consideram ser também necessário “garantir apoios à adoção de práticas que promovam a biodiversidade, por via das políticas públicas, de que é bom exemplo a Política Agrícola Comum e a Política Comum das Pescas”. De acordo com as porta-vozes da LPN, “este trabalho passa muito pelo poder central, pelo poder local e pelas entidades da administração pública, cuja capacidade se precisa ver reforçada”.
É neste sentido que defendem ser prioridade apostar no restauro ecológico de rios, zonas húmidas, habitats agrícolas e sistemas florestais, aumentando a resiliência do meio às alterações climáticas. A par disso, referem que Portugal está atualmente a desenvolver o seu projeto de Plano Nacional de Restauro da Natureza, que consideram ser “a derradeira oportunidade para alavancar este trabalho”.
Portugal dispõe já de instrumentos importantes, como a Rede Natura 2000, mas é essencial reforçar a sua gestão, financiamento e monitorização.
Ana Teresa Pereira e Tereza Fonseca assinalam ainda que a referência a este plano no Portugal – Transformação, Recuperação e Resiliência é um “sinal positivo” na redefinição de prioridades estratégicas e políticas, sublinhando, contudo, a necessidade de garantir o envolvimento efetivo e a participação das várias partes interessadas, desde o setor público ao privado, com destaque para proprietários e empresas.
“O crescimento económico contínuo não é sustentável num planeta com recursos finitos. O progresso nem sempre é sinónimo de crescimento – por vezes é preciso reduzir – o consumo e, assim, a produção – procurando o equilíbrio ecológico e social”, rematam.
As especialistas frisam ainda que “a ‘plataforma’ comum a todas estas partes interessadas é a sociedade civil, que todos integramos” e que, por isso, “é fundamental apostar na educação ambiental, sensibilizando para a importância da biodiversidade e para o quanto estamos dependentes dela no nosso dia-a-dia”.

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