As tempestades que atingiram Portugal entre janeiro e fevereiro de 2026 poderiam ter causado danos significativamente menores se tivessem sido implementadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), como a recuperação de zonas húmidas e planícies de inundação.
No entanto, os prejuízos estimados, que podem variar entre 5.000 e 6.000 milhões de euros, refletem a falta dessas intervenções preventivas. Este valor é 200 a 240 vezes superior à sanção de 10 milhões de euros aplicada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) a Portugal por incumprimento das obrigações relacionadas com a Rede Natura 2000.
A análise é da NBI-Natural Business Intelligence, consultora especializada na valorização do capital natural, que apontou ainda que os danos estão ligados a fenómenos hidrológicos, como cheias e saturação de solos, que resultaram da perda de capacidade natural de retenção de água nas bacias fluviais.
Segundo a consultora, a recuperação de ecossistemas naturais, como galerias ripícolas e zonas húmidas, poderia ter mitigado significativamente o impacto desses fenómenos extremos, conforme indicam estudos científicos europeus.
A análise indica também que entre 40% e 55% dos danos totais causados pelas tempestades podem estar relacionados a fatores hidrológicos, o que corresponde a perdas estimadas entre 2.200 e 3.300 milhões de euros. Num cenário conservador, a NBI estima que cerca de 15% desses danos poderiam ser atenuados por meio de soluções baseadas na natureza, o que representaria uma redução potencial de perdas entre 330 e 495 milhões de euros.
Em comparação, programas de restauro ecológico em bacias hidrográficas prioritárias poderiam requerer investimentos entre 15 e 25 milhões de euros, valor que poderia ser reduzido com o apoio de instrumentos europeus de cofinanciamento, como os programas LIFE, FEDER ou FEADER.
Segundo Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da NBI, “estes números mostram que o risco ecológico está a tornar-se um risco económico cada vez mais relevante para empresas, municípios e infraestruturas críticas. A multa do TJUE e as cheias que atingiram o país são, no fundo, duas expressões da mesma realidade: o custo crescente da inação”.
De acordo com a análise, as tempestades de 2026 revelaram três perfis distintos de vulnerabilidade territorial em Portugal, com particular destaque para as regiões de Leiria, Coimbra e Alcácer do Sal.
Em Leiria, onde ocorreram entre 50% e 60% dos prejuízos nacionais, os danos foram principalmente causados por ventos ciclónicos e pela fragilidade das infraestruturas e sistemas naturais de proteção costeira. A Mata Nacional de Leiria, originalmente plantada para estabilizar as dunas e proteger o território dos ventos atlânticos, foi novamente severamente afetada, destacando como a degradação progressiva de ecossistemas estratégicos compromete a capacidade natural de proteção do território.
Segundo a NBI-Natural Business Intelligence, em Coimbra e Alcácer do Sal, o padrão de danos foi distinto, mas igualmente revelador.
Em Coimbra, as cheias do Rio Mondego e os deslizamentos de terra refletem a perda gradual das planícies naturais de inundação e a crescente pressão urbana e agrícola sobre as margens fluviais.
Em Alcácer do Sal, a subida do nível do Rio Sado e as descargas das barragens a montante deixaram centenas de habitações inabitáveis, evidenciando a vulnerabilidade das planícies estuarinas quando a gestão hídrica e o ordenamento do território não acompanham a intensificação dos fenómenos climáticos.
A consultora enfatizou ainda que estes três casos ilustram que muitos dos impactos observados não são causados apenas pela intensidade das tempestades, mas também por décadas de transformação do território que reduziram a capacidade natural de absorver eventos extremos.
Com a UE a exigir que os Estados-Membros apresentem os seus Planos Nacionais de Restauro da Natureza até agosto de 2026, Portugal tem “uma oportunidade estratégica para alinhar políticas de conservação da natureza, gestão do território e adaptação climática”, frisou a consultora, que adiantou ainda que a evidência científica indica que investir na resiliência ecológica do território pode reduzir significativamente os custos económicos causados por eventos extremos.
Para Nuno Gaspar de Oliveira, “este momento exige uma abordagem mais integrada entre Estado, municípios e setor privado, capaz de transformar riscos ecológicos em oportunidades de investimento em resiliência territorial. Programas de restauro ecológico, mecanismos de financiamento ligados à natureza e novas ferramentas de avaliação de risco ambiental podem tornar-se instrumentos centrais para proteger a economia e os territórios face a fenómenos climáticos cada vez mais intensos”.

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