Transição energética

Renováveis devem crescer até 2050, mas ritmo pode não cumprir objetivo de 1,5°C

Renováveis devem crescer até 2050, mas ritmo pode não cumprir objetivo de 1,5°C iStock

Um novo modelo baseado em inteligência artificial (IA) desenvolvido pela Universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, projeta que a energia eólica e solar poderão representar cerca de 45% da eletricidade global até 2050, embora este crescimento não seja suficiente para cumprir o objetivo climático de limitar o aquecimento a 1,5°C.

Segundo o estudo, a energia eólica deverá atingir cerca de 25% da produção global de eletricidade, enquanto a solar poderá alcançar aproximadamente 20%. Estes valores estão alinhados com trajetórias compatíveis com um aumento de temperatura de 2°C, mas ficam aquém das metas mais ambiciosas.

Os investigadores destacam que prever a evolução destas tecnologias continua a ser um desafio, devido à combinação entre a redução de custos e obstáculos crescentes, como oposição pública, limitações de infraestruturas e mudanças nas políticas.

“Os modelos existentes são muito bons a identificar o que precisa de acontecer para atingir as metas climáticas, mas não conseguem dizer-nos quais os desenvolvimentos mais prováveis. Foi essa lacuna que quisemos preencher”, explica Jessica Jewell, professora na Universidade de Chalmers.

A análise, baseada em dados de mais de 200 países, identificou um padrão comum no crescimento das energias renováveis, marcado por períodos de expansão gradual intercalados com fases de crescimento acelerado, muitas vezes impulsionadas por alterações políticas.

“A maioria dos modelos assume uma curva de crescimento suave, mas isso não corresponde à realidade. O crescimento ocorre frequentemente em picos, e ignorar isso pode levar a erros na previsão”, afirma Avi Jakhmola, primeiro autor do estudo.

Para melhorar a precisão das projeções, os investigadores desenvolveram um modelo que simula 13 mil cenários possíveis de evolução das energias eólica e solar. Através de técnicas de aprendizagem automática, o sistema foi treinado para identificar os resultados mais prováveis com base em padrões históricos.

O modelo também permite enquadrar compromissos internacionais, como o objetivo definido na COP28 de triplicar a capacidade de energias renováveis até 2030. Segundo o estudo, esta meta situa-se perto do percentil 95 das projeções, o que significa que exige taxas de crescimento raramente observadas.

“Triplicar a capacidade de renováveis não é impossível, mas exigiria que tudo corresse extremamente bem em todos os países”, refere Jessica Jewell.

Os investigadores alertam ainda para a importância do timing na aceleração da transição energética. “Se começarmos agora, as taxas de crescimento necessárias são exigentes, mas não inéditas. Mas se adiarmos até 2030, a aceleração necessária torna-se muito mais abrupta”, sublinha Avi Jakhmola.

Para validar a fiabilidade do modelo, a equipa testou-o com dados históricos, verificando que as previsões feitas com base em informação até 2015 correspondem à evolução registada nos anos seguintes. Este exercício reforça a confiança na ferramenta, descrita pelos investigadores como uma “máquina do tempo computacional”.

O estudo aponta ainda para o potencial de aplicação desta abordagem a outras tecnologias de baixo carbono, contribuindo para decisões mais informadas no contexto da transição energética. “Se for decisor, precisa de uma base realista para perceber até onde deve ir. Este estudo é um primeiro passo nesse sentido”, conclui Jessica Jewell.

 

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