Biodiversidade

Biodiversidade pode diminuir em comunidades vegetais com maior biomassa, conclui estudo

Biodiversidade pode diminuir em comunidades vegetais com maior biomassa, conclui estudo

Um estudo de autoria de investigadores portugueses concluiu que comunidades vegetais naturais podem perder espécies à medida que crescem e atingem limites elevados de biomassa.

A investigação, publicada na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, demonstra que comunidades vegetais naturais atingem um limite físico de compactação de biomassa, designado Interspecific Boundary Line. A partir desse ponto, deixam de conseguir acomodar mais indivíduos.

O limite era já conhecido em povoamentos monoespecíficos, mas o estudo demonstra a sua ocorrência ao nível comunitário, envolvendo múltiplas espécies. Segundo a investigação, a relação entre biodiversidade e biomassa não é linear: aumenta até um máximo e diminui depois.

O trabalho mostra a existência de self-thinning ao nível comunitário, um processo em que a competição por espaço elimina indivíduos e espécies menos competitivas. Até agora, este fenómeno estava demonstrado apenas em povoamentos monoespecíficos.

O estudo foi realizado na Charneca de Caparica e monitorizou 17.089 plantas de 46 espécies, distribuídas por três áreas de amostra e mais de uma centena de replicados, ao longo de 2021 e 2022.

Os investigadores identificaram a disponibilidade de água como o principal mediador desta dinâmica. Em 2021, ano de maior pluviosidade, as plantas cresceram mais e ocuparam o espaço com maior eficiência, o que levou à diminuição da diversidade por exclusão competitiva de indivíduos e espécies menos competitivas.

Em 2022, com menor pluviosidade, o crescimento das plantas foi travado e a ocupação do espaço diminuiu. Esta redução traduziu-se em menor competição e num aumento da diversidade.

“A um máximo de abundância de vida não corresponde um máximo de diversidade de vida. Abundância e diversidade não são sinónimos, e podem mesmo ser antagónicas em caso de extrema abundância”, afirma Vasco Vieira, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente/ARNET, da Universidade NOVA de Lisboa e autor principal do estudo.

O investigador acrescenta que o estudo, tal como outros anteriores, mostra que “a diversidade não pode ser tomada como um bioindicador universal da qualidade ambiental, contrariando a perceção dominante pela sociedade não-especializada, pois a um máximo de diversidade não correspondem máximos de abundância nem de qualidade e estabilidade ambientais”.

A investigação analisou ainda uma hipótese associada à teoria de “Gestão Holística” proposta por Allan Savory, segundo a qual a desertificação de pastagens pode resultar também da acumulação de talos secos de plantas mortas por falta de pastoreio, que impediriam o nascimento de novas plantas.

A equipa testou este cenário em parcelas cobertas por uma camada espessa de relva morta e seca, com uma média de 354 g de matéria seca por metro quadrado. Os resultados indicaram que a acumulação de biomassa morta não impediu o desenvolvimento de uma comunidade vegetal diversa. Segundo o estudo, essa camada funcionou como proteção e promoveu o crescimento de plantas mais suscetíveis à herbivoria e dissecação.

O trabalho aplicou ainda uma métrica ecológica para medir a proximidade de cada comunidade vegetal ao seu limite máximo de biomassa, permitindo avaliar a eficiência com que as plantas ocupam o espaço disponível.

Ao aplicar esta métrica separadamente à comunidade autóctone e à espécie invasora Oxalis pes-caprae, comum no sul da Europa, os investigadores identificaram uma vantagem competitiva da invasora: a capacidade de surgir cedo no inverno e ocupar rapidamente o espaço antes das espécies nativas.

Segundo a informação divulgada, os resultados podem apoiar decisores políticos e engenheiros ambientais no desenho de estratégias de restauro ecológico e planos de controlo de espécies invasoras, num contexto de alterações climáticas.

 

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