O Dia Internacional do Resíduo Zero, assinalado hoje, 30 de março, foi marcado pela divulgação de um estudo da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável sobre desperdício alimentar ao longo de toda a cadeia de abastecimento, incluindo ao nível doméstico. Os dados apontam para volumes significativos de alimentos desperdiçados em Portugal, com implicações ambientais, éticas e económicas.
O estudo, realizado no município de Ourique, revelou que uma população de cerca de 300 habitantes pode gerar até 12 toneladas de alimentos desperdiçados por ano na fração indiferenciada. Extrapolando para uma cidade de 100 mil habitantes, os resíduos alimentares poderiam ascender a 3.760 toneladas anuais.
A ZERO estima que, a nível nacional, o desperdício alimentar possa chegar a cerca de 376 mil toneladas por ano, equivalentes a 38 kg por habitante anualmente, ou cerca de mil toneladas por dia.
A investigação baseou-se numa caracterização física dos resíduos indiferenciados, complementada com metodologias utilizadas em regiões espanholas para distinguir desperdício alimentar evitável de restos inevitáveis da confeção. Foram analisados três circuitos porta-a-porta de Ourique, num total de 250 kg de resíduos, recolhidos em dois momentos ao longo de um ano.
Os resultados indicam que, mesmo com separação na origem dos biorresíduos, as famílias continuam a colocar no lixo uma parte relevante dos alimentos, incluindo restos de refeições, frutas, legumes e pão, alguns ainda nas suas embalagens. Nos três bairros estudados, 51% dos resíduos indiferenciados eram biorresíduos, dos quais 28% correspondiam a desperdício alimentar evitável, representando 16% do total de resíduos caracterizados.
A ZERO sublinha a importância de medidas alinhadas com a abordagem Resíduo Zero (Zero Waste) para reduzir o desperdício alimentar, que podem ser aplicadas em planos municipais (PAPERSU) ou em entidades privadas, como empresas do canal HORECA, instituições de ensino e outros setores.
Entre as ações recomendadas estão a racionalização das doses em escolas e instituições, programas de sensibilização em mercados municipais, caraterizações periódicas dos resíduos indiferenciados, planos de combate ao desperdício nas empresas e a eliminação de critérios estéticos para venda de produtos agrícolas.
Segundo a ZERO, o caso de Ourique evidencia que, mesmo com sistemas de recolha seletiva e tratamento adequados, é fundamental conhecer a composição dos resíduos indiferenciados. Este diagnóstico permite identificar padrões de consumo e desperdício e constitui uma ferramenta essencial para a definição de políticas públicas e estratégias de redução de desperdício alimentar a nível local.

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